O gráfico de uma função do segundo grau é uma parábola, e toda parábola tem um ponto de virada: o vértice. Nele a função deixa de diminuir e passa a aumentar, ou o contrário. Por isso o vértice responde às perguntas de máximo e de mínimo: a maior área que um cercado pode ter, a altura máxima de um jato de água, o preço que produz a maior receita.
Este artigo mostra onde fica o vértice e por que ele fica ali, deduz as fórmulas e e as relaciona com a forma canônica, explica quando o vértice é ponto de máximo e quando é ponto de mínimo e, por fim, mostra como interpretá-lo em gráficos e em problemas, inclusive quando a variável só pode assumir alguns valores.
Vértice, eixo de simetria e concavidade
Uma função do segundo grau, ou função quadrática, é uma função da forma
Seu gráfico é uma parábola, e três elementos organizam o estudo do vértice.
- Concavidade. Depende só do sinal de . Se , a parábola tem concavidade voltada para cima; se , voltada para baixo. Os coeficientes e mudam a posição da parábola, mas não o sentido da concavidade. Quanto maior o valor absoluto de , mais fechada é a parábola.
- Eixo de simetria. É a reta vertical que divide a parábola em duas metades espelhadas. Dois pontos da parábola com a mesma ordenada estão à mesma distância do eixo, um de cada lado.
- Vértice. É o ponto em que a parábola encontra o seu eixo de simetria. Suas coordenadas são indicadas por , e o eixo é a reta de equação . Com concavidade para cima, o vértice é o ponto mais baixo do gráfico; com concavidade para baixo, o mais alto.
A Figura 1 mostra esses elementos na parábola de . As raízes são e , e o gráfico corta o eixo em , porque . O ponto tem a mesma altura que ; os dois estão a 3 unidades do eixo, um de cada lado. As raízes também estão à mesma distância do eixo, 2 unidades. O eixo é a reta , e o vértice é .
Fórmulas do vértice
A abscissa pela simetria
Para localizar o eixo de simetria, basta encontrar dois pontos da parábola com a mesma ordenada: o eixo passa exatamente no meio deles. Um par desses existe em qualquer função quadrática. O primeiro ponto é o intercepto , porque . O segundo tem abscissa :
Os pontos e estão na mesma altura. O eixo passa no ponto médio das abscissas:
Se , os dois pontos coincidem, e o raciocínio não se aplica diretamente; nesse caso para todo , o eixo de simetria é o próprio eixo , e , de acordo com a mesma fórmula.
Quando a função tem duas raízes reais e , elas também são pontos de mesma ordenada, . Então
o que concorda com a fórmula anterior, porque a soma das raízes é . Na Figura 1, e também .
A ordenada do vértice
Conhecido , a ordenada é o valor da função nesse ponto: . Substituindo na lei, obtém-se uma expressão geral:
em que é o discriminante, o mesmo número usado para calcular as raízes.
As duas expressões de dão o mesmo número. Calcular dispensa decorar a segunda e costuma produzir menos erros de sinal; é prática quando já foi calculado, por exemplo para encontrar as raízes. Na Figura 1, e, pela outra expressão, e .
Forma canônica
Completando o quadrado, toda função quadrática pode ser reescrita de modo que o vértice apareça na própria lei:
Como e , a lei fica
Essa é a forma canônica. Ela mostra o vértice diretamente, mas exige atenção aos sinais: em , o termo é o mesmo que , e o vértice é , não . A forma canônica também permite escrever a lei quando se conhecem o vértice e mais um ponto do gráfico, como mostra a seção sobre interpretação.
Máximo ou mínimo: o significado do vértice
A forma canônica explica por que o vértice é um extremo. Em , o termo nunca é negativo e só vale zero quando .
- Se , então , e portanto para todo , com igualdade só em . O número é o valor mínimo da função, atingido no ponto de mínimo .
- Se , então , e portanto . O número é o valor máximo, atingido no ponto de máximo .
Uma função quadrática definida em todos os números reais tem apenas um desses extremos. Com concavidade para cima, tem mínimo e não tem máximo, porque seus valores crescem sem limite quando se afasta de ; com concavidade para baixo, o contrário.
Imagem e intervalos de crescimento
O vértice também determina o conjunto dos valores que a função assume, a imagem, e os intervalos em que ela cresce ou decresce. Em , o valor da função depende de apenas pela distância entre e . Daí saem duas consequências.
- Simetria. Para qualquer número , , porque .
- Crescimento. Com , quanto mais longe de , maior o valor de : a função decresce até e cresce depois dele. Com , ocorre o contrário.
| Concavidade | voltada para cima | voltada para baixo |
| O vértice é | ponto de mínimo | ponto de máximo |
| é | o valor mínimo | o valor máximo |
| Imagem | ||
| Para | decresce | cresce |
| Para | cresce | decresce |
Na Figura 1, : a função decresce até , cresce depois, tem valor mínimo e imagem .
Interpretação no gráfico e em problemas
Lendo o vértice em um gráfico ou em uma tabela
Quando a função é dada por um gráfico ou por uma tabela, a simetria costuma ser o caminho mais curto até o vértice.
- Duas raízes conhecidas: é a média delas.
- Dois pontos de mesma altura: é a média das abscissas desses pontos.
- Tabela com valores de igualmente espaçados: valores iguais de dispostos simetricamente denunciam o eixo.
- Vértice e mais um ponto conhecidos: a forma canônica fornece . Se o vértice é e o gráfico passa por , então , ou seja, e . A lei é .
Raiz, vértice e intercepto
Três pontos notáveis de uma parábola costumam ser confundidos. Cada um responde a uma pergunta diferente.
| Ponto | Condição | Como obter | Em um gráfico de altura por tempo |
|---|---|---|---|
| Intercepto com o eixo | , porque | altura no instante inicial | |
| Raízes | resolver ; existem se | instantes em que a altura é zero | |
| Vértice | ponto de virada | e | instante e valor da altura máxima |
Os três só coincidem em casos particulares. O vértice é uma raiz quando , porque então e a parábola apenas toca o eixo . O vértice é o intercepto quando , porque então .
Domínio restrito e quantidades inteiras
O domínio de uma função quadrática é o conjunto dos números reais, a menos que o contexto imponha restrições. Em problemas, ele quase sempre impõe: medidas e tempos não podem ser negativos, recursos são limitados, e muitas quantidades só podem ser números inteiros. O vértice continua sendo calculado da mesma forma, mas é preciso verificar se ele é admissível.
- Vértice dentro do domínio. O extremo procurado é o próprio vértice.
- Vértice fora do domínio. Dentro de um intervalo que não contém , a função só cresce ou só decresce. Então o extremo do mesmo tipo do vértice, o máximo de uma parábola com concavidade para baixo ou o mínimo de uma com concavidade para cima, fica na extremidade do intervalo mais próxima de , desde que essa extremidade pertença ao domínio.
- Variável inteira. Se não é inteiro, o melhor valor admissível é o inteiro mais próximo de , porque o valor da função depende apenas da distância a . Se estiver exatamente no meio de dois inteiros, os dois dão o mesmo valor. Em qualquer caso, calcule nos inteiros candidatos: arredondar não autoriza usar o valor , que não é atingido.
Exemplos resolvidos
A Figura 2 contém os dados do exemplo intermediário.
Distinções importantes
Ponto de máximo e valor máximo. O ponto de máximo é , o valor da variável em que o máximo acontece; o valor máximo é . No jato de água, 1,5 m é a distância horizontal em que o jato é mais alto, e 1,25 m é a altura máxima. Responder um no lugar do outro é o erro mais comum nesses problemas.
Vértice e eixo de simetria. O vértice é um ponto, . O eixo de simetria é uma reta vertical, de equação . A equação descreve uma reta horizontal que só toca a parábola no vértice; ela não é eixo de simetria.
Concavidade e posição do vértice. O sinal de indica se o vértice é o ponto mais baixo ou o mais alto, e não se ele está acima ou abaixo do eixo . A parábola de tem e vértice abaixo do eixo, em ; a de também tem , mas vértice acima do eixo, em .
Raiz e vértice. As raízes são os pontos em que o gráfico encontra o eixo ; o vértice é o ponto de virada. Eles só coincidem quando . Uma parábola pode não ter raízes, mas sempre tem vértice.
Sinal de e sinal de . Em , o sinal de depende de e de juntos. Com e , por exemplo, é positivo, como em , cujo vértice está em .
Ótimo da função e ótimo do problema. O vértice dá o extremo da função em todos os reais. Se o domínio do problema é restrito ou só admite inteiros, o extremo do problema pode estar em uma extremidade do domínio ou em um inteiro vizinho de , e o valor pode não ser atingido.
Perguntas frequentes
Por que o vértice fica em x = −b/(2a), e não em x = −b/a?
Porque é a abscissa do ponto que tem a mesma altura do intercepto , e o eixo de simetria passa no meio desses dois pontos. Também é a soma das raízes, quando elas existem. O vértice fica na metade do caminho: .
Preciso decorar a fórmula da ordenada com o discriminante?
Não é necessário decorar . Depois de calcular , basta substituir na lei: . As duas formas dão o mesmo número, porque é exatamente o resultado dessa substituição feita com letras. A fórmula com é útil quando o discriminante já foi calculado.
Uma parábola sem raízes reais tem vértice?
Tem. A fórmula não depende das raízes. Em , com , não há raízes reais, e o vértice é . Como , a parábola fica inteira acima do eixo , e 4 é o valor mínimo.
O vértice pode estar sobre o eixo x?
Pode, quando . Nesse caso , a função tem uma única raiz, , e a parábola apenas toca o eixo no vértice. É o caso de , cujo vértice é .
Como saber se a pergunta pede a abscissa ou a ordenada do vértice?
Pela grandeza pedida. Perguntas como “em que instante”, “qual preço”, “quantas unidades” ou “qual medida” pedem o ponto de extremo, , ou o valor escolhido para a variável. Perguntas como “qual a altura máxima”, “qual a maior receita” ou “qual o menor custo” pedem o valor extremo, . A unidade ajuda a conferir: se a resposta deve estar em metros quadrados e é medido em metros, a resposta é um valor da função.
A parábola do gráfico é o caminho percorrido pelo objeto?
Nem sempre. Se uma bola é lançada verticalmente para cima, ela sobe e desce ao longo de uma mesma reta vertical, mas o gráfico da altura em função do tempo é uma parábola, porque, no modelo usual, que despreza a resistência do ar, a altura é uma função quadrática do tempo. O vértice desse gráfico indica o instante e o valor da altura máxima, e não um ponto de uma trajetória curva. O gráfico coincide com o desenho do caminho apenas quando os eixos representam posições, altura em função da distância horizontal, como no jato de água do exemplo intermediário.
Exercícios
Tente resolver antes de conferir a resposta.
Exercício 1
AutoralConsidere a função , definida para todo número real. Qual afirmação é correta?
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Resposta
Alternativa C. O valor mínimo é , e ele ocorre em .
Resolução
A lei está na forma canônica . Como , temos e : o vértice é . O coeficiente é positivo, então a concavidade é voltada para cima, e o vértice é o ponto mais baixo do gráfico. De fato, para todo , com igualdade só em ; logo , e o valor mínimo é atingido em .
Por que as outras estão erradas.
- A troca o sinal da abscissa: o termo corresponde a , e não a .
- B ignora a concavidade: com , a função não tem valor máximo, porque cresce sem limite quando se afasta de .
- D confunde o eixo de simetria, que é a reta vertical , com a ordenada do vértice.
- E confunde o intercepto com o vértice. O intercepto com o eixo é , e : o gráfico passa pela origem. As raízes são e , simétricas em relação a .
Exercício 2
AutoralA tabela mostra alguns valores de uma função do segundo grau .
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | |
|---|---|---|---|---|---|
| 7 | 2 | −1 | −2 | −1 |
(a) Determine o eixo de simetria e o vértice da parábola. (b) Escreva a lei de na forma canônica e na forma . (c) A função tem valor máximo ou mínimo? Qual é esse valor e qual é a imagem de ? (d) Sem substituir na lei, determine .
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Resposta
(a) Eixo ; vértice . (b) . (c) Valor mínimo , em ; imagem . (d) .
Resolução
(a) Os pontos e têm a mesma ordenada. Em uma parábola, pontos de mesma altura são simétricos em relação ao eixo, então o eixo passa no meio deles: . O vértice é o ponto do gráfico sobre o eixo, . Com o eixo em , cada ponto tem um par simétrico à mesma altura, como e ; o item (d) usa essa ideia.
(b) Na forma canônica, . Para achar , usa-se outro ponto da tabela, por exemplo : , logo . Então . Expandindo, . Conferência com o ponto : .
(c) Como , a concavidade é voltada para cima e o vértice é ponto de mínimo. O valor mínimo é , atingido em , e a imagem é o conjunto dos valores maiores ou iguais a , isto é, . Pelas fórmulas, e , de modo que , como antes.
(d) O ponto está 3 unidades à direita do eixo; o simétrico dele, 3 unidades à esquerda, é . Pela simetria, . Conferência pela lei: .
Exercício 3
AutoralUma confeitaria vende, por semana, 90 potes de doce a R$ 12,00 cada. Uma pesquisa com os clientes indica que cada redução de R$ 0,50 no preço aumentaria as vendas em 10 potes por semana. O preço só pode ser reduzido em passos inteiros de R$ 0,50. (a) Escreva a receita semanal , em reais, em função do número de reduções. (b) Calcule o vértice da parábola e explique por que ele não responde diretamente ao problema. (c) Qual preço, ou quais preços, dão a maior receita possível, e qual é essa receita?
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Resposta
(a) , com inteiro e . (b) Vértice ; não é um número inteiro de reduções. (c) R$ 8,50 (7 reduções, 160 potes) ou R$ 8,00 (8 reduções, 170 potes), com receita de R$ 1.360,00 nos dois casos.
Resolução
(a) Com reduções, o preço é reais e são vendidos potes. A receita é preço vezes quantidade:
O número de reduções é inteiro, , e o preço precisa continuar positivo: , isto é, .
(b) Como , a parábola tem concavidade para baixo e o vértice é ponto de máximo. e . Mas 7,5 reduções significariam um preço de R$ 8,25, que não é permitido: o preço só muda em passos de R$ 0,50. O vértice indica o máximo da função definida em todos os reais, não o máximo do problema.
(c) Na forma canônica, : quanto mais perto estiver de 7,5, maior a receita. Os inteiros mais próximos são 7 e 8, os dois a 0,5 de distância, e por isso dão a mesma receita: e . Qualquer outro inteiro fica mais longe de 7,5 e dá receita menor; por exemplo, .
A receita máxima possível é R$ 1.360,00, obtida com o preço de R$ 8,50 (160 potes) ou de R$ 8,00 (170 potes). Se houver custo por pote, a confeitaria pode preferir vender menos potes pelo mesmo faturamento, mas essa comparação já envolve o lucro, e não apenas a receita.
Referências
- Portal da Matemática OBMEP/IMPA — Material Teórico, Módulo Função Quadrática: Definições, Máximos e Mínimos
BENEVIDES, Fabrício Siqueira (autor); CAMINHA M. NETO, Antonio (revisor). Material Teórico — Módulo Função Quadrática, Primeiro Ano do Ensino Médio: Função Quadrática: Definições, Máximos e Mínimos. Portal da Matemática OBMEP/IMPA. Seções Função quadrática, Forma canônica e Máximos e mínimos (Exemplos 1 a 4), p. 1–3. PDF ligado ao módulo https://portaldaobmep.impa.br/index.php/modulo/ver?modulo=61.
- Portal da Matemática OBMEP/IMPA — Material Teórico, Módulo Função Quadrática: Gráfico da Função Quadrática e Inequações de Segundo Grau
BENEVIDES, Fabrício Siqueira (autor); CAMINHA M. NETO, Antonio (revisor). Material Teórico — Módulo Função Quadrática, Primeiro Ano do Ensino Médio: Gráfico da função quadrática e inequações de segundo grau. Portal da Matemática OBMEP/IMPA. Seção 1 (A parábola; o gráfico de uma função quadrática é uma parábola), seção 2 (Concavidade; Abertura) e seção 3 (Esboço do gráfico; Alternativa pela forma canônica), p. 1–5.
- Portal da Matemática OBMEP/IMPA — Material Teórico, Módulo Função Quadrática: Exercícios
BENEVIDES, Fabrício Siqueira (autor); CAMINHA M. NETO, Antonio (revisor). Material Teórico — Módulo Função Quadrática, Primeiro Ano do Ensino Médio: Função Quadrática: Exercícios. Portal da Matemática OBMEP/IMPA. Solução do exercício sobre máximo e mínimo com domínio ℝ e Dicas para o Professor, p. 4–5.
- OpenStax College Algebra 2e — 5.1 Quadratic Functions
ABRAMSON, Jay. College Algebra 2e. Houston: OpenStax, 2021. Capítulo 5, seção 5.1, subtítulos Recognizing Characteristics of Parabolas, Understanding How the Graphs of Parabolas are Related to Their Quadratic Functions, Finding the Domain and Range of a Quadratic Function, Determining the Maximum and Minimum Values of Quadratic Functions e Finding the x- and y-Intercepts of a Quadratic Function (Example 9).



