Transição demográfica é a passagem de uma população com natalidade e mortalidade altas para outra em que as duas são baixas. No caminho, o ritmo de crescimento muda, a estrutura etária se transforma e a sociedade passa a ter, proporcionalmente, menos crianças e mais adultos e idosos. O Brasil fez essa passagem em poucas décadas: na década de 1960 as mulheres tinham, em média, mais de 6 filhos; no Censo 2010, 1,9; nas estimativas mais recentes do IBGE, pouco mais de 1,5.
O percurso deste artigo começa pelos indicadores que descrevem uma população — natalidade, mortalidade, fecundidade, crescimento natural e migração —, porque sem eles o modelo vira uma lista de nomes. Em seguida, apresenta as fases do modelo e seus limites, aplica o modelo ao Brasil com dados datados e diferenças regionais, discute bônus demográfico e envelhecimento e termina com os conceitos de trabalho usados pelo IBGE (população em idade de trabalhar, força de trabalho, ocupados e desocupados) e a distribuição dos ocupados por setores.
Os indicadores antes do modelo
Natalidade, mortalidade e crescimento natural
A taxa bruta de natalidade (TBN) é o número de nascidos vivos em um ano por mil habitantes. A taxa bruta de mortalidade (TBM) é o número de óbitos no ano por mil habitantes. A diferença entre as duas é o crescimento natural, também chamado crescimento vegetativo.
O crescimento natural não é o crescimento total. Uma população também muda pela migração: o saldo migratório é a diferença entre as pessoas que entram e as que saem de um território. Para um estado ou uma região, a migração pode pesar tanto quanto os nascimentos e os óbitos.
Fecundidade, mortalidade infantil e esperança de vida
A TBN depende do número de mulheres em idade reprodutiva na população. Para comparar o comportamento reprodutivo entre lugares e épocas, usa-se a taxa de fecundidade total (TFT): o número médio de filhos nascidos vivos que uma mulher teria ao final do período reprodutivo, mantidas as taxas de fecundidade por idade de um determinado ano. O nível de reposição é de cerca de 2,1 filhos por mulher: dois filhos repõem os pais, e o excedente de 0,1 aproxima as pessoas que morrem antes de chegar à idade reprodutiva.
Do lado da mortalidade, dois indicadores são centrais. A taxa de mortalidade infantil conta os óbitos de menores de 1 ano por mil nascidos vivos. A esperança de vida ao nascer é o número médio de anos que um recém-nascido viveria se enfrentasse, ao longo da vida, as taxas de mortalidade por idade observadas em um ano. Ela não é a idade em que "as pessoas morrem": é uma medida-resumo das condições de mortalidade daquele ano.
Fases da transição demográfica
O modelo da transição demográfica foi formulado nas primeiras décadas do século XX a partir da experiência de países europeus industrializados. Ele descreve a passagem de um regime de natalidade e mortalidade altas para outro em que ambas são baixas, com um período intermediário de desequilíbrio.
- Fase 1 — pré-transição. Natalidade alta e quase estável; mortalidade alta e oscilante. O crescimento natural é baixo e a estrutura etária é jovem.
- Fase 2 — queda da mortalidade. Saneamento, vacinação, atenção à saúde e melhores condições de vida reduzem a mortalidade, sobretudo a infantil, enquanto a natalidade continua alta. O descompasso produz o crescimento populacional mais rápido de todo o processo. Como sobrevivem mais crianças, a estrutura etária fica, de início, ainda mais jovem.
- Fase 3 — queda da natalidade. A fecundidade começa a cair e a mortalidade continua caindo. O ritmo de crescimento diminui. A base da pirâmide etária se estreita e aumenta o peso da população adulta.
- Fase 4 — taxas baixas. Natalidade e mortalidade ficam baixas e próximas; o crescimento natural é pequeno. A proporção de idosos aumenta. Se a fecundidade permanece abaixo do nível de reposição, a mortalidade bruta — que sobe quando há mais idosos — pode superar a natalidade, e o crescimento natural fica negativo; é o que as projeções do IBGE indicam para o Brasil a partir de 2042. Alguns autores falam em uma "segunda transição demográfica", marcada por fecundidade persistentemente abaixo da reposição e ganhos adicionais de longevidade; não há consenso sobre esse conceito.
Um modelo, não um calendário
O modelo resume regularidades; não é uma lei nem um roteiro obrigatório.
- Os tempos variam muito. Nos países do oeste da Europa, a transição durou mais de um século; em países como o Brasil, ocorreu em poucas décadas.
- Não há um único motor. A ideia de que o desenvolvimento econômico seria condição necessária para a queda da natalidade e da mortalidade foi questionada e rejeitada: as experiências do século XX mostraram múltiplos fatores explicativos, como políticas de saúde, escolarização e trabalho das mulheres e urbanização.
- Fases diferentes convivem no mesmo país. Regiões, grupos sociais e áreas urbanas e rurais podem estar em momentos distintos.
- O ponto de chegada não é fixo. O modelo clássico supunha um novo equilíbrio. Na prática, a fecundidade pode ficar muito abaixo da reposição, e a mortalidade pode subir temporariamente — como na pandemia de covid-19 (ver adiante).
Transição demográfica no Brasil
Uma transição rápida
Os dados dos censos analisados por Vasconcelos e Gomes (2012) permitem acompanhar a transição brasileira.
- Décadas de 1950 e 1960 — mortalidade em queda, natalidade alta. Mais de 40 nascimentos por mil habitantes e mais de 6 filhos por mulher, com a mortalidade já em queda. Resultado: as maiores taxas de crescimento populacional da história do país, cerca de 3,1% ao ano nos anos 1950 e 2,9% nos anos 1960. A população era muito jovem (idade mediana de 18 anos).
- Meados dos anos 1960 em diante — começa a queda da fecundidade. Em 1970, a TBN ainda era de 37,7 ‰ e a TFT de 5,8 filhos por mulher.
- 1970–1991 — a "revolução demográfica". Em 1980, 4,4 filhos por mulher e TBN de 31,7 ‰; em 1991, 2,9 filhos por mulher e TBN de 23,7 ‰. A mortalidade infantil caiu de 83 por mil nascidos vivos (1980) para 45,2 (1991), e a esperança de vida chegou a 65,8 anos.
- 1991–2010 — fecundidade abaixo da reposição. No Censo 2010, a TFT foi de 1,9 filho por mulher, a mortalidade infantil de 16,2 por mil e a esperança de vida de 73,5 anos.
As estimativas mais recentes do IBGE, da Revisão 2024 das Projeções da População (que concilia os Censos 2000, 2010 e 2022 com registros de nascimentos e óbitos), indicam para 2023 uma TBN de 12,0 ‰, uma TBM de 7,0 ‰, crescimento natural de 5,0 ‰ (0,5% ao ano), TFT de 1,57 filho por mulher e esperança de vida ao nascer de 76,4 anos.
As causas combinam saúde pública e mudanças sociais. A queda da mortalidade está ligada ao maior acesso a água e esgoto, à atenção à saúde e às campanhas de vacinação. A queda da fecundidade está associada à escolarização das mulheres e à sua inserção no mercado de trabalho, especialmente nas cidades.
A trajetória não é uma linha reta. Na Revisão 2024, a esperança de vida ao nascer estimada para 2019 era de 76,2 anos; caiu para 74,8 em 2020 e 72,8 em 2021, durante a pandemia de covid-19, e voltou a 76,4 em 2023.
Estrutura etária: da pirâmide à forma mais retangular
A mudança das taxas aparece na estrutura etária. Os censos mostram a redução da parcela de crianças e o aumento da parcela de adultos e idosos:
| Grupo de idade | 1970 | 1991 | 2010 | 2022 |
|---|---|---|---|---|
| 0 a 14 anos | 42,1 | 34,7 | 24,1 | 19,8 |
| 15 a 64 anos | 54,8 | 60,4 | 68,5 | 69,3 |
| 65 anos ou mais | 3,2 | 4,8 | 7,4 | 10,9 |
| 60 anos ou mais | 5,1 | 7,3 | 10,8 | 15,8 |
Distribuição da população por idade (% da população total de cada censo). Fonte: IBGE; 1970–2010: Censos Demográficos, resultados da amostra (Sidra, tabela 200); 2022: Censo Demográfico (Sidra, tabela 9514). Cálculo próprio. As linhas "65 ou mais" e "60 ou mais" se sobrepõem: não devem ser somadas.
Em 1991, a pirâmide ainda tinha a base como parte mais larga. Em 2022, os grupos de 0 a 19 anos são menores que os de 20 a 44 anos: a base se estreitou porque nascem menos crianças, e as gerações numerosas das décadas de 1980 e 1990 estão agora nas idades adultas.
Diferenças regionais
A transição não ocorreu ao mesmo tempo em todo o país. Em 1970, Sudeste, Sul e Centro-Oeste já estavam em transição, enquanto Norte e Nordeste, com 8,15 e 7,53 filhos por mulher, estavam em situação de pré-transição. As diferenças diminuíram, mas não desapareceram:
| Região | TFT 2022 (filhos por mulher) | 0 a 14 anos (%) | 65 anos ou mais (%) | Índice de envelhecimento | Idade mediana (anos) |
|---|---|---|---|---|---|
| Norte | 1,87 | 25,2 | 7,0 | 27,6 | 29 |
| Nordeste | 1,57 | 21,1 | 10,1 | 47,9 | 33 |
| Sudeste | 1,48 | 18,0 | 12,2 | 67,8 | 37 |
| Sul | 1,56 | 18,5 | 12,1 | 65,6 | 36 |
| Centro-Oeste | 1,70 | 20,9 | 8,9 | 42,4 | 33 |
| Brasil | 1,58 | 19,8 | 10,9 | 55,2 | 35 |
Fontes: TFT — IBGE, Projeções da População, Revisão 2024 (estimativa para 2022). Demais colunas — IBGE, Censo 2022 (Sidra, tabelas 9514 e 9515). Índice de envelhecimento: pessoas de 65 anos ou mais para cada 100 de 0 a 14 anos.
A migração também molda essas diferenças. Estados que perderam muitos jovens e adultos para outras regiões têm proporção de idosos maior do que a sua fecundidade e mortalidade fariam esperar — o IBGE cita o caso da Paraíba, com proporção de idosos próxima à de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Estados que atraem migrantes jovens, como Roraima e Amapá, têm estruturas etárias mais jovens.
Inércia demográfica
A fecundidade brasileira ficou abaixo do nível de reposição na primeira década dos anos 2000 (2,4 filhos por mulher no Censo 2000; 1,9 no Censo 2010), mas a população continua crescendo. Isso é a inércia demográfica (ou momento populacional): as gerações numerosas nascidas quando a fecundidade era alta estão agora em idade reprodutiva; mesmo com poucos filhos por mulher, o número total de nascimentos ainda supera o de óbitos. Pela Revisão 2024, o crescimento natural só ficaria negativo a partir de 2042, e a população brasileira atingiria o máximo em 2041, com cerca de 220 milhões de habitantes. Esses valores são projeções: dependem de hipóteses sobre fecundidade, mortalidade e migração e mudam a cada revisão.
Bônus demográfico e envelhecimento populacional
Razão de dependência
A razão de dependência compara os grupos considerados economicamente dependentes com o grupo em idade potencialmente ativa. Há duas convenções em uso, e é preciso dizer qual está sendo usada:
Bônus demográfico: uma janela, não uma garantia
Quando a fecundidade cai, a parcela de crianças diminui antes que a de idosos aumente muito. Durante algumas décadas, a população em idade ativa cresce mais do que os grupos dependentes e a razão de dependência cai. Esse período é chamado de bônus ou dividendo demográfico.
Em teoria, uma proporção maior de pessoas em idade de produzir favorece o crescimento econômico e a poupança. Mas o IBGE ressalta que o bônus não é determinado apenas pelas condições demográficas: os benefícios supõem cobertura e qualidade da educação e políticas de emprego capazes de incorporar essa população ao mercado de trabalho. Por isso ele é chamado de "janela de oportunidades": favorece, mas não garante, as mudanças desejadas. Se os adultos estão desempregados ou fora do mercado de trabalho, a vantagem demográfica pode se perder.
Pela Revisão 2024 das projeções, a razão de dependência do Brasil passou de 56,1 em 2000 para o mínimo de 44,4 em 2017; ela deve voltar a subir — 45,9 em 2030 e 58,3 em 2050 (valores projetados). A queda do componente jovem continua, mas passou a ser superada pelo aumento do componente idoso. A janela não se fecha de um dia para o outro: a razão ainda é baixa em comparação com 2000, mas a tendência se inverteu.
Envelhecimento populacional
Envelhecimento populacional é o aumento da proporção de idosos na população. Mede-se pela participação dos idosos (60 ou 65 anos ou mais, conforme a fonte), pelo índice de envelhecimento ou pela idade mediana. No Brasil, a proporção de pessoas com 65 anos ou mais passou de 3,2% em 1970 para 10,9% em 2022, e a idade mediana chegou a 35 anos no Censo 2022.
O envelhecimento de uma população é causado, principalmente, pela queda da fecundidade, que reduz o peso das novas gerações; a queda da mortalidade em todas as idades também contribui, porque mais pessoas chegam às idades avançadas e vivem mais tempo nelas.
Idosos não são um grupo homogêneo. No Censo 2022, havia 17,8 milhões de pessoas de 60 a 69 anos e 4,6 milhões com 80 anos ou mais; as necessidades de saúde, renda e cuidado são muito diferentes entre esses grupos. Há também mais mulheres do que homens nas idades avançadas, porque a mortalidade masculina é maior em todas as idades: entre as pessoas de 60 anos ou mais, havia cerca de 80 homens para cada 100 mulheres; entre as de 80 anos ou mais, cerca de 62. E há diferenças regionais importantes, como mostram os dados por região. A idade de 60 anos é o marco legal do Estatuto da Pessoa Idosa; a de 65 aparece em outros indicadores, como uma das razões de dependência das projeções e o índice de envelhecimento divulgado com o Censo 2022 — daí a necessidade de conferir o corte usado em cada dado.
PEA (População Economicamente Ativa) e setores de ocupação
Os conceitos da PNAD Contínua
O termo População Economicamente Ativa (PEA) aparece em livros didáticos e em estudos anteriores. Na PNAD Contínua, a pesquisa do IBGE que acompanha o mercado de trabalho desde 2012, o conjunto equivalente é chamado de força de trabalho: as pessoas ocupadas mais as desocupadas. Os conceitos, na semana de referência da pesquisa:
- Pessoas em idade de trabalhar (PIT): pessoas de 14 anos ou mais.
- Ocupadas: trabalharam pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado (em dinheiro, produtos ou benefícios) ou sem remuneração em ajuda a atividade econômica de membro do domicílio, ou estavam temporariamente afastadas de um trabalho remunerado.
- Desocupadas: estavam sem trabalho, tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo nos 30 dias anteriores e estavam disponíveis para assumi-lo. Também entram as que já tinham conseguido trabalho para começar depois.
- Força de trabalho: ocupadas + desocupadas.
- Fora da força de trabalho: pessoas em idade de trabalhar que não estavam ocupadas nem desocupadas — por exemplo, estudantes que não procuravam trabalho, aposentados e pessoas que cuidavam da casa sem procurar trabalho.
Na PNAD Contínua do 2º trimestre de 2026 (abril a junho), o Brasil tinha 175,4 milhões de pessoas em idade de trabalhar; 108,9 milhões na força de trabalho (103,1 milhões ocupados e 5,9 milhões desocupados) e 66,5 milhões fora da força de trabalho. A taxa de participação foi de 62,1%, a taxa de desocupação de 5,4% e a taxa de informalidade dos ocupados de 37,4%. O Censo também investiga trabalho, mas com questionário e data diferentes; números do Censo e da PNAD não devem ser comparados diretamente.
Setores de ocupação
A distribuição dos ocupados por atividade mostra a estrutura da economia. A divisão clássica em setor primário (agropecuária, pesca, extrativismo), secundário (indústria e construção) e terciário (comércio e serviços) é uma simplificação: a PNAD Contínua usa grupamentos de atividade mais detalhados, que podem ser reagrupados.
| Grupamento de atividade (PNAD Contínua) | Ocupados (milhões) | % dos ocupados |
|---|---|---|
| Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura | 7,9 | 7,7 |
| Indústria geral (a de transformação responde por 11,3%; o restante são outras atividades industriais) | 13,1 | 12,7 |
| Construção | 7,5 | 7,2 |
| Comércio e reparação de veículos | 19,4 | 18,8 |
| Administração pública, defesa, seguridade, educação, saúde e serviços sociais | 19,4 | 18,8 |
| Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas | 13,2 | 12,8 |
| Transporte, armazenagem e correio | 6,2 | 6,0 |
| Alojamento e alimentação | 5,5 | 5,3 |
| Serviços domésticos | 5,4 | 5,3 |
| Outros serviços | 5,4 | 5,2 |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua, 2º trimestre de 2026 (Sidra, tabela 5434). Atividades mal definidas: 0,1%.
Somando comércio e os grupamentos de serviços, cerca de 72% dos ocupados estavam no terciário; indústria e construção reuniam cerca de 20%, e a agropecuária, menos de 8%. Esses números descrevem onde as pessoas trabalham, não o peso de cada atividade na produção: participação no emprego e participação no PIB são indicadores diferentes.
Exemplos resolvidos
Distinções importantes
- Crescimento natural × crescimento total. O natural é nascimentos menos óbitos; o total inclui o saldo migratório.
- TBN × TFT. A TBN depende da estrutura etária; a TFT mede filhos por mulher e é a base para falar em nível de reposição.
- Taxa por mil × porcentagem. 5 ‰ = 0,5%.
- Estimativa × projeção × censo. O censo conta a população em uma data; as estimativas reconstroem anos passados combinando censos e registros; as projeções dependem de hipóteses sobre o futuro e mudam a cada revisão.
- Esperança de vida × envelhecimento × número de idosos. Mortalidade, proporções e números absolutos são coisas diferentes.
- 60+ × 65+. Confira o corte da fonte antes de comparar dados de idosos ou razões de dependência.
- Idade ativa (15–64 ou 15–59) × idade de trabalhar (14+) × força de trabalho. A primeira é convenção demográfica; a segunda é o recorte da PNAD Contínua; a terceira reúne quem trabalha ou procura trabalho.
- Taxa de desocupação × nível da desocupação. A primeira divide os desocupados pela força de trabalho; o segundo, pela população em idade de trabalhar.
Perguntas frequentes
Se a fecundidade está abaixo de 2,1, por que a população brasileira ainda cresce?
Por inércia demográfica. As gerações nascidas quando a fecundidade era alta estão agora em idade reprodutiva; mesmo com menos filhos por mulher, há muitas mulheres tendo filhos, e o número de nascimentos ainda supera o de óbitos. Com o envelhecimento dessas gerações, os óbitos aumentam e os nascimentos diminuem. Pela Revisão 2024 das projeções do IBGE, o crescimento natural ficaria negativo a partir de 2042.
Envelhecimento da população é um problema?
Não em si. Ele resulta, em grande parte, de conquistas: menos mortes na infância, mais controle das mulheres sobre a fecundidade e vidas mais longas. O IBGE observa que o processo não deve ser considerado necessariamente um problema, mas exige preparação: financiamento da previdência, serviços de saúde e ações de proteção e cuidado para os idosos. As dificuldades aparecem quando as políticas não acompanham a mudança.
Todos os países vão passar pelas mesmas fases no mesmo tempo?
Não. O modelo descreve uma tendência observada, mas o ritmo e a sequência variam: a Europa ocidental levou mais de um século; o Brasil, poucas décadas. Há países em que a fecundidade continua alta, países em que ela caiu muito abaixo da reposição e regiões dentro de um mesmo país em fases diferentes. O modelo não prevê datas.
Por que o IBGE considera idade de trabalhar a partir de 14 anos?
É o recorte adotado pela PNAD Contínua para investigar trabalho e rendimento, definido nas notas metodológicas da pesquisa. Não significa que o IBGE recomende o trabalho aos 14 anos nem que toda atividade nessa idade seja permitida: é um recorte estatístico para medir o mercado de trabalho, que também permite acompanhar o trabalho de adolescentes.
Quem desistiu de procurar emprego conta como desempregado?
Não entra na taxa de desocupação. Para ser desocupada, a pessoa precisa ter tomado providência efetiva para conseguir trabalho nos 30 dias anteriores e estar disponível. Quem gostaria de trabalhar mas não procurou fica fora da força de trabalho. Por isso, uma queda da taxa de desocupação pode acontecer tanto porque mais pessoas conseguiram emprego quanto porque menos pessoas procuraram — é preciso olhar também o nível da ocupação e a taxa de participação.
Mais idosos significam, necessariamente, menos trabalhadores?
Não automaticamente. A proporção de pessoas de 15 a 64 anos tende a cair nas próximas décadas, mas o número de trabalhadores depende da taxa de participação, da escolaridade, da saúde, das regras de aposentadoria e da inserção das mulheres e dos mais velhos no mercado de trabalho. Estrutura etária cria tendências; comportamento e políticas definem o resultado.
Exercícios
Tente resolver antes de conferir a resposta.
Exercício 1
AutoralExercício elaborado para este artigo. Na Revisão 2024 das Projeções da População do IBGE, as estimativas para o Brasil em 2010 são: taxa bruta de natalidade de 15,13 ‰ e taxa bruta de mortalidade de 6,18 ‰.
Qual é o crescimento natural (vegetativo) correspondente?
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Resposta
Alternativa b.
Resolução
Cálculo. Crescimento natural = TBN − TBM = ‰, isto é, 8,95 pessoas a mais para cada 1 000 habitantes em um ano. Para converter de ‰ para %, divide-se por 10: ao ano.
Distratores:
- a) Troca ‰ por %: 8,95 ‰ não é 8,95%. Um crescimento de quase 9% ao ano dobraria a população em cerca de oito anos.
- c) Nascimentos acrescentam pessoas e óbitos retiram; por isso as taxas se subtraem.
- d) Divide por 100 em vez de 10: confunde a conversão de por mil para por cem.
- e) O saldo migratório é necessário para o crescimento total, não para o crescimento natural, que depende só de nascimentos e óbitos.
Interpretação. Com mortalidade baixa e natalidade em queda, o Brasil de 2010 estava no fim da fase de queda da natalidade do modelo: ainda crescia, mas cada vez mais devagar.
Exercício 2
AutoralExercício elaborado para este artigo. Um estudo do IBGE publicado em 2015 observa que a Paraíba tinha mais de 10% de idosos na população — valor próximo ao de estados como São Paulo, Paraná e Santa Catarina — mesmo com fecundidade e mortalidade mais altas que as desses estados. Já Roraima e Amapá tinham cerca de 5% de idosos.
Explique como um estado com fecundidade mais alta pode ter proporção de idosos semelhante à de estados com fecundidade mais baixa. Na resposta, use os três componentes da dinâmica demográfica e diga por que o modelo da transição, aplicado só com natalidade e mortalidade, não basta para explicar o caso.
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Resposta
A migração altera a estrutura etária: a saída de jovens e adultos da Paraíba reduz os grupos em idade ativa e aumenta a proporção relativa de idosos, enquanto a chegada de migrantes jovens a Roraima e Amapá rejuvenesce esses estados. O modelo baseado só em natalidade e mortalidade descreve a população fechada e não capta esse efeito.
Resolução
1. Os três componentes. A população de um território muda por nascimentos, óbitos e migração (entradas menos saídas). A estrutura etária resulta da combinação dos três ao longo de décadas.
2. O efeito da fecundidade e da mortalidade. Fecundidade mais alta tende a manter a base da pirâmide larga e a proporção de idosos menor. Mortalidade mais alta também reduz o número de pessoas que chegam às idades avançadas. Por esses dois componentes, a Paraíba deveria ter proporcionalmente menos idosos que São Paulo ou Santa Catarina.
3. O efeito da migração. Quem migra costuma ser jovem ou adulto. Um estado que perdeu muitos jovens e adultos para outras regiões fica com menos pessoas nessas idades e com menos filhos nascidos delas no próprio estado; os idosos que permanecem passam a pesar mais no total. É uma proporção que sobe porque o denominador perdeu gente, não necessariamente porque os idosos viveram mais. O IBGE atribui a alta concentração de idosos em estados do Nordeste à emigração de jovens e adultos.
No sentido oposto, Roraima e Amapá atraem migrantes, sobretudo jovens, e têm fecundidade mais alta: a proporção de idosos fica baixa.
4. O limite do modelo. O modelo clássico da transição acompanha as taxas de natalidade e mortalidade de uma população tratada como fechada. Em escala estadual ou regional, onde os fluxos migratórios são grandes, a estrutura etária pode se afastar bastante do que as duas taxas sozinhas indicariam. Por isso, ao interpretar uma pirâmide regional, é preciso considerar também a história migratória.
Resposta esperada. A migração de jovens e adultos para fora da Paraíba aumentou a proporção de idosos, compensando o efeito da fecundidade e da mortalidade mais altas; o modelo baseado apenas em natalidade e mortalidade não capta esse componente.
Exercício 3
AutoralExercício com dados hipotéticos, elaborado para este artigo com os conceitos da PNAD Contínua. Em uma cidade, na semana de referência, havia 1 000 pessoas de 14 anos ou mais. Delas, 600 estavam ocupadas, 60 estavam sem trabalho, procuraram trabalho nos últimos 30 dias e estavam disponíveis, e 340 não estavam ocupadas nem procuraram trabalho.
Assinale a alternativa correta.
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Resposta
Alternativa b.
Resolução
Classificação. Pessoas em idade de trabalhar (14+) = 1 000. Força de trabalho = ocupadas + desocupadas = . Fora da força de trabalho = 340.
Taxas.
- Taxa de desocupação = desocupadas ÷ força de trabalho × 100 = .
- Taxa de participação = força de trabalho ÷ PIT × 100 = .
- Nível da ocupação = .
Distratores:
- a) 6% é o nível da desocupação (desocupados sobre a PIT), não a taxa, que tem a força de trabalho no denominador.
- c) Ter idade de trabalhar não é estar na força de trabalho: as 340 pessoas que não trabalhavam nem procuravam estão fora dela.
- d) Na PNAD Contínua basta ter trabalhado pelo menos uma hora completa na semana de referência para ser ocupado.
- e) Quem deixa de procurar sai da força de trabalho. A taxa passaria a — cairia sem que ninguém conseguisse emprego. Por isso a taxa de desocupação deve ser lida junto com a taxa de participação e o nível da ocupação.
Referências
- Vasconcelos; Gomes — Transição demográfica: a experiência brasileira (Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2012)
VASCONCELOS, Ana Maria Nogales; GOMES, Marília Miranda Forte. Transição demográfica: a experiência brasileira. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 21, n. 4, p. 539–548, dez. 2012. DOI 10.5123/S1679-49742012000400003. Lido na versão HTML do SciELO do Instituto Evandro Chagas (http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742012000400003, acessível apenas por HTTP; o link registrado é o DOI): Introdução, Métodos (definições dos indicadores), Resultados e Discussão.
- IBGE — Borges; Campos; Castro e Silva, 'Transição da estrutura etária no Brasil: oportunidades e desafios para a sociedade nas próximas décadas', em Mudança Demográfica no Brasil no Início do Século XXI (2015)
BORGES, Gabriel Mendes; CAMPOS, Marden Barbosa de; CASTRO E SILVA, Luciano Gonçalves de. Transição da estrutura etária no Brasil: oportunidades e desafios para a sociedade nas próximas décadas. In: ERVATTI, L. R.; BORGES, G. M.; JARDIM, A. de P. (org.). Mudança demográfica no Brasil no início do século XXI: subsídios para as projeções da população. Rio de Janeiro: IBGE, 2015. (Estudos e análises: informação demográfica e socioeconômica, n. 3). ISBN 978-85-240-4344-4. Capítulo lido nas páginas 138–149 do arquivo PDF (seções 'O que é transição demográfica?', 'Impacto social e bônus demográfico', 'Transição demográfica no Brasil e implicações para políticas sociais', 'Crianças', 'Jovens', 'Adultos', 'Idosos' e 'Considerações finais').
- IBGE — Projeções da População do Brasil e das Unidades da Federação, Revisão 2024: indicadores implícitos e relatório metodológico
IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais. Projeções da População, Revisão 2024: planilha projecoes_2024_tab4_indicadores.xlsx ('Indicadores implícitos — 2000/2070', linhas do Brasil e das Grandes Regiões; colunas TBN, TBM, TCV, e0_T, TFT, RDT60, RDT65, RDJ65, POP_T; planilha NOTAS). Relatório metodológico: Série Relatórios Metodológicos v. 40, 3ª edição (PDF no mesmo diretório do FTP), seção 'Conciliação Demográfica e população de partida', pp. 12–15 do PDF. Consultados em 28/09/2026.
- IBGE — Censo Demográfico 2022, Sidra tabelas 9514 (população por sexo e idade) e 9515 (índice de envelhecimento, idade mediana e razão de sexo)
IBGE, Censo Demográfico 2022. Sidra tabela 9514, variável 93, sexo (Total, Homens, Mulheres), grupos quinquenais de idade, forma de declaração 'Total', níveis Brasil e Grandes Regiões; tabela 9515 (https://sidra.ibge.gov.br/tabela/9515), variáveis 10612, 10613 e 8845. Consultadas pela interface de dados do Sidra em 28/09/2026; somas e percentuais calculados pelo autor.
- IBGE — Censos Demográficos 1970–2010, Sidra tabela 200: população residente por sexo, situação e grupos de idade (amostra)
IBGE, Censos Demográficos, resultados da amostra — características gerais da população. Sidra tabela 200, variável 93, sexo, situação 'Total', grupos quinquenais de idade (80 anos ou mais agregado em 1970–1991), anos 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Consultada pela interface de dados do Sidra em 28/09/2026; percentuais calculados pelo autor.
- IBGE — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: notas metodológicas
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: notas metodológicas. Rio de Janeiro: IBGE, 2014 (PDF de 47 páginas). Conceitos e definições do tema trabalho, pp. 16–18.
- IBGE — PNAD Contínua trimestral, 2º trimestre de 2026: Sidra tabelas 4093 e 5434
IBGE, PNAD Contínua trimestral, período 2º trimestre de 2026 (código 202602), nível Brasil. Tabela 4093 (sexo = Total): pessoas de 14 anos ou mais, na força de trabalho, ocupadas, desocupadas, fora da força de trabalho e taxas. Tabela 5434 (https://sidra.ibge.gov.br/tabela/5434): ocupados por grupamento de atividade (variáveis 4090 e 4108). Consultadas em 28/09/2026.
- IBGE — Censo Demográfico 2022, Sidra tabela 9517: pessoas de 14 anos ou mais por condição em relação à força de trabalho e nível de instrução
IBGE, Censo Demográfico 2022, Sidra tabela 9517, variável 1641, condição em relação à força de trabalho (todas as categorias), sexo e cor ou raça 'Total', nível de instrução (todas as categorias), nível Brasil. Consultada em 28/09/2026; taxas calculadas pelo autor.
- Ipea — Carta de Conjuntura n. 52, Nota de Conjuntura 9: Indicadores mensais do mercado de trabalho (2021)
LAMEIRAS, Maria Andreia Parente; HECKSHER, Marcos Dantas. Indicadores mensais do mercado de trabalho. Carta de Conjuntura, Ipea, n. 52, Nota de Conjuntura 9, 3º trimestre de 2021, divulgada em 4 ago. 2021. Seção 1, itens 4 e 5 (p. 2 do PDF).
- Brasil — Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto da Pessoa Idosa)
BRASIL. Lei nº 10.741/2003, texto compilado no portal da Presidência da República, art. 1º.



