Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram capturados, vendidos e transportados à força para a América portuguesa. A escravidão foi a base do trabalho nos engenhos, nas minas, nas cidades e nos serviços domésticos, e o tráfico que a abastecia foi um negócio de alta lucratividade, controlado por alguns dos comerciantes mais ricos da colônia. Ao mesmo tempo, as pessoas escravizadas não foram apenas vítimas passivas: fugiram, formaram quilombos, se rebelaram, negociaram condições de trabalho, recorreram às autoridades e recriaram práticas religiosas, festivas e alimentares.
Estudar esse tema exige manter duas ideias juntas. A primeira é a coerção: a escravidão se sustentava na violência, na lei e no comércio de pessoas. A segunda é a agência: dentro de limites muito estreitos, os escravizados agiram, fizeram escolhas e deixaram marcas na sociedade colonial. O percurso deste artigo começa pelo tráfico transatlântico e pelas condições de vida, passa pelas formas de resistência e pelo caso de Palmares e termina na cultura afro-brasileira. Ao longo do texto, aparece uma pergunta de método que o ENEM costuma cobrar: como ler documentos escritos por quem reprimia os escravizados?
O tráfico transatlântico: deslocamento forçado e negócio
O tráfico transatlântico foi o comércio de pessoas escravizadas da costa africana para as Américas. Para quem era capturado, significava violência, separação da família e da comunidade, travessia em condições mortais e venda num lugar desconhecido. Para comerciantes, senhores e Coroa, era um negócio que fornecia trabalhadores às lavouras e às cidades e rendia lucros e impostos.
Quantos foram e como se sabe
Os números do tráfico são estimativas construídas por historiadores a partir de registros de viagens, e mudam à medida que novos documentos são incorporados. A principal base de dados internacional, o Transatlantic Slave Trade Database, reunia na versão comentada pela historiadora Mariza de Carvalho Soares em 2019 cerca de 36 mil viagens, entre 1514 e 1875. Esses registros atestam pelo menos 12 milhões de pessoas embarcadas na África, das quais mais de um milhão morreu na travessia ou logo após a chegada. David Eltis, coordenador da base, afirmou que cerca de 4,9 milhões de cativos chegaram ao Brasil. Uma quantificação pioneira, a de Maurício Goulart em 1949, chegava a 3,6 milhões: a diferença mostra como o conhecimento sobre o tráfico foi revisto ao longo do tempo.
Os números ajudam a entender a escala, mas não substituem a experiência de quem foi traficado. Um exemplo registrado na base: o navio Pastora de Lima saiu do Rio de Janeiro em agosto de 1816 rumo a Moçambique, embarcou 404 pessoas e desembarcou 290 no Brasil; 114 homens, mulheres e crianças morreram na viagem. Esse caso é do início do século XIX, mas ilustra o risco da travessia, que variava conforme a rota, a duração, o navio e a época.
Origens africanas diversas
Os africanos trazidos ao Brasil não formavam um povo único. Vinham de regiões, línguas, religiões e organizações políticas muito diferentes, e a composição mudou ao longo do tempo. Segundo a historiadora Silvia Hunold Lara, na época de Palmares, no século XVII, cerca de 80% dos escravizados trazidos para a Bahia e Pernambuco vinham do interior da região de Luanda, na África centro-ocidental, e falavam quimbundo. No século XVIII, a presença de africanos da chamada Costa da Mina, na África ocidental, tornou-se marcante na Bahia: denúncias à Inquisição dessa época registram mulheres e homens "do gentio da Costa da Mina" ao lado de pessoas vindas de Angola.
As designações que aparecem nos documentos coloniais, como "Angola", "Benguela", "Congo" ou "Mina", referiam-se a portos ou regiões da costa africana e agrupavam povos diferentes. "Gentio da Guiné" chegou a designar, na Bahia, africanos de toda a costa, da Gâmbia ao Congo; "Mina" também ampliou seu sentido com o tempo e englobava grupos distintos, enquanto "jeje" identificava, na Bahia, um grupo mais específico, falante de línguas gbe. Essas categorias não coincidem necessariamente com a identidade que cada pessoa reconhecia para si. Ainda assim, os próprios africanos as usaram para criar laços, reconhecer conterrâneos e formar grupos no Brasil.
Por que o Brasil concentrou o tráfico
O açúcar, a partir do século XVI, e depois o ouro, no século XVIII, dependeram do trabalho escravizado. Mas o tráfico não abastecia só a exportação: parte importante dos africanos trabalhava em atividades do mercado interno, no serviço doméstico e no ganho nas cidades, como lembra o historiador Manolo Florentino. Os portos do Rio de Janeiro e de Salvador organizaram mais viagens negreiras do que qualquer porto europeu, e os traficantes estavam entre os comerciantes mais ricos da colônia.
O tráfico português e luso-brasileiro combinava mercadorias e pessoas: os navios levavam carga, passageiros e cativos. Na África, as pessoas escravizadas eram obtidas em troca de mercadorias, sobretudo tecidos, vindos da Europa e da Ásia, além de bebidas, armas e outros produtos. Em Angola, no século XVIII, mercadores de Luanda compravam fazendas e as levavam ao interior, o "sertão", para trocá-las por cativos, em redes que envolviam agentes portugueses, luso-africanos e sociedades africanas que também valorizavam esses tecidos. A linguagem do comércio mostra a desumanização: a expressão "peça da Índia" chegou a designar um homem jovem embarcado como escravo, equivalente a certa quantidade de pano. Reconhecer a participação de agentes africanos não reduz a responsabilidade de traficantes, senhores e da Coroa; mostra que o tráfico foi um sistema atlântico, com interesses nos dois lados do oceano.
Condições de vida dos escravizados
Não houve uma experiência única de escravidão no Brasil colonial. As condições variavam conforme a época, a região, a atividade, a origem da pessoa (africana ou nascida no Brasil), o sexo e a idade. O que era comum a todas as situações era a condição jurídica: a pessoa escravizada podia ser comprada, vendida, herdada, castigada e separada da família por decisão do senhor.
Trabalho: variações por atividade e lugar
- Engenhos de açúcar. O trabalho combinava canavial, moenda, caldeiras, roças de mandioca e transporte, sob tarefas fixadas por senhores e feitores. Documentos de um engenho do sul da Bahia no fim do século XVIII mostram tarefas medidas em "mãos" de cana, alqueires de farinha e medidas de lenha, além de pesca, coleta de mariscos e trabalho nos barcos.
- Mineração. No século XVIII, a extração de ouro também passou a depender do trabalho de africanos escravizados, o que ampliou a demanda do tráfico.
- Cidades. Nos centros urbanos, muitos escravizados eram de ganho: vendiam produtos ou serviços na rua e entregavam ao senhor uma quantia combinada. Alguns conseguiam guardar dinheiro. A mobilidade urbana era maior, mas o controle policial também.
- Serviço doméstico e mercado interno. Havia escravizados nas casas, no transporte, nos ofícios artesanais e na produção de alimentos para o consumo da própria colônia.
Violência, lei e limites
O castigo físico era legal e fazia parte do funcionamento da escravidão. As Ordenações Filipinas, de 1603, que serviam de base ao direito penal português e colonial, tratavam o escravizado ao mesmo tempo como objeto de propriedade e como sujeito responsável por crimes, e sua condição cativa podia agravar a pena. A fuga não era, em si, tipificada como crime, mas levava o fugitivo às mãos das autoridades encarregadas da ordem.
Os documentos também mostram escravizados usando os canais disponíveis. Em 1802, um homem chamado José propôs a seu senhor pagar o preço em que fosse avaliado para obter a liberdade; o documento registra que nenhuma lei obrigava o senhor a aceitar, salvo em caso de maus-tratos. Em 1810, um homem de 60 anos que havia fugido por causa dos maus-tratos pediu a liberdade às autoridades no Rio de Janeiro. Esses registros não indicam que a lei protegia os escravizados; indicam que eles conheciam as brechas e tentavam usá-las.
Margens negociadas: roças, ganho e alforria
Em muitos lugares, os senhores concediam pequenos lotes de terra e dias livres para que os escravizados plantassem, pescassem ou vendessem produtos. Essas roças serviam à subsistência dos próprios cativos e abasteciam o mercado local, e davam a eles algum espaço de autonomia. Essas concessões podiam ser retiradas e, por isso, foram objeto de disputa. A alforria (a carta de liberdade) podia ser concedida pelo senhor ou comprada, e muitas pessoas libertas continuaram vivendo perto da escravidão, como vendedoras ou artesãos, segundo mostram denúncias da Bahia do século XVIII.
Formas de resistência
Resistência é o nome que os historiadores dão às ações pelas quais os escravizados recusavam, limitavam ou contestavam a dominação. O texto da pesquisadora Viviane Gouvêa, do Arquivo Nacional, resume a variedade: havia ações individuais ou coletivas, organizadas ou espontâneas, abertas ou ocultas, e elas mudavam conforme as relações entre cativos e senhores, entre grupos de cativos e entre atividades econômicas.
| Forma | O que era | Exemplo documentado | Cuidado de leitura |
|---|---|---|---|
| Resistência cotidiana | Ritmo lento, recusa de tarefas, ausências curtas | "Sumiço" de escravos de ganho por alguns dias nas cidades | Aparece quase sempre em queixas de senhores |
| Recurso às autoridades | Pedidos de liberdade, denúncias de maus-tratos | Requerimento de José (1802) e pedido do homem de 60 anos (1810) | Conhecido por resumos de arquivo; redigido na linguagem jurídica da época |
| Negociação | Proposta de condições para voltar ao trabalho | "Tratado" do Engenho Santana (c. 1789) | O texto arquivado é cópia anexada a um processo |
| Fuga | Saída temporária ou definitiva | Ordens de captura e diligências (1765, 1807) | Registro da busca, não da experiência do fugitivo |
| Quilombo | Comunidade de fugitivos, de poucas pessoas a milhares | Palmares; quilombos de Cabo Frio (1805) | Descrito por quem queria destruí-lo |
| Revolta | Levante coletivo contra senhores ou autoridades | Engenho Santana (1789) | Versões oficiais tendem a criminalizar lideranças |
| Práticas culturais | Religião, música, dança, festas | Calundus na Bahia (1702–1757); capoeira no Rio (c. 1810) | Registradas em denúncias e ordens policiais |
Fugas e quilombos
A fuga podia ser curta, às vezes usada como ameaça ou pressão, ou definitiva. Nas cidades, a fuga permanente era menos comum do que o desaparecimento por alguns dias. Nas áreas rurais, muitas fugas levavam à formação de quilombos, também chamados mocambos nos documentos.
Os quilombos raramente viviam isolados. Em geral ficavam próximos de áreas povoadas e mantinham relações com a sociedade colonial: roubos e ataques a fazendas, mas também trocas de alimentos e produtos com comerciantes, taberneiros e homens livres pobres, que forneciam gêneros, abrigo, transporte ou informação. Por isso, a existência de um quilombo não significava necessariamente uma guerra permanente com a vizinhança, como observa o historiador Flávio dos Santos Gomes citado pelo Arquivo Nacional.
Revoltas: o caso do Engenho Santana
No Engenho Santana, em Ilhéus, sul da Bahia, cerca de 300 escravizados trabalhavam no fim do século XVIII, a maioria nascida no Brasil. Em 1789, parte deles se levantou, matou o mestre de açúcar, tomou ferramentas e se refugiou nas matas, deixando o engenho parado por cerca de dois anos. Durante o levante, os rebeldes enviaram ao senhor, Manuel da Silva Ferreira, uma proposta de acordo conhecida como "Tratado". O documento, localizado no Arquivo Público do Estado da Bahia e publicado pelo historiador Stuart Schwartz em 1977, começa com uma frase que resume sua estratégia: "queremos paz e não queremos guerra".
As exigências tratavam de tempo, trabalho e autonomia: dois dias por semana (sexta e sábado) para trabalharem para si; redução de tarefas na mandioca, na farinha e na cana; barcos para vender a própria produção sem pagar frete; liberdade para plantar arroz e tirar madeira; escolha de novos feitores com aprovação dos escravizados; e direito de "brincar, folgar, e cantar" sem pedir licença. Em troca, declaravam-se prontos a voltar ao serviço "como dantes".
A história não terminou com um acordo cumprido. Segundo o relatório do ouvidor-geral do crime da Bahia, escrito em 1806, o senhor mostrou aceitar a proposta e chegou a dar uma carta de liberdade a Gregório Luís, liderança do levante, "sem ânimo" de que ela tivesse validade. Depois, por um estratagema, Gregório Luís e mais quinze ou dezesseis pessoas foram presos em Belmonte. Os companheiros foram vendidos para o Maranhão, e Gregório Luís continuava preso quando o relatório foi escrito.
Como ler documentos produzidos pela repressão
A maior parte do que se sabe sobre fugas, quilombos e revoltas vem de documentos escritos por autoridades coloniais, senhores, padres e policiais: ordens, cartas, processos, relatórios de expedições e denúncias. Esses registros são indispensáveis, mas trazem o ponto de vista de quem perseguia.
Quilombo dos Palmares e Zumbi
Palmares foi o mais extenso e duradouro conjunto de mocambos da história da escravidão no Brasil. No início do século XVII, "palmares" designava as matas cheias de palmeiras da capitania de Pernambuco; com o tempo, o nome passou a identificar o lugar onde estavam os mocambos dos "negros levantados" e, no fim da década de 1670, um território reconhecido pelas próprias autoridades coloniais. A área dos mocambos mais conhecidos ficava entre a Zona da Mata e o Agreste, em terras hoje de Pernambuco e de Alagoas.
Cronologia verificada
- c. 1600–1654. Mocambos já eram atacados por expedições durante o domínio holandês em Pernambuco e a guerra de restauração, a noroeste de Alagoas do Sul. A região ocupada mudou ao longo do século.
- 1675 e 1677. Expedições comandadas por Manuel Lopes e Fernão Carrilho atacaram grandes mocambos a noroeste de Porto Calvo. Um relato da época descreve Macaco, "a cerca real", como a principal povoação.
- 1678. Depois dessas derrotas, Gana Zumba (grafia hoje defendida por pesquisadores para o nome tradicionalmente escrito "Ganga Zumba"), principal liderança dos mocambos, aceitou um acordo com o governo de Pernambuco: obediência ao governo colonial, entrega dos cativos não nascidos nos mocambos, terras na região de Cucaú e alforria para os nascidos em Palmares. Zumbi e parte dos palmaristas não aceitaram e permaneceram nas matas.
- 1680. Em menos de dois anos, Gana Zumba foi assassinado e Cucaú foi destruída por tropas coloniais; cerca de 200 pessoas foram presas e reescravizadas. No mesmo ano, a palavra "quilombo" aparece pela primeira vez na documentação sobre Palmares.
- 1682. Um alvará régio reconheceu o acordo de 1678 e mandou investigar a reescravização.
- Década de 1680. Zumbi se estabeleceu na serra da Barriga, que sofreu ataques em 1681, 1683, 1684 e 1685; houve deslocamentos para outros pontos, como o Gongoro, e retornos.
- 1692–1694. O bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, contratado pelo governo, fracassou num ataque em 1692. No início de fevereiro de 1694, a cerca do Barriga foi destruída; muitos morreram e centenas foram aprisionados.
- 20 de novembro de 1695. Zumbi foi morto por uma tropa comandada por André Furtado de Mendonça.
- Até 1714. Outros mocambos continuaram existindo; o último conhecido, o do Mouza, foi destruído por volta de 1714.
Organização
A fonte mais usada sobre Palmares, uma relação de 1678 escrita para exaltar o governador de Pernambuco, descreve os mocambos como povoações fortificadas com cercas de pau a pique e centenas ou milhares de casas, e uma rede de lideranças subordinadas a Gana Zumba, chamado de "rei" dos Palmares. As chefias dos mocambos estavam ligadas por relações de parentesco, e não se sabe com segurança se esses laços eram de sangue ou títulos de uma hierarquia de linhagem à maneira centro-africana. A mesma relação deixa perceber que muitos palmaristas tinham origem em Angola e que as forças enviadas contra eles eram etnicamente diversas; na campanha de 1694, somaram-se aos regimentos locais os paulistas contratados. O papel com os termos do acordo de 1678, levado aos palmaristas para ser lido em voz alta, foi redigido do lado colonial por um sargento do terço dos Henriques, milícia de homens negros.
Limites das evidências
Quase tudo o que se sabe sobre Palmares foi escrito por quem o combateu. A relação de 1678, por exemplo, foi redigida pelo vigário do Recife para celebrar as vitórias do governador, e durante mais de um século os historiadores usaram uma transcrição publicada em 1859 que alterou palavras, a ordem de parágrafos e os nomes de lideranças e mocambos. Trabalhos recentes de Silvia Hunold Lara e do filólogo Phablo Fachin compararam as versões manuscritas e mostraram esses problemas. Mapas do século XX que fixaram os mocambos numa única área também foram questionados: Palmares se deslocou ao longo do tempo, e não houve continuidade simples entre os mocambos do período holandês, os destruídos em 1677–1678 e a cerca do Barriga.
Palmares e Zumbi também têm uma história de memória. Em 1971, o Grupo Palmares, de Porto Alegre, propôs o 20 de novembro, data da morte de Zumbi, como dia de celebração da população negra, em contraste com o 13 de maio da abolição; em 1978, o Movimento Negro Unificado passou a chamá-lo Dia Nacional da Consciência Negra. Em 1988, a serra da Barriga foi reconhecida como monumento nacional. Essas escolhas pertencem ao século XX e explicam por que Zumbi se tornou símbolo; elas não substituem o estudo do que as fontes do século XVII permitem afirmar.
Cultura afro-brasileira: religiões, capoeira e culinária
A cultura afro-brasileira não foi transplantada pronta da África nem permaneceu igual desde o século XVI. Formou-se no encontro entre pessoas de origens africanas diversas, entre elas e os nascidos no Brasil, e em contato com práticas católicas e europeias, sob as condições da escravidão. Por isso, é preciso perguntar quando e onde cada prática aparece nas fontes.
Religiosidade: dos calundus aos terreiros
Nos séculos XVII e XVIII, documentos da Inquisição de Lisboa registram na Bahia rituais chamados calundus, termo associado a práticas de povos da África centro-ocidental. Eram cerimônias de adivinhação, proteção e cura, com dança ao som de atabaques e possessão por espíritos ou ancestrais. Em 1703 e 1704, comissários do Santo Ofício denunciaram uma mulher de Angola escravizada, conhecida como Mãe Catharina, por promover essas danças; em 1707, uma liberta chamada Lucrécia Vieira foi denunciada por realizar curas numa festa em Itapagipe. As denúncias mostram o papel de destaque das mulheres e a presença de pessoas de várias condições entre os que procuravam esses rituais: escravizados, libertos e livres, como um estudante que pagou por uma cura em 1707 e um homem branco levado a uma "roça de calundu" denunciada em 1749.
Esses registros foram produzidos para acusar: os denunciantes descrevem os rituais como pacto com o demônio e feitiçaria. A leitura histórica separa a acusação da informação sobre práticas, participantes e lugares. Ao longo do século XVIII, com a presença crescente de africanos da Costa da Mina, os rituais se tornaram mais diversos, e alguns grupos passaram a organizar cultos com altares, oferendas e espaços estáveis. O historiador Luis Nicolau Parés propõe uma cronologia em que práticas domésticas de calundu da segunda metade do século XVIII dariam origem à organização mais complexa do candomblé no século XIX, embora ele próprio aponte cultos coletivos mais antigos. Ao mesmo tempo, africanos e crioulos formaram irmandades e congregações católicas, como a de africanos "Mina" do Rio de Janeiro cujo manuscrito de 1786 foi editado em 2019. As experiências religiosas não se reduziam a uma única tradição, e muitas pessoas participavam de mais de uma.
Capoeira
A capoeira aparece claramente nos documentos do Rio de Janeiro no início do século XIX. Segundo o Arquivo Nacional, é difícil saber quando e como ela surgiu, mas por volta de 1810 já era "moda" entre jovens escravizados e, poucos anos depois, preocupação das autoridades policiais. Em 1811, por exemplo, a Polícia da Corte registrou a prisão de cinco escravizados, identificados por designações como Benguela, Congo e Angola, por praticarem capoeira. Ela era ao mesmo tempo luta, dança, brincadeira e forma de afirmação da presença negra nas ruas, associada a festas, apostas e rivalidades entre grupos.
A capoeira atual, com seus estilos (angola e regional), rodas, batizados e mestres, é resultado de transformações posteriores. A roda de capoeira e o ofício dos mestres foram registrados pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil em 2008, e a roda foi reconhecida pela Unesco em 2014. Dizer que a capoeira "é colonial" exige cuidado: os registros disponíveis são do fim do período colonial e do Rio de Janeiro, e não autorizam projetar a prática atual para o século XVI.
Culinária
A alimentação é uma área em que a presença africana foi profunda, mas as fontes coloniais raramente registram receitas. O que elas registram são práticas: escravizados cultivando mandioca, arroz e roças próprias, pescando e coletando mariscos, como no Engenho Santana; mulheres escravizadas e libertas vendendo comida nas ruas e nas quitandas; caroços de dendê e farinhas usados num ritual de cura denunciado em 1757. Pratos hoje identificados com a Bahia, como o acarajé, ligam-se a tradições religiosas afro-brasileiras e ao comércio de rua feito por mulheres negras; o ofício das baianas de acarajé foi registrado pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil, com aprovação do conselho consultivo em dezembro de 2004. Para a história, o ponto central é que a culinária afro-brasileira combinou ingredientes de origens diversas, como a mandioca americana e o dendê de origem africana, e foi transmitida e transformada por gerações.
Exemplos resolvidos
Distinções importantes
Tráfico e escravidão. Tráfico é o comércio de pessoas entre a África e as Américas; escravidão é a condição de quem era propriedade de outro. No Brasil, a proibição efetiva do tráfico transatlântico só ocorreu a partir de 1850, e a escravidão foi abolida em 1888. Havia também comércio de escravizados entre regiões, como mostra a venda dos rebeldes do Engenho Santana para o Maranhão.
Quilombo e Palmares. Quilombo é a categoria geral de comunidade de fugitivos; Palmares é um caso específico, excepcional pela extensão, duração e organização. Nem todo quilombo era grande, isolado, fortificado ou governado por um "rei".
Resistência e revolta. Revolta é uma das formas de resistência, coletiva e aberta. A resistência inclui também ações individuais, cotidianas, jurídicas, negociadas e culturais.
Documento e ementa. O documento é o texto produzido na época; a ementa é o resumo escrito depois por um arquivista para o catálogo. Citações entre aspas numa ementa vêm do documento, mas a seleção e o resumo são do arquivista.
Nome de "nação" e identidade. Termos como "Angola", "Mina" ou "Benguela" nos documentos indicavam em geral o porto ou a região de embarque atribuídos pelo tráfico. Eles não equivalem automaticamente a um povo ou a uma identidade étnica escolhida pela pessoa.
Calundu e candomblé. Calundu é o nome registrado nos séculos XVII e XVIII para rituais de cura e adivinhação de matriz centro-africana. Candomblé designa a religião organizada em terreiros que se consolidou sobretudo no século XIX. Há continuidades, mas não são a mesma coisa.
Perguntas frequentes
O que era um capitão do mato?
Era o agente encarregado de perseguir fugitivos e destruir quilombos. Nomeações como a de 1765, em Santo Antônio de Sá, mostram que a administração colonial o via como peça da ordem escravista. As tropas de busca misturavam pessoal contratado, milícias e, muitas vezes, negros e indígenas recrutados, e os senhores costumavam pagar pela recaptura: em 1807, numa diligência no Rio de Janeiro, ficou determinado que cada dono pagaria 6$400 (seis mil e quatrocentos réis) por escravizado recuperado. A repressão, portanto, era ao mesmo tempo pública e privada.
Os escravizados aceitavam a escravidão quando negociavam com os senhores?
Negociar não é o mesmo que aceitar. No Engenho Santana, os rebeldes pediram condições e não a abolição, mas o fizeram depois de parar o engenho e se refugiar nas matas, e o senhor respondeu com engano e repressão. A negociação era uma estratégia possível numa situação de desigualdade extrema, e conflito e negociação aparecem ligados no mesmo episódio. Também o recurso às autoridades, como nos pedidos de liberdade de 1802 e 1810, era uma forma de pressionar a partir das brechas existentes.
Zumbi e Ganga Zumba são a mesma pessoa?
Não. Gana Zumba (grafia defendida por Silvia Lara e Phablo Fachin; a tradicional é Ganga Zumba) era a principal liderança de Palmares em 1678 e aceitou o acordo de Cucaú. Zumbi, que já aparecia nas fontes como chefe militar, recusou o acordo, continuou a resistência e liderou os mocambos da serra da Barriga até a destruição da cerca em 1694. Morreu em 20 de novembro de 1695.
Se os documentos foram escritos pelos repressores, dá para confiar neles?
Dá para usá-los, desde que lidos criticamente. Eles registram fatos (datas, lugares, prisões, fugas) e também juízos (criminoso, bárbaro, feiticeiro). O historiador separa uma coisa da outra, pergunta o que o documento revela sem intenção e cruza com outras fontes: documentos de outras autoridades, textos produzidos por escravizados, como o tratado de Santana, e pesquisas arqueológicas.
Os quilombos acabaram com o fim do período colonial?
Não. O Arquivo Nacional registra que a formação de quilombos era endêmica em muitos lugares, não só no período colonial, mas também no Império. Palmares mesmo sobreviveu à morte de Zumbi, com mocambos destruídos até cerca de 1714. O tema deste artigo é o período colonial, mas a resistência à escravidão se estendeu por todo o século XIX.
Como o ENEM costuma cobrar esse tema?
Com frequência, a partir de um documento de época ou de um trecho historiográfico. As perguntas pedem que o candidato identifique formas de resistência, reconheça o ponto de vista de quem escreveu, relacione escravidão e economia ou avalie a memória de Palmares e do 20 de novembro. Decorar datas ajuda pouco; o que decide é ler a fonte, separar evidência e interpretação e não concluir além do que o texto permite.
Exercícios
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Exercício 1
AutoralQuestão elaborada para este artigo. Pesquisas recentes sobre o Quilombo dos Palmares, baseadas na releitura de documentos dos séculos XVII e XVIII, levaram a revisões na forma de contar sua história. Qual afirmação é compatível com esse conhecimento?
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Resposta
Alternativa c.
Resolução
A alternativa c reúne dois pontos centrais das pesquisas recentes. Primeiro, Palmares não ocupou uma única área durante todo o século XVII: os mocambos atacados no período holandês, os descritos na relação de 1678 e a cerca da serra da Barriga, na década de 1680, ficavam em lugares diferentes, e as lideranças também mudaram (Gana Zumba até 1678–1680, Zumbi depois). Segundo, a documentação disponível foi produzida sobretudo por autoridades, militares e religiosos que combatiam os mocambos, como o vigário que escreveu a relação de 1678 para exaltar o governador.
As demais estão erradas:
- a) generaliza um caso excepcional. Muitos quilombos eram pequenos, alguns apenas acampamentos de poucas pessoas.
- b) o acordo não foi aceito por todos: Zumbi e parte dos palmaristas recusaram-no em 1678. E foi o lado colonial que o rompeu: em 1680 Cucaú foi destruída e seus moradores reescravizados.
- d) confunde duas datas. A cerca do Barriga foi destruída em fevereiro de 1694; Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695. Outros mocambos existiram até cerca de 1714.
- e) inverte a situação das fontes. Quase toda a documentação vem de autoridades, militares e religiosos que combatiam Palmares. Mesmo o papel do acordo de 1678 foi redigido do lado colonial, por um sargento do terço dos Henriques, milícia de homens negros; não se conhecem registros escritos pelos próprios palmaristas.
Exercício 2
AutoralA frase a seguir foi elaborada para este exercício, como se fosse a conclusão de um estudante:
Desde o século XVI, os escravizados praticavam nos engenhos o candomblé e a capoeira tal como os conhecemos hoje, e comiam acarajé nas senzalas.
- Aponte os problemas históricos da frase, usando as evidências discutidas no artigo.
- Reescreva a conclusão de modo que ela respeite o que as fontes permitem afirmar.
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Resposta
A frase projeta práticas atuais sobre o século XVI sem evidência. As fontes mostram calundus nos séculos XVII e XVIII, a organização do candomblé sobretudo no século XIX, registros de capoeira no Rio de Janeiro por volta de 1810 e poucas informações diretas sobre pratos. Uma reescrita adequada situa cada prática no tempo e no lugar em que aparece nas fontes e reconhece suas transformações.
Resolução
1. Problemas da frase.
- Anacronismo religioso. Os registros mais conhecidos de rituais de matriz africana na Bahia colonial são denúncias à Inquisição dos séculos XVII e XVIII sobre calundus: cerimônias de cura e adivinhação com dança, atabaques e possessão, associadas a práticas centro-africanas. O candomblé organizado em terreiros é, segundo a cronologia proposta pelo historiador Luis Nicolau Parés, resultado de transformações que vão da segunda metade do século XVIII ao século XIX. Chamar de candomblé as práticas do século XVI apaga essas mudanças.
- Anacronismo na capoeira. Os registros documentados pelo Arquivo Nacional são do Rio de Janeiro no início do século XIX, quando a capoeira já era "moda" entre jovens escravizados e alvo da polícia. A capoeira atual, com estilos, rodas e mestres reconhecidos como patrimônio em 2008, resulta de transformações posteriores. Não há base para afirmar que ela existia "tal como hoje" nos engenhos do século XVI.
- Generalização espacial. A frase fala dos engenhos em geral, mas as práticas variavam por região e origem. Os registros citados são da Bahia e do Rio de Janeiro, com grupos de origens diferentes, como angolas e minas.
- Culinária sem evidência. As fontes coloniais registram roças de mandioca e arroz, pesca, venda de comida nas ruas e uso do dendê em rituais, mas não descrevem o acarajé nas senzalas do século XVI. O acarajé é hoje associado ao candomblé e ao ofício das baianas, registrado como patrimônio cultural do Brasil em processo aprovado em dezembro de 2004.
2. Reescrita possível. "Os africanos escravizados e seus descendentes recriaram no Brasil práticas religiosas, festivas e alimentares. Nos séculos XVII e XVIII, a Inquisição registrou na Bahia rituais chamados calundus, que se transformaram ao longo do tempo e contribuíram para a formação do candomblé, consolidado no século XIX. A capoeira aparece nos registros policiais do Rio de Janeiro no início do século XIX. Na alimentação, as fontes mostram o cultivo de roças próprias, a venda de comida por mulheres escravizadas e libertas e o uso do dendê, bases de tradições culinárias que continuaram a mudar depois do período colonial."
Exercício 3
AutoralLeia os dados abaixo, extraídos das fontes citadas no artigo.
- Em comentário publicado em 2019, a historiadora Mariza de Carvalho Soares informa que a base de dados internacional sobre o tráfico reunia cerca de 36 mil viagens e atestava pelo menos 12 milhões de africanos embarcados, dos quais mais de um milhão morreu na viagem ou logo após a chegada. David Eltis, coordenador da base, afirmou que cerca de 4,9 milhões chegaram ao Brasil.
- Em 1949, Maurício Goulart havia estimado 3,6 milhões de africanos desembarcados no Brasil.
- O navio Pastora de Lima, em viagem de 1816 a 1817, embarcou 404 pessoas em Moçambique e desembarcou 290 no Brasil.
- Calcule a proporção de mortos na viagem do Pastora de Lima.
- Considerando cerca de 11 milhões de africanos desembarcados nas Américas, estime a participação do Brasil.
- Explique por que as estimativas de 1949 e de 2019 são diferentes.
- Indique duas coisas que esses números não mostram.
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Resposta
- Cerca de 28%. 2. Cerca de 45%, quase metade. 3. A estimativa atual incorpora muito mais registros de viagens e métodos de correção; números do tráfico são estimativas revistas ao longo do tempo. 4. Por exemplo: a experiência individual dos cativos e as diferenças de origem, rota e época.
Resolução
1. Mortalidade no Pastora de Lima. Morreram pessoas. A proporção é
ou seja, cerca de 28% dos embarcados. É um caso particular, do início do século XIX e numa rota longa, a partir de Moçambique; a mortalidade variava conforme rota, duração e época, e não se pode tomar essa viagem como média de todo o tráfico.
2. Participação do Brasil. Com cerca de 4,9 milhões desembarcados no Brasil e cerca de 11 milhões nas Américas:
O Brasil recebeu, portanto, algo próximo de 45% dos africanos desembarcados nas Américas, isto é, quase metade. O denominador é aproximado, porque os totais variam entre versões da base; por isso o resultado deve ser apresentado como ordem de grandeza.
3. Por que as estimativas mudaram. A estimativa de 1949 foi um esforço pioneiro com as fontes disponíveis na época. A base de dados internacional, construída a partir de 1999 e ampliada nas décadas seguintes, reuniu registros de viagens de arquivos de vários países e usou métodos estatísticos para estimar viagens mal documentadas. O próprio Eltis reconheceu que a inclusão de novas informações elevou o número de chegadas ao Brasil. Números do tráfico são estimativas revistas, e devem ser citados com fonte e data.
4. O que os números não mostram. Entre outras possibilidades: a experiência de cada pessoa na captura, na travessia e na venda; as diferenças de origem, língua e cultura entre os africanos; o que aconteceu depois do desembarque, como o trabalho, a formação de famílias e redes e a resistência. A historiadora Mariza Soares observa justamente que, apesar dos dados, ainda é difícil reconstruir o que acontecia no interior das embarcações.
Referências
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- Pinto — Revolta, negociação e autoridade: o levante dos escravos do Engenho Santana, Ilhéus (1789) (dissertação UnB, 2020)
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- Ferreira — O santo de sua terra na terra de todos os santos: rituais de calundu na Bahia colonial (Afro-Ásia, 2016)
FERREIRA, Elisangela Oliveira. O santo de sua terra na terra de todos os santos: rituais de calundu na Bahia colonial. Afro-Ásia, Salvador, n. 54, 2016. Lido na versão HTML e no PDF da Redalyc; paginação da revista: pp. 103–106, 126–132, 137–140.
- IPHAN — Roda de Capoeira (Bens Culturais Registrados)
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Roda de Capoeira. Portal Bens Culturais Registrados, ficha e descrição completa (processo 01450.002863/2006-80). Consulta em 28 set. 2026. A página informa que a descrição foi elaborada com auxílio de IA e revisada por especialistas; usada apenas para dados de registro e caracterização atual.
- IPHAN — Ofício das Baianas de Acarajé (Bens Culturais Registrados)
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ofício das Baianas de Acarajé. Portal Bens Culturais Registrados, descrição completa e documentos do processo 01450.008675/2004-01. Consulta em 28 set. 2026. A descrição informa ter sido elaborada com auxílio de IA; sua afirmação de que mulheres libertas 'ligadas ao candomblé' vendiam comida no período colonial não foi adotada, por projetar sobre o período colonial uma religião consolidada no século XIX.




