A trigonometria nasceu da necessidade de medir o que não se alcança diretamente: a altura de uma montanha, a largura de um rio, a distância até um navio ou até a Lua. Sua ideia central é simples e poderosa. Em triângulos retângulos com o mesmo ângulo agudo, as razões entre os lados são sempre as mesmas. Conhecendo um ângulo e um lado, é possível calcular os demais.
Apresentação
Medindo uma altura com um ângulo. tg 60° = h ÷ 40

Na Matriz de Referência, a trigonometria do triângulo mobiliza a Competência 2:
- H8: resolver situação-problema com conhecimentos geométricos;
- H9: selecionar argumentos com base nesses conhecimentos.
Mobiliza também a Competência 3, especialmente a H12, que trata de medidas de grandezas. O ciclo trigonométrico prepara o estudo das funções trigonométricas (bloco 19), ligadas à Competência 5. No ENEM, os contextos mais frequentes são:
- rampas e acessibilidade;
- alturas e distâncias inacessíveis;
- navegação;
- fenômenos periódicos.
Os valores de seno, cosseno e tangente necessários costumam ser fornecidos no enunciado. O que se avalia é a escolha da razão correta e a montagem do problema.
Este artigo apresenta:
- as razões trigonométricas no triângulo retângulo e o motivo de existirem;
- os ângulos notáveis, com a dedução de seus valores;
- a lei dos senos;
- a lei dos cossenos;
- o ciclo trigonométrico, os sinais por quadrante, a redução ao primeiro quadrante e os arcos côngruos;
- as relações trigonométricas fundamentais.
Pré-requisitos: Geometria Plana, Partes 1 e 2 (semelhança de triângulos, teorema de Pitágoras, radianos e circunferência).
1. Razões trigonométricas no triângulo retângulo
1.1 Por que as razões trigonométricas existem
Considere dois triângulos retângulos que tenham um mesmo ângulo agudo α. Eles têm um ângulo reto e o ângulo α em comum. Pelo caso AA, são semelhantes.
Na semelhança, os lados correspondentes são proporcionais. Por isso, a razão entre dois lados de um triângulo é igual à razão entre os lados correspondentes do outro, independentemente do tamanho dos triângulos. Essas razões dependem apenas do ângulo α.
Essa é a ideia que fundamenta toda a trigonometria. As razões entre lados de um triângulo retângulo funcionam como uma "assinatura" do ângulo.
1.2 Definições
Em um triângulo retângulo, em relação a um ângulo agudo α:
- a hipotenusa é o lado oposto ao ângulo reto;
- o cateto oposto é o cateto que fica em frente ao ângulo α;
- o cateto adjacente é o cateto que forma o ângulo α junto com a hipotenusa.
Atenção: "oposto" e "adjacente" dependem do ângulo considerado. O cateto oposto a um dos ângulos agudos é o adjacente ao outro.
Exemplo. No triângulo retângulo de catetos 3 e 4 e hipotenusa 5, seja α o ângulo oposto ao cateto 3:
- sen α = 3/5 = 0,6
- cos α = 4/5 = 0,8
- tg α = 3/4 = 0,75
1.3 Propriedades imediatas
Limites. Para um ângulo agudo, seno e cosseno estão sempre entre 0 e 1, porque os catetos são menores que a hipotenusa. A tangente pode ser qualquer número positivo.
Tangente como quociente:
Basta dividir as definições: (oposto/hipotenusa) ÷ (adjacente/hipotenusa) = oposto/adjacente.
Ângulos complementares. Os dois ângulos agudos de um triângulo retângulo somam 90°. O cateto oposto a um é o adjacente ao outro. Por isso:
O próprio nome indica isso: cosseno é o seno do complemento. Por exemplo, sen 30° = cos 60°.
A relação fundamental. Pelo teorema de Pitágoras, (oposto)² + (adjacente)² = (hipotenusa)². Dividindo tudo por (hipotenusa)²:
1.4 Aplicações: alturas, distâncias e inclinações
Estratégia:
- Desenhe o triângulo retângulo da situação.
- Marque o ângulo conhecido.
- Identifique o lado conhecido e o lado procurado em relação a esse ângulo: hipotenusa, cateto oposto ou cateto adjacente.
- Escolha a razão que envolve exatamente esses dois lados.
| Lados envolvidos | Razão |
|---|---|
| oposto e hipotenusa | seno |
| adjacente e hipotenusa | cosseno |
| oposto e adjacente | tangente |
Exemplo 1: rampa. Uma rampa de 10 m de comprimento forma um ângulo de 30° com o chão. A que altura ela chega?
O comprimento da rampa é a hipotenusa, e a altura é o cateto oposto ao ângulo. Logo:
h = 10 · sen 30° = 10 · 1/2 = 5 m
Exemplo 2: altura de um prédio. Um observador a 30 m da base de um prédio vê o topo sob um ângulo de 60° com a horizontal. Desprezando a altura dos olhos, qual é a altura do prédio?
A distância é o cateto adjacente, e a altura, o cateto oposto. Logo:
h = 30 · tg 60° = 30√3 ≈ 51,96 m
Quando o enunciado informa a altura dos olhos do observador, ela deve ser somada ao resultado.
Exemplo 3: inclinação percentual. A inclinação de rampas e estradas costuma ser dada em porcentagem:
Uma rampa que sobe 0,4 m ao longo de 5 m na horizontal tem inclinação de 0,4 ÷ 5 = 0,08, ou seja, 8%. As normas brasileiras de acessibilidade estabelecem limites máximos para essa inclinação, e itens do ENEM costumam pedir para avaliar se uma rampa os respeita.
Exemplo 4: duas observações. De um ponto A, um observador vê o topo de uma torre sob um ângulo de 30°. Ele caminha 20 m em direção à torre, até o ponto B, e passa a ver o topo sob um ângulo de 60°. Qual é a altura da torre?
- Seja x a distância de B até a base da torre.
- Do ponto B: h = x · tg 60° = x√3.
- Do ponto A: h = (x + 20) · tg 30° = (x + 20)√3/3.
- Igualando: x√3 = (x + 20)√3/3, então 3x = x + 20, e x = 10 m.
- h = 10√3 ≈ 17,3 m.
2. Ângulos notáveis
2.1 Dedução dos valores
Ângulo de 45°. A diagonal de um quadrado de lado 1 o divide em dois triângulos retângulos isósceles, com catetos 1 e 1, hipotenusa √2 e ângulos agudos de 45°:
- sen 45° = cos 45° = 1/√2 = √2/2
- tg 45° = 1/1 = 1
Ângulos de 30° e 60°. A altura de um triângulo equilátero de lado 2 o divide em dois triângulos retângulos com:
- hipotenusa 2;
- cateto menor 1, oposto ao ângulo de 30°;
- cateto maior √3, oposto ao ângulo de 60°, obtido por Pitágoras.
Daí:
- sen 30° = 1/2, cos 30° = √3/2, tg 30° = 1/√3 = √3/3
- sen 60° = √3/2, cos 60° = 1/2, tg 60° = √3
2.2 Tabela
| 30° | 45° | 60° | |
|---|---|---|---|
| sen | 1/2 | √2/2 | √3/2 |
| cos | √3/2 | √2/2 | 1/2 |
| tg | √3/3 | 1 | √3 |
Como memorizar:
- Os senos de 30°, 45° e 60° são √1/2, √2/2, √3/2: o número dentro da raiz cresce de 1 a 3.
- Os cossenos são os mesmos valores em ordem inversa, porque cada ângulo é complemento do outro (30° e 60°, e 45° consigo mesmo).
- A tangente é seno dividido por cosseno.
Valores aproximados:
| Valor | Aproximação |
|---|---|
| √2/2 | 0,707 |
| √3/2 | 0,866 |
| √3 | 1,732 |
| √3/3 | 0,577 |
2.3 Ângulos de 0° e 90°
Esses ângulos não existem como ângulos agudos de um triângulo, mas seus valores são definidos pelo ciclo trigonométrico (seção 5):
| 0° | 90° | |
|---|---|---|
| sen | 0 | 1 |
| cos | 1 | 0 |
| tg | 0 | não definida |
3. Lei dos senos
3.1 Enunciado
As razões do triângulo retângulo não se aplicam diretamente a triângulos quaisquer. Para eles, há duas leis. A primeira é:
Em palavras: cada lado é proporcional ao seno do ângulo oposto.
3.2 Demonstração
Trace a altura h relativa ao lado AB, partindo do vértice C. Ela divide o triângulo em dois triângulos retângulos.
- No triângulo que contém o vértice A: h = b · sen A.
- No triângulo que contém o vértice B: h = a · sen B.
Igualando: b · sen A = a · sen B, ou seja, a/sen A = b/sen B. O mesmo raciocínio, com outra altura, inclui c/sen C.
A igualdade com 2R vem do ângulo inscrito (Geometria Plana, Parte 2). Traçando o diâmetro a partir de um vértice, forma-se um triângulo retângulo inscrito, no qual o lado a é cateto oposto a um ângulo igual a A, e a hipotenusa é 2R.
3.3 Quando usar
A lei dos senos se aplica quando se conhecem:
- dois ângulos e um lado: o terceiro ângulo sai da soma 180°;
- dois lados e o ângulo oposto a um deles.
3.4 Exemplos
Exemplo 1. Em um triângulo, A = 45°, B = 60° e a = 10. Quanto mede b?
10/sen 45° = b/sen 60°
b = 10 · (√3/2) ÷ (√2/2) = 10√3/√2 = 5√6 ≈ 12,25
Exemplo 2: distância inacessível. Dois pontos, A e B, estão na mesma margem de um rio, a 100 m um do outro. De A, avista-se uma árvore C na outra margem sob um ângulo de 75° com a linha AB. De B, sob um ângulo de 45°. Qual é a distância de A até a árvore?
- O ângulo em C é 180° − 75° − 45° = 60°.
- AC é oposto ao ângulo B, e AB é oposto ao ângulo C.
- AC/sen 45° = 100/sen 60°.
- AC = 100 · (√2/2) ÷ (√3/2) = 100√2/√3 = 100√6/3 ≈ 81,6 m.
Exemplo 3: raio da circunferência circunscrita. Em um triângulo, a = 6 e A = 30°. Então:
2R = 6/sen 30° = 6 ÷ 0,5 = 12, logo R = 6
4. Lei dos cossenos
4.1 Enunciado
E, de forma análoga:
- b² = a² + c² − 2ac · cos B
- c² = a² + b² − 2ab · cos C
4.2 Demonstração
Trace a altura h relativa ao lado AB, partindo de C. Ela determina sobre AB:
- um segmento adjacente a A, de medida b · cos A;
- o segmento restante, de medida c − b · cos A.
A altura mede h = b · sen A. No triângulo retângulo que contém o vértice B, por Pitágoras:
a² = h² + (c − b · cos A)²
a² = b² sen² A + c² − 2bc · cos A + b² cos² A
a² = b² (sen² A + cos² A) + c² − 2bc · cos A
a² = b² + c² − 2bc · cos A
4.3 Relação com o teorema de Pitágoras
A lei dos cossenos é uma generalização do teorema de Pitágoras.
- Se A = 90°, então cos A = 0, e a lei se reduz a a² = b² + c².
- Se A é agudo, cos A > 0, e o termo subtraído torna a² < b² + c².
- Se A é obtuso, cos A < 0, e o termo subtraído passa a somar, tornando a² > b² + c².
Essa é exatamente a classificação de triângulos pelos lados, apresentada na Geometria Plana, Parte 1. Agora ela tem uma justificativa.
4.4 Quando usar
A lei dos cossenos se aplica quando se conhecem:
- dois lados e o ângulo entre eles, para calcular o terceiro lado;
- os três lados, para calcular qualquer ângulo.
4.5 Exemplos
Exemplo 1: terceiro lado. b = 5, c = 8 e A = 60°.
a² = 25 + 64 − 2 · 5 · 8 · (1/2) = 89 − 40 = 49
a = 7
Exemplo 2: ângulo a partir dos lados. Um triângulo tem lados 7, 8 e 13. Qual é o maior ângulo?
O maior ângulo é oposto ao maior lado (13):
169 = 49 + 64 − 2 · 7 · 8 · cos C
169 = 113 − 112 cos C
cos C = −56/112 = −1/2
Logo, C = 120°. O cosseno negativo indica um ângulo obtuso. O cálculo de cos 120° é explicado na seção 5.7.
Exemplo 3: navegação. Dois navios partem do mesmo porto, em rotas que formam entre si um ângulo de 120°. Depois de algum tempo, um percorreu 30 km, e o outro, 50 km. Qual é a distância entre eles?
d² = 30² + 50² − 2 · 30 · 50 · cos 120°
d² = 900 + 2.500 − 3.000 · (−1/2)
d² = 3.400 + 1.500 = 4.900
d = 70 km
5. O ciclo trigonométrico
5.1 Por que ampliar as definições
No triângulo retângulo, só existem ângulos entre 0° e 90°. Mas há muitas situações que exigem ângulos maiores ou negativos:
- triângulos obtusângulos, como no exemplo dos navios;
- rotações completas, como as de rodas e ponteiros;
- fenômenos que se repetem periodicamente, como marés, ondas sonoras e o ciclo dos dias.
O ciclo trigonométrico estende seno, cosseno e tangente a qualquer ângulo.
5.2 A circunferência unitária
O ciclo trigonométrico é uma circunferência de raio 1, centrada na origem do plano cartesiano. Por convenção:
- a origem dos arcos é o ponto (1, 0);
- o sentido positivo é o anti-horário;
- arcos no sentido horário são negativos.
Os eixos dividem o ciclo em quatro quadrantes:
| Quadrante | Arcos (em graus) |
|---|---|
| I | 0° a 90° |
| II | 90° a 180° |
| III | 180° a 270° |
| IV | 270° a 360° |
5.3 Radianos
Como o raio é 1, a medida de um arco em radianos é igual ao seu comprimento. Uma volta completa mede 2π.
| Graus | 0° | 30° | 45° | 60° | 90° | 180° | 270° | 360° |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Radianos | 0 | π/6 | π/4 | π/3 | π/2 | π | 3π/2 | 2π |
A conversão segue a relação π rad = 180°. Um radiano mede aproximadamente 57,3°.
5.4 Seno e cosseno como coordenadas
Para cada arco θ, existe um ponto P sobre o ciclo, e:
- O cosseno é a abscissa de P, sua projeção sobre o eixo horizontal.
- O seno é a ordenada de P, sua projeção sobre o eixo vertical.
Para ângulos agudos, essa definição coincide com a do triângulo retângulo. Ligando a origem ao ponto P, forma-se um triângulo retângulo com hipotenusa 1, cateto horizontal cos θ e cateto vertical sen θ.
Como P está sobre uma circunferência de raio 1:
5.5 A tangente no ciclo
A tangente é definida por tg θ = sen θ ÷ cos θ. Geometricamente, é a ordenada do ponto em que o prolongamento do raio OP encontra a reta vertical x = 1, chamada eixo das tangentes.
A tangente não está definida quando cos θ = 0, ou seja, para 90°, 270° e arcos côngruos a eles.
5.6 Sinais por quadrante
| Quadrante | sen | cos | tg |
|---|---|---|---|
| I | + | + | + |
| II | + | − | − |
| III | − | − | + |
| IV | − | + | − |
O sinal do seno segue o eixo vertical: positivo acima do eixo x, negativo abaixo. O do cosseno segue o eixo horizontal: positivo à direita do eixo y, negativo à esquerda. A tangente é positiva quando seno e cosseno têm o mesmo sinal.
5.7 Valores nos eixos
| 0° | 90° | 180° | 270° | 360° | |
|---|---|---|---|---|---|
| sen | 0 | 1 | 0 | −1 | 0 |
| cos | 1 | 0 | −1 | 0 | 1 |
| tg | 0 | não definida | 0 | não definida | 0 |
5.8 Redução ao primeiro quadrante
Pela simetria do ciclo, o seno e o cosseno de qualquer arco têm, em módulo, o mesmo valor de um arco do primeiro quadrante. Só o sinal muda, conforme o quadrante.
| Quadrante | Arco | Arco correspondente no 1º quadrante | sen | cos |
|---|---|---|---|---|
| II | 180° − x | x | sen x | −cos x |
| III | 180° + x | x | −sen x | −cos x |
| IV | 360° − x | x | −sen x | cos x |
Procedimento:
- Identifique o quadrante do arco.
- Encontre o arco correspondente no 1º quadrante.
- Use o valor desse arco, com o sinal do quadrante original.
Exemplos:
- sen 150° = sen(180° − 30°) = sen 30° = 1/2
- cos 120° = cos(180° − 60°) = −cos 60° = −1/2
- cos 210° = cos(180° + 30°) = −cos 30° = −√3/2
- sen 300° = sen(360° − 60°) = −sen 60° = −√3/2
- tg 135°: no II quadrante, a tangente é negativa, e tg 45° = 1. Logo, tg 135° = −1.
- tg 240°: no III quadrante, a tangente é positiva, e tg 60° = √3. Logo, tg 240° = √3.
5.9 Arcos côngruos
Dois arcos são côngruos quando têm a mesma extremidade no ciclo, ou seja, quando diferem por um número inteiro de voltas. Arcos côngruos têm o mesmo seno, o mesmo cosseno e a mesma tangente.
Para reduzir um arco à primeira volta, divida a medida por 360° e use o resto.
- 1.110° = 3 · 360° + 30°. É côngruo a 30°, e sen 1.110° = 1/2.
- −45° é côngruo a 360° − 45° = 315°.
- 17π/6 = 2π + 5π/6. É côngruo a 5π/6 = 150°, e sen(17π/6) = 1/2.
6. Relações trigonométricas fundamentais
6.1 A relação fundamental
Demonstração no ciclo. O ponto P = (cos x, sen x) está a uma distância 1 da origem. Pelo teorema de Pitágoras:
(cos x)² + (sen x)² = 1²
6.2 Tangente, secante, cossecante e cotangente
As três razões recíprocas são:
| Razão | Definição | Condição de existência |
|---|---|---|
| Secante | sec x = 1 ÷ cos x | cos x ≠ 0 |
| Cossecante | cossec x = 1 ÷ sen x | sen x ≠ 0 |
| Cotangente | cotg x = cos x ÷ sen x = 1 ÷ tg x | sen x ≠ 0 |
Dividindo a relação fundamental por cos² x ou por sen² x, obtêm-se duas relações derivadas:
6.3 Calcular todas as razões a partir de uma
Exemplo 1. Se sen x = 3/5 e x está no II quadrante, quais são cos x e tg x?
- cos² x = 1 − 9/25 = 16/25, então cos x = ±4/5.
- No II quadrante, o cosseno é negativo: cos x = −4/5.
- tg x = (3/5) ÷ (−4/5) = −3/4.
Exemplo 2. Se cos x = 1/2 e x está no IV quadrante:
- sen² x = 1 − 1/4 = 3/4, então sen x = ±√3/2.
- No IV quadrante, o seno é negativo: sen x = −√3/2.
- tg x = (−√3/2) ÷ (1/2) = −√3.
O quadrante é indispensável: a relação fundamental dá o valor do seno ou do cosseno apenas em módulo. O sinal vem da posição do arco.
6.4 Simplificação de expressões
Exemplo 1.
(1 − cos² x) ÷ sen x = sen² x ÷ sen x = sen x, para sen x ≠ 0
Exemplo 2. Usando o produto notável (a + b)² = a² + 2ab + b²:
(sen x + cos x)² = sen² x + 2 sen x cos x + cos² x = 1 + 2 sen x cos x
7. Distinções importantes
| Conceito | Não confundir com | Diferença |
|---|---|---|
| Cateto oposto | Cateto adjacente | Dependem do ângulo de referência |
| Seno | Cosseno | O seno usa o cateto oposto; o cosseno, o adjacente |
| sen² x + cos² x = 1 | sen x + cos x = 1 | Só a soma dos quadrados vale 1 |
| Razões do triângulo retângulo | Lei dos senos e dos cossenos | As leis valem para qualquer triângulo |
| Lei dos senos | Lei dos cossenos | A dos senos relaciona lados e ângulos opostos; a dos cossenos, dois lados e o ângulo entre eles |
| Grau | Radiano | 180° = π rad |
| Arcos côngruos | Arcos iguais | Côngruos diferem por voltas inteiras |
| cos 120° | cos 60° | Têm o mesmo valor em módulo, mas sinais opostos |
| tg 90° | tg 0° | A primeira não existe; a segunda é zero |
| Inclinação de 100% | Inclinação de 90° | 100% corresponde a 45°, porque tg 45° = 1 |
8. Erros recorrentes e como evitá-los
Confundir cateto oposto com adjacente. Controle: o oposto fica "em frente" ao ângulo; o adjacente "encosta" no ângulo.
Escolher a razão errada. Controle: identifique os dois lados envolvidos (o conhecido e o procurado) e use a razão que relaciona exatamente esses dois.
Usar razões do triângulo retângulo em um triângulo qualquer. Controle: sem ângulo reto, use a lei dos senos ou a dos cossenos.
Esquecer a altura dos olhos do observador. Controle: releia o enunciado em busca desse dado e some-o ao resultado.
Errar o sinal na redução ao primeiro quadrante. Controle: determine primeiro o quadrante e o sinal correspondente; só depois busque o valor.
Esquecer que cos A é negativo para ângulos obtusos na lei dos cossenos. Controle: lembre que, com ângulo obtuso, o terceiro lado fica maior que no caso retângulo.
Escrever sen x + cos x = 1. Controle: teste com 45°: √2/2 + √2/2 ≈ 1,41.
Ignorar o quadrante ao usar a relação fundamental. Controle: a raiz quadrada dá dois sinais possíveis, e o quadrante decide qual.
Confundir inclinação em porcentagem com ângulo em graus. Controle: a porcentagem é a tangente vezes 100.
Verificação geral. O seno e o cosseno nunca passam de 1 em módulo. O maior lado de um triângulo é oposto ao maior ângulo.
9. Questões comentadas (autorais, padrão ENEM)
Questão 1 (H8, nível fácil)
Uma rampa reta de 12 m de comprimento forma com o solo horizontal um ângulo de 30°. A altura atingida pela extremidade superior da rampa em relação ao solo é:
A) 6 m
B) 6√3 m
C) 4√3 m
D) 12 m
E) 24 m
Gabarito: A
Resolução. O comprimento da rampa é a hipotenusa, e a altura é o cateto oposto ao ângulo:
h = 12 · sen 30° = 12 · 1/2 = 6 m
Análise dos distratores.
- B: usa o cosseno, que dá a projeção horizontal da rampa.
- C: usa a tangente, tratando o comprimento da rampa como cateto adjacente.
- E: divide pelo seno em vez de multiplicar.
Questão 2 (H8, nível médio)
Uma pessoa está a 40 m da base de um prédio, em terreno plano, e vê o topo do prédio sob um ângulo de 60° com a horizontal. Seus olhos estão a 1,6 m do chão. Considerando √3 ≈ 1,73, a altura do prédio é, aproximadamente:
A) 23,1 m
B) 24,7 m
C) 69,2 m
D) 70,8 m
E) 80,0 m
Gabarito: D
Resolução.
- A parte do prédio acima dos olhos mede 40 · tg 60° = 40 · 1,73 = 69,2 m.
- Somando a altura dos olhos: 69,2 + 1,6 = 70,8 m.
Análise dos distratores.
- C: esquece a altura dos olhos.
- A: divide pela tangente em vez de multiplicar (40 ÷ 1,73).
- B: comete o mesmo erro de A e soma a altura dos olhos.
- E: calcula a hipotenusa (40 ÷ cos 60°), que é a distância dos olhos ao topo.
Questão 3 (H8, nível médio)
Dois pontos, A e B, estão na mesma margem de um rio, a 100 m um do outro. De A, avista-se uma árvore C, na margem oposta, sob um ângulo de 75° com a linha AB. De B, a mesma árvore é vista sob um ângulo de 45° com essa linha. Considerando √2 ≈ 1,41 e √6 ≈ 2,45, a distância de A até a árvore é, aproximadamente:
A) 70,7 m
B) 81,7 m
C) 86,6 m
D) 122,5 m
E) 141,4 m
Gabarito: B
Resolução.
- O ângulo em C é 180° − 75° − 45° = 60°.
- Pela lei dos senos: AC/sen 45° = 100/sen 60°.
- AC = 100√2/√3 = 100√6/3 ≈ 81,7 m.
Análise dos distratores.
- D: inverte a razão entre os senos.
- A e C: tratam o triângulo como retângulo e multiplicam 100 m diretamente pelo seno de um dos ângulos.
Questão 4 (H8, nível médio)
Dois barcos partem de um mesmo porto, em rotas retilíneas que formam entre si um ângulo de 120°. Após algum tempo, um percorreu 30 km, e o outro, 50 km. A distância entre os barcos nesse instante é:
A) 20 km
B) aproximadamente 43,6 km
C) aproximadamente 58,3 km
D) 70 km
E) 80 km
Gabarito: D
Resolução. Pela lei dos cossenos, com cos 120° = −1/2:
d² = 900 + 2.500 − 2 · 30 · 50 · (−1/2) = 3.400 + 1.500 = 4.900
d = 70 km
Análise dos distratores.
- B: usa cos 120° = +1/2, esquecendo o sinal negativo no II quadrante.
- C: aplica Pitágoras, como se o ângulo fosse reto.
- A: subtrai as distâncias.
- E: soma as distâncias.
Questão 5 (H7, nível fácil)
O valor da expressão sen 150° + cos 240° é:
A) −1
B) −1/2
C) 0
D) 1/2
E) 1
Gabarito: C
Resolução.
- sen 150° = sen 30° = 1/2 (no II quadrante, o seno é positivo).
- cos 240° = −cos 60° = −1/2 (no III quadrante, o cosseno é negativo).
- Soma: 1/2 + (−1/2) = 0.
Análise dos distratores. A alternativa E resulta de ignorar os sinais e tratar os dois valores como positivos.
Questão 6 (H8, nível difícil)
De um ponto A, um observador vê o topo de uma torre sob um ângulo de 30° com a horizontal. Ele caminha 20 m em linha reta na direção da torre e passa a ver o topo sob um ângulo de 60°. Desprezando a altura do observador e considerando √3 ≈ 1,73, a altura da torre é, aproximadamente:
A) 10 m
B) 17,3 m
C) 20 m
D) 34,6 m
E) 11,5 m
Gabarito: B
Resolução.
- Seja x a distância do segundo ponto até a base da torre.
- h = x√3 e h = (x + 20)√3/3.
- Igualando: 3x = x + 20, então x = 10 m.
- h = 10√3 ≈ 17,3 m.
Análise dos distratores.
- A: dá a distância x, e não a altura.
- D: multiplica a distância percorrida (20 m) por tg 60°, como se ela fosse a distância até a torre.
- E: multiplica 20 m por tg 30°, cometendo o mesmo erro com o outro ângulo.
Questão 7 (H22, nível difícil)
Um estudante afirmou que, para qualquer ângulo agudo x, vale sen x + cos x = 1. Sobre essa afirmação, é correto dizer que ela é:
A) verdadeira, por ser a relação fundamental da trigonometria.
B) verdadeira apenas para x = 45°.
C) falsa, pois a relação fundamental é sen² x + cos² x = 1. Para ângulos agudos, sen x + cos x é sempre maior que 1.
D) falsa, pois sen x + cos x vale sempre 2.
E) falsa, pois sen x + cos x é sempre menor que 1 para ângulos agudos.
Gabarito: C
Resolução.
- A relação fundamental envolve os quadrados: sen² x + cos² x = 1.
- Para um ângulo agudo, seno e cosseno estão entre 0 e 1. Por isso, cada um é maior que seu próprio quadrado, e a soma sen x + cos x é maior que sen² x + cos² x = 1.
- Por exemplo, para 45°: √2/2 + √2/2 = √2 ≈ 1,41.
Análise dos distratores.
- A: confunde a soma com a soma dos quadrados.
- B: para 45°, a soma vale √2, e não 1.
- E: inverte a desigualdade.
10. Perguntas frequentes
Por que o seno de um ângulo não depende do tamanho do triângulo?
Porque todos os triângulos retângulos com o mesmo ângulo agudo são semelhantes, e a razão entre lados correspondentes é a mesma em todos eles.
Como escolher entre seno, cosseno e tangente?
Identifique os dois lados envolvidos no problema em relação ao ângulo conhecido. Oposto e hipotenusa pedem seno; adjacente e hipotenusa, cosseno; oposto e adjacente, tangente.
Quando usar a lei dos senos e quando usar a dos cossenos?
Use a dos senos com dois ângulos e um lado, ou com dois lados e o ângulo oposto a um deles. Use a dos cossenos com dois lados e o ângulo entre eles, ou com os três lados.
A lei dos cossenos tem relação com Pitágoras?
Sim. Quando o ângulo é reto, o cosseno é zero, e a lei dos cossenos vira o teorema de Pitágoras.
Por que cos 120° é negativo?
Porque 120° está no II quadrante, onde o ponto do ciclo fica à esquerda do eixo y, e o cosseno é a abscissa desse ponto.
O que são arcos côngruos?
São arcos que terminam no mesmo ponto do ciclo, diferindo por voltas inteiras. Têm os mesmos valores de seno, cosseno e tangente.
Por que a tangente de 90° não existe?
Porque tg 90° = sen 90° ÷ cos 90° = 1 ÷ 0, e não se divide por zero.
Qual a relação entre inclinação em porcentagem e ângulo?
A inclinação em porcentagem é a tangente do ângulo vezes 100. Uma inclinação de 100% corresponde a um ângulo de 45°.
sen² x + cos² x = 1 vale para qualquer ângulo?
Sim, para qualquer arco do ciclo trigonométrico. É uma consequência do teorema de Pitágoras.
12. Síntese
Triângulos retângulos com o mesmo ângulo agudo são semelhantes. Por isso, as razões entre seus lados dependem apenas do ângulo:
- seno = cateto oposto ÷ hipotenusa;
- cosseno = cateto adjacente ÷ hipotenusa;
- tangente = cateto oposto ÷ cateto adjacente.
O cosseno de um ângulo é o seno de seu complemento, a tangente é o seno dividido pelo cosseno, e sen² + cos² = 1 decorre do teorema de Pitágoras. Os ângulos notáveis (30°, 45° e 60°) têm valores deduzidos da metade do quadrado e da metade do triângulo equilátero. A tangente também mede inclinações: em porcentagem, é tg α × 100.
Para triângulos quaisquer:
- a lei dos senos afirma que cada lado é proporcional ao seno do ângulo oposto, com constante 2R;
- a lei dos cossenos, a² = b² + c² − 2bc · cos A, generaliza o teorema de Pitágoras e explica a classificação dos triângulos pelos lados.
O ciclo trigonométrico, de raio 1, estende as definições a qualquer arco. O cosseno é a abscissa do ponto, e o seno, sua ordenada. Os sinais variam por quadrante, e a redução ao primeiro quadrante permite calcular qualquer valor a partir dos ângulos notáveis. Arcos côngruos, que diferem por voltas inteiras, têm os mesmos valores trigonométricos.
| Situação | Ferramenta |
|---|---|
| Lado oposto e hipotenusa | seno |
| Lado adjacente e hipotenusa | cosseno |
| Lados oposto e adjacente | tangente |
| Inclinação em porcentagem | tg α × 100% |
| Dois ângulos e um lado | lei dos senos |
| Dois lados e o ângulo entre eles | lei dos cossenos |
| Três lados, ângulo procurado | lei dos cossenos |
| Raio da circunferência circunscrita | a/sen A = 2R |
| Arco fora do 1º quadrante | redução + sinal do quadrante |
| Arco maior que 360° | resto da divisão por 360° |
| Uma razão conhecida, outras procuradas | sen² + cos² = 1 + quadrante |
| Graus e radianos | π rad = 180° |
13. Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Seno | Razão entre o cateto oposto e a hipotenusa; ordenada do ponto no ciclo |
| Cosseno | Razão entre o cateto adjacente e a hipotenusa; abscissa do ponto no ciclo |
| Tangente | Razão entre o cateto oposto e o cateto adjacente; quociente entre seno e cosseno |
| Ângulos notáveis | 30°, 45° e 60°, cujos valores trigonométricos são exatos e conhecidos |
| Lei dos senos | Em qualquer triângulo, a/sen A = b/sen B = c/sen C = 2R |
| Lei dos cossenos | Em qualquer triângulo, a² = b² + c² − 2bc · cos A |
| Ciclo trigonométrico | Circunferência de raio 1 centrada na origem, com orientação anti-horária |
| Quadrante | Cada uma das quatro regiões em que os eixos dividem o ciclo |
| Radiano | Medida de um arco de comprimento igual ao raio |
| Redução ao 1º quadrante | Cálculo de valores trigonométricos a partir do arco correspondente no 1º quadrante |
| Arcos côngruos | Arcos com a mesma extremidade, que diferem por voltas inteiras |
| Secante | Inverso do cosseno |
| Cossecante | Inverso do seno |
| Cotangente | Inverso da tangente |
| Inclinação | Razão entre o desnível vertical e o deslocamento horizontal |
11. Exercícios de fixação resolvidos
Tente resolver antes de conferir a resposta.
Exercício 1
AutoralEm um triângulo retângulo de catetos 5 e 12 e hipotenusa 13, calcule o seno, o cosseno e a tangente do ângulo oposto ao cateto 5.
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Resposta
sen = 5/13, cos = 12/13 e tg = 5/12.
Exercício 2
AutoralConverta 225° em radianos.
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Resposta
225 · π/180 = 5π/4.
Exercício 3
AutoralConverta 7π/6 em graus.
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Resposta
(7/6) · 180° = 210°.
Exercício 4
AutoralCalcule sen 135°.
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Resposta
sen(180° − 45°) = sen 45° = √2/2.
Exercício 5
AutoralCalcule cos 300°.
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Resposta
cos(360° − 60°) = cos 60° = 1/2.
Exercício 6
AutoralCalcule tg 210°.
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Resposta
No III quadrante, a tangente é positiva. tg 30° = √3/3.
Exercício 7
AutoralCalcule sen 750°.
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Resposta
750° = 2 · 360° + 30°. sen 750° = sen 30° = 1/2.
Exercício 8
AutoralSe cos x = 4/5 e x está no IV quadrante, determine sen x e tg x.
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Resposta
sen² x = 1 − 16/25 = 9/25. No IV quadrante, o seno é negativo: sen x = −3/5. Então tg x = −3/4.
Exercício 9
AutoralDois lados de um triângulo medem 3 cm e 5 cm e formam um ângulo de 120°. Calcule o terceiro lado.
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Resposta
a² = 9 + 25 − 2 · 3 · 5 · (−1/2) = 34 + 15 = 49. a = 7 cm.
Exercício 10
AutoralUma árvore projeta uma sombra de 12 m quando os raios de sol fazem um ângulo de 30° com o solo. Qual é a altura da árvore?
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Resposta
h = 12 · tg 30° = 12 · √3/3 = 4√3 ≈ 6,93 m.
Referências
- Brasil. INEP. Matriz de Referência do ENEM. Matemática e suas Tecnologias: competências de área e habilidades.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Matemática e suas Tecnologias no Ensino Médio.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Lima, E. L.; Carvalho, P. C. P.; Wagner, E.; Morgado, A. C. A Matemática do Ensino Médio. Rio de Janeiro: SBM (Coleção do Professor de Matemática).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Iezzi, G. et al. Fundamentos de Matemática Elementar, v. 3: Trigonometria. São Paulo: Atual.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Figuras da Biblioteca ASSAAD
Ilustrações e diagramas integrantes do material fornecido.



