A geometria espacial estuda as figuras que ocupam as três dimensões: comprimento, largura e altura. Caixas, latas, reservatórios, embalagens, telhados, silos, funis, casquinhas de sorvete e edifícios são, quase sempre, combinações de alguns poucos sólidos.
Apresentação
As duas perguntas centrais do tema são práticas:
- Quanto material é necessário para construir o objeto? Essa é uma pergunta sobre área.
- Quanto cabe dentro dele? Essa é uma pergunta sobre volume.
Na Matriz de Referência, o tema mobiliza a Competência 2:
- H6: interpretar a localização e a movimentação de objetos no espaço tridimensional e sua representação no plano;
- H7: identificar características de figuras espaciais;
- H8: resolver situações-problema envolvendo conhecimentos geométricos;
- H9: selecionar argumentos com base nesses conhecimentos.
Mobiliza também a Competência 3, com a H12 (medidas) e a H14 (avaliação de propostas de intervenção). Geometria espacial está entre os temas mais cobrados da prova, quase sempre em contextos de embalagens, reservatórios e construção civil.
Esta é a primeira parte do estudo de geometria espacial. Ela trata de:
- conceitos fundamentais e posições relativas no espaço;
- poliedros e a relação de Euler;
- prismas, com destaque para o paralelepípedo e o cubo;
- o cilindro;
- a pirâmide;
- o cone;
- as relações de volume entre esses sólidos.
A Parte 2 tratará da esfera, dos troncos, dos sólidos de revolução, da transferência de volumes, das projeções e planificações e dos sólidos inscritos e circunscritos.
Pré-requisitos: Geometria Plana, Partes 1 e 2 (Pitágoras, semelhança e áreas) e o artigo de Grandezas e Medidas (unidades de volume e capacidade).
1. Conceitos fundamentais do espaço
1.1 Determinação de um plano
No espaço, um plano fica determinado por:
- três pontos não alinhados;
- uma reta e um ponto fora dela;
- duas retas concorrentes;
- duas retas paralelas distintas.
É por isso que uma mesa de três pernas nunca balança, e uma de quatro pernas pode balançar. Três pontos de apoio sempre determinam um plano; quatro, nem sempre.
1.2 Posições relativas de duas retas
No plano, duas retas distintas ou se cruzam ou são paralelas. No espaço, surge uma terceira possibilidade.
| Posição | Estão no mesmo plano? | Pontos em comum |
|---|---|---|
| Concorrentes | sim | um |
| Paralelas distintas | sim | nenhum |
| Coincidentes | sim | todos |
| Reversas | não | nenhum |
Retas reversas não se cruzam e não são paralelas: elas estão em planos diferentes. Em um cubo, uma aresta da face superior e uma aresta vertical que não a toca, e que não é paralela a ela, são reversas.
Perpendiculares e ortogonais.
- Retas perpendiculares são concorrentes e formam ângulo de 90°.
- Retas ortogonais são reversas, mas formariam 90° se uma delas fosse deslocada paralelamente até encontrar a outra.
1.3 Reta e plano
Uma reta pode estar:
- contida no plano, com todos os pontos em comum;
- paralela ao plano, sem pontos em comum;
- secante ao plano, cortando-o em um único ponto.
Uma reta é perpendicular a um plano quando é perpendicular a todas as retas do plano que passam pelo ponto de interseção. Para garantir isso, basta que seja perpendicular a duas retas concorrentes do plano.
1.4 Dois planos
- Paralelos: não têm pontos em comum.
- Secantes: cortam-se segundo uma reta.
- Coincidentes: são o mesmo plano.
Planos secantes que formam ângulo de 90° são perpendiculares, como uma parede e o piso.
1.5 Distância de ponto a plano
A distância de um ponto a um plano é o comprimento do segmento perpendicular que liga o ponto ao plano. A altura de todos os sólidos deste artigo é uma distância desse tipo: do vértice, ou da base superior, até o plano da base.
2. Poliedros
2.1 Definição e elementos
Um poliedro é convexo quando qualquer segmento que liga dois de seus pontos fica inteiramente contido nele.
2.2 Relação de Euler
Verificação no cubo: 8 − 12 + 6 = 2.
Contagem de arestas a partir das faces. Cada aresta é compartilhada por exatamente duas faces. Por isso, a soma do número de lados de todas as faces é igual ao dobro do número de arestas:
Exemplo 1. Um poliedro convexo tem 6 faces quadrangulares e 8 faces triangulares. Quantos vértices tem?
- F = 14.
- 2A = 6 · 4 + 8 · 3 = 48, logo A = 24.
- Pela relação de Euler: V = 2 + 24 − 14 = 12.
Exemplo 2: a bola de futebol. O modelo clássico de bola de futebol é um poliedro com 12 faces pentagonais e 20 faces hexagonais.
- F = 32.
- 2A = 12 · 5 + 20 · 6 = 180, logo A = 90.
- V = 2 + 90 − 32 = 60.
2.3 Poliedros de Platão
Os poliedros regulares, ou de Platão, têm todas as faces formadas por polígonos regulares congruentes, com o mesmo número de arestas concorrendo em cada vértice. Existem apenas cinco:
| Poliedro | Faces | V | A | F |
|---|---|---|---|---|
| Tetraedro | triângulos | 4 | 6 | 4 |
| Hexaedro (cubo) | quadrados | 8 | 12 | 6 |
| Octaedro | triângulos | 6 | 12 | 8 |
| Dodecaedro | pentágonos | 20 | 30 | 12 |
| Icosaedro | triângulos | 12 | 30 | 20 |
Por que só cinco. Em cada vértice, os ângulos das faces que se encontram precisam somar menos de 360°, senão o vértice "achata" e vira um plano. Com triângulos equiláteros (60°), cabem 3, 4 ou 5 faces por vértice. Com quadrados (90°), apenas 3. Com pentágonos (108°), apenas 3. Com hexágonos (120°), três já somam 360°, e não formam vértice. Isso dá exatamente cinco possibilidades.
Esse raciocínio é o mesmo do ladrilhamento estudado na Geometria Plana, Parte 1.
3. Prismas
3.1 Definição e elementos
Seus elementos são:
- bases: os dois polígonos congruentes e paralelos;
- faces laterais: os paralelogramos que ligam as bases;
- arestas laterais: as arestas comuns a duas faces laterais, todas congruentes e paralelas;
- altura (h): a distância entre os planos das bases.
3.2 Classificação
- Prisma reto: as arestas laterais são perpendiculares às bases. As faces laterais são retângulos, e a altura é igual à aresta lateral.
- Prisma oblíquo: as arestas laterais são inclinadas em relação às bases. A altura é menor que a aresta lateral.
- Prisma regular: é um prisma reto cuja base é um polígono regular.
O prisma recebe o nome do polígono da base: triangular, quadrangular, pentagonal, hexagonal.
3.3 Áreas
- Área da base (A_b): a área de uma das bases.
- Área lateral (A_l): a soma das áreas das faces laterais. No prisma reto, como as faces laterais são retângulos de altura h:
- Área total (A_t):
Uma forma eficiente de visualizar as áreas é a planificação: abrir o sólido sobre o plano. A planificação de um prisma reto é um retângulo, formado pelas faces laterais lado a lado, com as duas bases presas a ele.
3.4 Volume
Por que funciona. Um prisma pode ser imaginado como uma pilha de "fatias" finíssimas, todas congruentes à base. O volume é a área de cada fatia multiplicada pela altura da pilha.
Princípio de Cavalieri. Dois sólidos com a mesma altura cujas seções, feitas na mesma altura, têm sempre a mesma área, têm volumes iguais. Imagine uma pilha de moedas: inclinando a pilha, a altura e a área de cada moeda não mudam, e o volume também não. Por isso, a fórmula V = A_b · h vale também para prismas oblíquos, desde que h seja a altura perpendicular, e não a aresta lateral.
3.5 Exemplos
Exemplo 1: prisma triangular regular. A aresta da base mede 4 cm, e a altura, 10 cm.
- Área da base (triângulo equilátero): 4²√3/4 = 4√3 ≈ 6,93 cm².
- Área lateral: perímetro × altura = 12 × 10 = 120 cm².
- Área total: 120 + 2 · 4√3 = 120 + 8√3 ≈ 133,86 cm².
- Volume: 4√3 × 10 = 40√3 ≈ 69,28 cm³.
Exemplo 2: prisma hexagonal regular. A aresta da base mede 2 cm, e a altura, 5 cm.
- Área da base: 3 · 4 · √3/2 = 6√3 cm².
- Área lateral: 6 · 2 · 5 = 60 cm².
- Volume: 6√3 × 5 = 30√3 ≈ 51,96 cm³.
Exemplo 3: piscina com fundo inclinado. Uma piscina tem 10 m de comprimento e 5 m de largura. A profundidade varia uniformemente de 1 m, em uma extremidade, a 2 m, na outra. Qual é sua capacidade?
- A piscina é um prisma deitado, cuja base é a face lateral em forma de trapézio, com bases 1 m e 2 m e altura 10 m.
- Área do trapézio: (1 + 2) · 10 ÷ 2 = 15 m².
- A "altura" do prisma é a largura da piscina: 5 m.
- Volume: 15 × 5 = 75 m³ = 75.000 litros.
Reconhecer qual face é a base é o passo decisivo nesse tipo de problema. A base de um prisma nem sempre é a face apoiada no chão.
4. Paralelepípedo e cubo
4.1 Paralelepípedo retângulo
O paralelepípedo retângulo, ou bloco retangular, é o prisma reto de base retangular. Suas seis faces são retângulos, e ele é determinado por três dimensões: a, b e c.
Dedução da diagonal.
- A diagonal da base é d = √(a² + b²), pelo teorema de Pitágoras.
- A diagonal do bloco é a hipotenusa de um triângulo retângulo cujos catetos são d e a altura c.
- Logo, D² = d² + c² = a² + b² + c².
Exemplo. Uma caixa mede 3 cm × 4 cm × 12 cm.
- Diagonal: √(9 + 16 + 144) = √169 = 13 cm.
- Volume: 3 × 4 × 12 = 144 cm³.
- Área total: 2(12 + 36 + 48) = 192 cm².
O resultado da diagonal tem uma consequência prática: uma vareta de até 13 cm cabe inteira dentro da caixa, apoiada de um canto ao canto oposto.
4.2 Cubo
O cubo é o paralelepípedo com as três dimensões iguais à aresta a:
Exemplo. Um cubo tem diagonal de 6√3 cm. A aresta é 6 cm, e o volume, 216 cm³.
4.3 Efeito da mudança de escala
Como visto no artigo de Razão e Proporção, se todas as medidas lineares de um sólido são multiplicadas por k:
- as áreas ficam multiplicadas por k²;
- o volume fica multiplicado por k³.
Dobrando a aresta de um cubo, sua área total quadruplica, e seu volume fica 8 vezes maior.
4.4 Cubo pintado e cortado
Um cubo de aresta n, com todas as faces pintadas, é cortado em n³ cubinhos de aresta 1. Quantos cubinhos têm cada quantidade de faces pintadas?
| Faces pintadas | Localização | Quantidade |
|---|---|---|
| 3 | vértices | 8 |
| 2 | arestas, sem os vértices | 12(n − 2) |
| 1 | faces, sem as bordas | 6(n − 2)² |
| 0 | interior | (n − 2)³ |
Exemplo: n = 5, com 125 cubinhos.
- 3 faces pintadas: 8.
- 2 faces: 12 · 3 = 36.
- 1 face: 6 · 9 = 54.
- Nenhuma: 3³ = 27.
- Verificação: 8 + 36 + 54 + 27 = 125.
4.5 Volume por deslocamento de líquido
Quando um objeto é totalmente submerso em um recipiente com água, o nível sobe. O volume de água deslocada é igual ao volume do objeto. Esse é o princípio atribuído a Arquimedes.
Exemplo. Um aquário tem base retangular de 40 cm × 25 cm. Ao mergulhar uma pedra, o nível sobe 2 cm. O volume da pedra é:
40 × 25 × 2 = 2.000 cm³ = 2 litros
5. Cilindro
5.1 Definição e elementos
O cilindro circular reto tem duas bases que são círculos congruentes e paralelos, ligadas por uma superfície lateral curva. Seus elementos são:
- raio da base (r);
- altura (h): a distância entre as bases;
- geratriz (g): segmento da superfície lateral que liga as duas bases. No cilindro reto, g = h;
- eixo: a reta que passa pelos centros das bases.
5.2 Planificação
A superfície lateral do cilindro, desenrolada, é um retângulo:
- a base do retângulo é o comprimento da circunferência: 2πr;
- a altura do retângulo é a altura do cilindro: h.
A planificação completa é esse retângulo junto com os dois círculos das bases.
5.3 Áreas e volume
O cilindro segue a mesma lógica do prisma: o volume é a área da base vezes a altura.
5.4 Seção meridiana e cilindro equilátero
A seção meridiana é o corte feito por um plano que contém o eixo. No cilindro reto, é um retângulo de lados 2r e h.
Quando a seção meridiana é um quadrado, ou seja, quando h = 2r, o cilindro é chamado equilátero.
5.5 Exemplos
Exemplo 1: lata. Uma lata cilíndrica tem raio de 3 cm e altura de 10 cm. Use π ≈ 3,14.
- Volume: 3,14 × 9 × 10 = 282,6 cm³, cerca de 283 mL.
- Área lateral, que é a área do rótulo sem sobreposição: 2 × 3,14 × 3 × 10 = 188,4 cm².
- Área total: 188,4 + 2 × 3,14 × 9 = 188,4 + 56,52 = 244,92 cm².
Exemplo 2: reservatório. Um reservatório cilíndrico tem 2 m de diâmetro e 3 m de altura. Use π ≈ 3.
V = 3 × 1² × 3 = 9 m³ = 9.000 litros
Exemplo 3: raio × altura. Dobrar o raio de um cilindro multiplica seu volume por 4, porque o raio aparece ao quadrado. Dobrar a altura multiplica o volume apenas por 2. Dois cilindros podem ter formatos bem diferentes e o mesmo volume.
6. Pirâmide
6.1 Definição e elementos
Seus elementos são:
- altura (h): distância do vértice ao plano da base;
- arestas laterais (ℓ): ligam o vértice aos vértices da base;
- apótema da pirâmide (g): altura de uma face lateral, traçada a partir do vértice da pirâmide;
- apótema da base (m): distância do centro da base ao ponto médio de um de seus lados;
- raio da base (R): distância do centro da base a um de seus vértices.
6.2 Pirâmide regular
Uma pirâmide é regular quando sua base é um polígono regular e a projeção do vértice sobre a base coincide com o centro da base. Nesse caso, as faces laterais são triângulos isósceles congruentes.
6.3 Os triângulos retângulos da pirâmide regular
A pirâmide regular esconde três triângulos retângulos que resolvem quase todos os problemas:
| Triângulo | Catetos | Hipotenusa | Relação |
|---|---|---|---|
| Altura e apótema da base | h e m | g | g² = h² + m² |
| Altura e raio da base | h e R | ℓ | ℓ² = h² + R² |
| Apótema da pirâmide e meia aresta da base | g e a/2 | ℓ | ℓ² = g² + (a/2)² |
Apótema e raio das bases mais comuns (com aresta da base a):
| Base | Apótema da base (m) | Raio da base (R) |
|---|---|---|
| Quadrado | a/2 | a√2/2 |
| Triângulo equilátero | a√3/6 | a√3/3 |
| Hexágono regular | a√3/2 | a |
6.4 Áreas
- Área lateral: soma das áreas das faces laterais. Na pirâmide regular de n faces, cada face é um triângulo de base a e altura g:
- Área total:
A pirâmide tem uma única base, e não duas como o prisma.
6.5 Volume
Por que um terço. Um cubo pode ser dividido em três pirâmides congruentes, cada uma com base igual a uma face do cubo e vértice em um mesmo vértice do cubo oposto a essas faces. Cada pirâmide tem, portanto, um terço do volume do cubo, que tem a mesma base e a mesma altura.
Experimentalmente: são necessárias três pirâmides cheias de água para encher um prisma de mesma base e mesma altura. Pelo princípio de Cavalieri, o resultado vale para qualquer pirâmide.
6.6 Exemplos
Exemplo 1: pirâmide quadrangular regular. A aresta da base mede 6 m, e a altura, 4 m.
- Apótema da base: m = 6/2 = 3 m.
- Apótema da pirâmide: g = √(4² + 3²) = 5 m.
- Área lateral: 4 · (6 · 5)/2 = 60 m².
- Área da base: 36 m². Área total: 96 m².
- Volume: 36 · 4/3 = 48 m³.
Exemplo 2: tetraedro regular. No tetraedro regular de aresta a, todas as faces são triângulos equiláteros. Valem:
Para a = 6 cm: V = 216√2/12 = 18√2 ≈ 25,46 cm³.
7. Cone
7.1 Definição e elementos
O cone circular reto tem uma base circular e um vértice situado sobre a reta perpendicular à base que passa pelo seu centro. Seus elementos são:
- raio da base (r);
- altura (h): distância do vértice ao plano da base;
- geratriz (g): segmento que liga o vértice a um ponto da circunferência da base.
As três medidas formam um triângulo retângulo:
7.2 Planificação
A superfície lateral do cone, desenrolada, é um setor circular:
- o raio do setor é a geratriz g do cone;
- o comprimento do arco do setor é a circunferência da base: 2πr.
O ângulo do setor é:
7.3 Áreas e volume
Dedução da área lateral. O setor tem arco 2πr e raio g. Pela fórmula da área do setor em função do arco (Geometria Plana, Parte 2), A = (arco · raio)/2 = (2πr · g)/2 = πrg.
O cone está para o cilindro assim como a pirâmide está para o prisma: seu volume é um terço do volume do cilindro de mesma base e mesma altura.
7.4 Cone equilátero
A seção meridiana do cone, o corte por um plano que contém o eixo, é um triângulo isósceles de lados g, g e 2r. Quando esse triângulo é equilátero, ou seja, quando g = 2r, o cone é chamado equilátero. Nesse caso, h = r√3.
7.5 Exemplos
Exemplo 1. Um cone tem raio 3 cm e altura 4 cm.
- Geratriz: g = √(9 + 16) = 5 cm.
- Área lateral: π · 3 · 5 = 15π cm².
- Área total: 15π + 9π = 24π cm².
- Volume: π · 9 · 4/3 = 12π cm³.
- Ângulo do setor da planificação: 360° · 3/5 = 216°.
Exemplo 2: do setor ao cone. Um chapéu de festa é feito com um setor circular de papel de raio 10 cm e ângulo de 216°. Quais são as dimensões do cone obtido?
- A geratriz do cone é o raio do setor: g = 10 cm.
- O arco do setor mede (216/360) · 2π · 10 = 12π cm.
- Esse arco vira a circunferência da base: 2πr = 12π, logo r = 6 cm.
- A altura é h = √(100 − 36) = 8 cm.
8. Relações entre os sólidos
8.1 Mesmo base e mesma altura
| Sólido "cheio" | Sólido "pontudo" | Razão entre volumes |
|---|---|---|
| Prisma | Pirâmide | a pirâmide tem 1/3 do volume |
| Cilindro | Cone | o cone tem 1/3 do volume |
A família prisma–cilindro segue V = A_b · h. A família pirâmide–cone segue V = A_b · h/3.
8.2 Recipientes cônicos e semelhança
Um copo ou uma taça com forma de cone, com o vértice para baixo, cheio de líquido até metade da altura, contém uma porção de líquido que forma um cone semelhante ao cone total, com razão de semelhança 1/2. Logo:
Esse resultado surpreende quem raciocina linearmente. Pelo mesmo motivo, para que a taça fique com metade do volume, o líquido precisa atingir cerca de 79% da altura, porque (0,794)³ ≈ 0,5.
9. Distinções importantes
| Conceito | Não confundir com | Diferença |
|---|---|---|
| Retas reversas | Retas paralelas | As reversas não estão no mesmo plano |
| Perpendiculares | Ortogonais | As perpendiculares se cruzam; as ortogonais são reversas |
| Prisma | Pirâmide | O prisma tem duas bases; a pirâmide, uma base e um vértice |
| A_b · h | A_b · h/3 | O primeiro é volume de prisma e cilindro; o segundo, de pirâmide e cone |
| Altura da pirâmide (h) | Apótema da pirâmide (g) | h é perpendicular à base; g é a altura de uma face lateral |
| Apótema da base (m) | Raio da base (R) | m vai ao meio do lado; R vai ao vértice |
| Altura do cone (h) | Geratriz do cone (g) | g é a hipotenusa: g² = h² + r² |
| Área lateral | Área total | A total inclui as bases |
| Altura do prisma oblíquo | Aresta lateral | A altura é perpendicular; a aresta é inclinada |
| Volume | Capacidade | Medem o mesmo espaço, em unidades diferentes (m³ e L) |
| Metade da altura de um cone | Metade do volume | Metade da altura corresponde a 1/8 do volume |
10. Erros recorrentes e como evitá-los
Esquecer o 1/3 nos volumes da pirâmide e do cone. Controle: sólidos "pontudos" têm 1/3 do volume do sólido "cheio" correspondente.
Usar a altura no lugar do apótema na área lateral da pirâmide. Controle: a área de cada face usa a altura da própria face, que é o apótema g.
Usar a geratriz no lugar da altura no volume do cone. Controle: o volume usa h; a área lateral usa g.
Contar duas bases na área total da pirâmide ou do cone. Controle: esses sólidos têm uma base só.
Confundir diâmetro com raio. Controle: verifique qual medida o enunciado fornece.
Identificar errado a base de um prisma deitado. Controle: a base é a face que se repete, congruente e paralela, nas duas extremidades.
Esquecer de converter volume em capacidade. Controle: 1 dm³ = 1 L e 1 m³ = 1.000 L.
Raciocinar linearmente com recipientes cônicos. Controle: volumes de sólidos semelhantes variam com o cubo da razão.
Contar arestas sem dividir por 2. Controle: cada aresta pertence a duas faces.
Verificação geral. Confira as unidades: área em unidades quadradas, volume em unidades cúbicas.
11. Questões comentadas (autorais, padrão ENEM)
Questão 1 (H7, nível fácil)
O modelo clássico de bola de futebol corresponde a um poliedro convexo com 12 faces pentagonais e 20 faces hexagonais. O número de vértices desse poliedro é:
A) 32
B) 60
C) 90
D) 120
E) 180
Gabarito: B
Resolução.
- F = 32 e 2A = 12 · 5 + 20 · 6 = 180, logo A = 90.
- Pela relação de Euler: V = 2 + A − F = 2 + 90 − 32 = 60.
Análise dos distratores.
- A: dá o número de faces.
- C: dá o número de arestas.
- E: soma os lados das faces sem dividir por 2.
Questão 2 (H8, nível fácil)
Um aquário tem base retangular de 50 cm por 30 cm. Uma pedra é colocada no aquário e fica totalmente submersa, fazendo o nível da água subir 4 cm, sem transbordar. O volume da pedra é:
A) 0,6 L
B) 6 L
C) 60 L
D) 1,5 L
E) 600 L
Gabarito: B
Resolução. O volume da pedra é igual ao volume de água deslocada:
50 × 30 × 4 = 6.000 cm³ = 6 L
Análise dos distratores.
- A, C e E: resultam de conversões erradas de cm³ para litros.
- D: considera apenas a área da base (1.500 cm²), sem multiplicar pela elevação do nível.
Questão 3 (H8, nível médio)
Uma empresa produz dois potes cilíndricos. O pote A tem raio de 4 cm e altura de 10 cm. O pote B tem raio de 8 cm e altura de 5 cm. A razão entre o volume do pote B e o volume do pote A é:
A) 1/2
B) 1
C) 2
D) 4
E) 8
Gabarito: C
Resolução.
V_B/V_A = (π · 64 · 5) ÷ (π · 16 · 10) = 320/160 = 2
Análise dos distratores.
- B: supõe que dobrar o raio e reduzir a altura à metade se compensam. Mas o raio entra ao quadrado no volume.
- D: considera apenas o efeito do raio.
- E: eleva a razão dos raios ao cubo.
Questão 4 (H8, nível médio)
Uma taça tem a forma de um cone circular reto, com o vértice voltado para baixo. Ela é preenchida com líquido até a metade de sua altura. O volume de líquido corresponde a que porcentagem da capacidade total da taça?
A) 12,5%
B) 25%
C) 33,3%
D) 50%
E) 87,5%
Gabarito: A
Resolução. O líquido forma um cone semelhante ao da taça, com razão de semelhança 1/2. A razão entre os volumes é (1/2)³ = 1/8 = 12,5%.
Análise dos distratores.
- D: raciocina linearmente.
- B: usa a razão de áreas, (1/2)².
- E: dá a porcentagem da parte vazia.
Questão 5 (H8, nível médio)
O telhado de um quiosque tem a forma de uma pirâmide quadrangular regular, com aresta da base de 10 m e altura de 12 m. As quatro faces laterais serão revestidas com telhas. A área a ser revestida é:
A) 240 m²
B) 260 m²
C) 360 m²
D) 400 m²
E) 520 m²
Gabarito: B
Resolução.
- Apótema da base: 5 m.
- Apótema da pirâmide: g = √(144 + 25) = 13 m.
- Área lateral: 4 · (10 · 13)/2 = 260 m².
Análise dos distratores.
- A: usa a altura da pirâmide no lugar do apótema.
- C: inclui a base, que não é telhado.
- D: calcula o volume.
- E: esquece de dividir por 2 a área de cada triângulo.
Questão 6 (H6, nível médio)
Um cubo de madeira de 5 cm de aresta teve todas as suas faces pintadas. Em seguida, foi cortado em 125 cubinhos de 1 cm de aresta. O número de cubinhos com exatamente duas faces pintadas é:
A) 8
B) 27
C) 36
D) 54
E) 98
Gabarito: C
Resolução. Os cubinhos com exatamente duas faces pintadas ficam nas arestas do cubo, sem contar os vértices. Cada aresta tem 5 − 2 = 3 desses cubinhos, e o cubo tem 12 arestas: 12 × 3 = 36.
Análise dos distratores.
- A: corresponde aos cubinhos dos vértices, com três faces pintadas.
- B: corresponde aos cubinhos do interior, sem pintura.
- D: corresponde aos cubinhos com exatamente uma face pintada.
- E: corresponde aos cubinhos com pelo menos uma face pintada.
Questão 7 (H7, nível difícil)
Um chapéu de festa com forma de cone circular reto será montado a partir de um setor circular de papel com 10 cm de raio e ângulo central de 216°, unindo-se as bordas retas do setor sem sobreposição. A altura do chapéu é:
A) 6 cm
B) 8 cm
C) 10 cm
D) 12 cm
E) 16 cm
Gabarito: B
Resolução.
- O raio do setor torna-se a geratriz do cone: g = 10 cm.
- O arco do setor mede (216/360) · 2π · 10 = 12π cm e torna-se a circunferência da base: 2πr = 12π, logo r = 6 cm.
- Altura: h = √(100 − 36) = 8 cm.
Análise dos distratores.
- A: dá o raio da base.
- C: dá a geratriz.
- D: confunde o comprimento do arco (12π) com a altura.
- E: soma o raio da base com a geratriz.
12. Perguntas frequentes
O que são retas reversas?
São retas que não se cruzam e não são paralelas, porque estão em planos diferentes. Só existem no espaço.
Para que serve a relação de Euler?
Para encontrar o número de vértices, arestas ou faces de um poliedro convexo quando os outros dois são conhecidos.
Por que existem só cinco poliedros regulares?
Porque a soma dos ângulos das faces em cada vértice precisa ser menor que 360°, e isso só é possível em cinco combinações.
Por que o volume da pirâmide é um terço do volume do prisma?
Porque três pirâmides de mesma base e mesma altura preenchem exatamente um prisma. No cubo, isso pode ser visto dividindo-o em três pirâmides congruentes.
Qual a diferença entre altura e apótema da pirâmide?
A altura é perpendicular à base e vai do vértice ao centro da base. O apótema é a altura de uma face lateral, medida sobre a própria face.
Quando usar a geratriz e quando usar a altura do cone?
A geratriz entra na área lateral (πrg). A altura entra no volume (πr²h/3). As duas se relacionam por g² = h² + r².
Prismas oblíquos têm a mesma fórmula de volume?
Sim, desde que se use a altura perpendicular entre as bases, e não a aresta lateral. Isso decorre do princípio de Cavalieri.
Como converter volume em litros?
Use 1 dm³ = 1 L, 1 m³ = 1.000 L e 1 cm³ = 1 mL.
Por que uma taça cônica cheia até a metade da altura tem tão pouco líquido?
Porque o líquido forma um cone semelhante ao da taça, e o volume varia com o cubo da razão de semelhança: (1/2)³ = 1/8.
14. Síntese
No espaço, duas retas podem ser concorrentes, paralelas, coincidentes ou reversas. As reversas, sem ponto comum e em planos diferentes, só existem nessa geometria. A altura de um sólido é sempre uma distância perpendicular a um plano.
Os poliedros convexos satisfazem a relação de Euler, V − A + F = 2. O número de arestas é metade da soma dos lados de todas as faces. Existem apenas cinco poliedros regulares.
Prismas e cilindros têm duas bases congruentes e paralelas. Seu volume é a área da base vezes a altura, válido também para sólidos oblíquos pelo princípio de Cavalieri. No paralelepípedo retângulo, a diagonal é √(a² + b² + c²). No cubo, √3 vezes a aresta. A superfície lateral do cilindro, planificada, é um retângulo de lados 2πr e h.
Pirâmides e cones têm uma base e um vértice, e seu volume é um terço do volume do prisma ou do cilindro de mesma base e mesma altura. Na pirâmide regular, três triângulos retângulos relacionam altura, apótemas, raio da base e aresta lateral. No cone, a geratriz se relaciona com a altura e o raio por g² = h² + r², e a superfície lateral planificada é um setor circular de raio g e arco 2πr.
Em sólidos semelhantes, as áreas variam com o quadrado da razão de semelhança, e os volumes, com o cubo. Por isso, um recipiente cônico cheio até metade da altura contém apenas 1/8 da sua capacidade.
| Sólido | Área lateral | Área total | Volume |
|---|---|---|---|
| Prisma reto | perímetro da base × h | A_l + 2A_b | A_b · h |
| Paralelepípedo | – | 2(ab + ac + bc) | abc |
| Cubo | – | 6a² | a³ |
| Cilindro | 2πrh | 2πr(h + r) | πr²h |
| Pirâmide regular | n · a · g/2 | A_l + A_b | A_b · h/3 |
| Cone | πrg | πr(g + r) | πr²h/3 |
| Situação | Ferramenta |
|---|---|
| Vértices, arestas ou faces | V − A + F = 2 |
| Arestas a partir das faces | 2A = soma dos lados |
| Diagonal do bloco | √(a² + b² + c²) |
| Volume de objeto irregular | água deslocada |
| Elementos da pirâmide regular | triângulos retângulos com h, m, R, g e ℓ |
| Elementos do cone | g² = h² + r² |
| Setor que forma um cone | raio do setor = g; arco = 2πr |
| Recipiente cônico parcialmente cheio | razão de volumes = k³ |
15. Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Retas reversas | Retas que não estão em um mesmo plano |
| Retas ortogonais | Retas reversas que formam ângulo de 90° |
| Poliedro | Sólido limitado por polígonos planos |
| Relação de Euler | V − A + F = 2, válida para poliedros convexos |
| Poliedros de Platão | Os cinco poliedros regulares |
| Prisma | Poliedro com duas bases congruentes e paralelas e faces laterais em forma de paralelogramo |
| Prisma regular | Prisma reto cuja base é um polígono regular |
| Paralelepípedo retângulo | Prisma reto de base retangular |
| Princípio de Cavalieri | Sólidos de mesma altura com seções de áreas iguais em cada nível têm volumes iguais |
| Cilindro | Sólido com duas bases circulares congruentes e paralelas e superfície lateral curva |
| Geratriz | Segmento que gera a superfície lateral de um cilindro ou cone |
| Seção meridiana | Corte de um sólido de revolução por um plano que contém o eixo |
| Pirâmide | Poliedro com uma base poligonal e faces laterais triangulares com vértice comum |
| Apótema da pirâmide | Altura de uma face lateral de uma pirâmide regular |
| Apótema da base | Distância do centro da base ao ponto médio de um lado |
| Cone | Sólido com base circular e um vértice fora do plano da base |
| Planificação | Representação plana da superfície de um sólido |
| Capacidade | Volume interno de um recipiente, geralmente em litros |
13. Exercícios de fixação resolvidos
Tente resolver antes de conferir a resposta.
Exercício 1
AutoralUm poliedro convexo tem 8 vértices e 6 faces. Quantas arestas tem?
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Resposta
A = V + F − 2 = 8 + 6 − 2 = 12.
Exercício 2
AutoralUm cubo tem aresta de 5 cm. Calcule a área total, o volume e a diagonal.
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Resposta
A_t = 6 · 25 = 150 cm². V = 125 cm³. D = 5√3 cm.
Exercício 3
AutoralUm paralelepípedo retângulo mede 2 cm × 3 cm × 6 cm. Calcule a diagonal, o volume e a área total.
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Resposta
D = √(4 + 9 + 36) = 7 cm. V = 36 cm³. A_t = 2(6 + 12 + 18) = 72 cm².
Exercício 4
AutoralCalcule o volume de um prisma triangular regular com aresta da base de 6 cm e altura de 10 cm.
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Resposta
A_b = 36√3/4 = 9√3. V = 90√3 ≈ 155,9 cm³.
Exercício 5
AutoralUm cilindro tem raio de 5 cm e altura de 8 cm. Calcule o volume e a área lateral. Use π ≈ 3,14.
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Resposta
V = 3,14 · 25 · 8 = 628 cm³. A_l = 2 · 3,14 · 5 · 8 = 251,2 cm².
Exercício 6
AutoralCalcule o volume de um cilindro equilátero de raio 2 cm.
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Resposta
h = 4 cm. V = π · 4 · 4 = 16π ≈ 50,24 cm³.
Exercício 7
AutoralUma pirâmide quadrangular regular tem aresta da base de 8 cm e apótema de 5 cm. Calcule a altura e o volume.
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Resposta
O apótema da base é 4 cm. h = √(25 − 16) = 3 cm. V = 64 · 3/3 = 64 cm³.
Exercício 8
AutoralUm cone tem raio de 6 cm e geratriz de 10 cm. Calcule a altura e o volume.
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Resposta
h = √(100 − 36) = 8 cm. V = π · 36 · 8/3 = 96π ≈ 301,44 cm³.
Exercício 9
AutoralCalcule a área lateral do cone do exercício anterior.
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Resposta
π · 6 · 10 = 60π ≈ 188,4 cm².
Exercício 10
AutoralQuantos litros cabem em um recipiente cilíndrico de 40 cm de diâmetro e 50 cm de altura? Use π ≈ 3,14.
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Resposta
r = 20 cm. V = 3,14 · 400 · 50 = 62.800 cm³ = 62,8 L.
Referências
- Brasil. INEP. Matriz de Referência do ENEM. Matemática e suas Tecnologias: competências de área e habilidades.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Matemática e suas Tecnologias no Ensino Médio.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Lima, E. L.; Carvalho, P. C. P.; Wagner, E.; Morgado, A. C. A Matemática do Ensino Médio. Rio de Janeiro: SBM (Coleção do Professor de Matemática).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Iezzi, G. et al. Fundamentos de Matemática Elementar, v. 10: Geometria Espacial. São Paulo: Atual.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.



