A função do segundo grau, ou função quadrática, descreve situações em que uma grandeza cresce até um ponto e depois decresce, ou decresce até um ponto e depois volta a crescer. Alguns exemplos:
- a trajetória de uma bola chutada;
- a área de um cercado construído com uma quantidade fixa de tela;
- a receita de uma empresa que reduz o preço para vender mais;
- o lucro que aumenta com a produção até certo nível e depois cai.
Apresentação
A trajetória parabólica. O vértice é o ponto mais alto.

O gráfico de todas essas situações é uma parábola, e o ponto de virada, o vértice, costuma ser a resposta procurada: a altura máxima, a área máxima, o lucro máximo, o custo mínimo.
Na Matriz de Referência, o tema pertence à Competência de área 5 e mobiliza todas as suas habilidades:
- H19: identificar a representação algébrica de uma relação entre grandezas;
- H20: interpretar o gráfico cartesiano dessa relação;
- H21: resolver situações-problema modeladas por ela;
- H22: usar esses conhecimentos para argumentar;
- H23: avaliar propostas de intervenção na realidade com base neles.
Itens de máximo e mínimo e de leitura de gráficos de parábolas estão entre os mais recorrentes do exame.
Este artigo apresenta:
- a lei de formação e as situações que ela modela;
- o significado geométrico de cada coeficiente;
- as raízes, o discriminante e as relações de soma e produto;
- as três formas de escrever a função (geral, fatorada e canônica);
- o vértice, com a dedução de suas fórmulas;
- a construção do gráfico, os intervalos de crescimento e o estudo do sinal;
- os problemas de máximo e mínimo;
- a interação entre funções do 1º e do 2º grau.
Pré-requisitos: equação do 2º grau (bloco 7) e o artigo de Função do Primeiro Grau (plano cartesiano, noção de função, domínio e imagem).
1. Lei de formação
1.1 Definição
Se a = 0, a função deixa de ser quadrática e passa a ser afim.
| Função | a | b | c |
|---|---|---|---|
| f(x) = x² − 5x + 6 | 1 | −5 | 6 |
| f(x) = 3 − 2x² | −2 | 0 | 3 |
| f(x) = 4x² + x | 4 | 1 | 0 |
| f(x) = (x − 1)(x + 4) = x² + 3x − 4 | 1 | 3 | −4 |
Quando a lei aparece fatorada ou com os termos fora de ordem, é preciso desenvolver e ordenar antes de identificar os coeficientes.
1.2 Situações modeladas por funções quadráticas
Área. Um retângulo de perímetro 2L tem lados x e L − x. Sua área é:
A(x) = x(L − x) = −x² + Lx
Movimento uniformemente variado. A posição de um corpo com aceleração constante α é:
s(t) = s₀ + v₀t + (α/2)t²
Nessa fórmula, s₀ é a posição inicial, v₀ é a velocidade inicial e α é a aceleração. Usamos α, e não a, para não confundir a aceleração com o coeficiente a da função quadrática. A altura de um objeto lançado verticalmente para cima, desprezando a resistência do ar, tem essa forma.
Receita com preço variável. Se o preço de um produto depende da quantidade vendida segundo p = 50 − x, a receita é:
R(x) = x · p = x(50 − x) = −x² + 50x
Em todos os casos, a função quadrática surge do produto de duas grandezas que variam linearmente.
1.3 Valor numérico e equações
Para f(x) = x² − 5x + 6:
- f(2) = 4 − 10 + 6 = 0;
- f(−1) = 1 + 5 + 6 = 12.
A pergunta inversa, "para que valores de x temos f(x) = 2?", leva a uma equação:
x² − 5x + 6 = 2
x² − 5x + 4 = 0
x = 1 ou x = 4
1.4 Reconhecendo uma função quadrática em uma tabela
Na função afim, as diferenças entre valores consecutivos de y, para valores de x igualmente espaçados, são constantes. Na função quadrática, as diferenças das diferenças é que são constantes.
| x | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 |
|---|---|---|---|---|---|
| f(x) = x² | 0 | 1 | 4 | 9 | 16 |
| 1ª diferença | 1 | 3 | 5 | 7 | |
| 2ª diferença | 2 | 2 | 2 |
Para x variando de 1 em 1, a segunda diferença é igual a 2a. Esse critério permite identificar uma relação quadrática em dados tabelados, como os itens do ENEM costumam apresentar.
2. Os coeficientes e o gráfico
2.1 A parábola e o coeficiente a
O gráfico de toda função quadrática é uma parábola. O coeficiente a determina:
A concavidade (o sinal de a):
- a > 0: a concavidade é voltada para cima, e a função tem um ponto de mínimo;
- a < 0: a concavidade é voltada para baixo, e a função tem um ponto de máximo.
Uma forma de lembrar: a > 0 tem a forma de um sorriso, e a < 0, de uma careta.
A abertura (o valor absoluto de a):
Quanto maior o valor absoluto de a, mais fechada é a parábola. Compare:
- y = 0,5x² é mais aberta;
- y = x² é intermediária;
- y = 3x² é mais fechada.
Para x = 2, essas funções valem 2, 4 e 12, respectivamente. A terceira cresce muito mais rapidamente.
2.2 O coeficiente c
Como f(0) = a · 0² + b · 0 + c = c, a parábola corta o eixo y no ponto (0, c).
- c > 0: o corte é acima da origem.
- c < 0: o corte é abaixo da origem.
- c = 0: a parábola passa pela origem.
2.3 O coeficiente b
O coeficiente b indica o comportamento da parábola no ponto em que ela corta o eixo y:
- b > 0: a parábola está subindo ao cruzar o eixo y;
- b < 0: a parábola está descendo ao cruzar o eixo y;
- b = 0: o vértice está sobre o eixo y, e a parábola é simétrica em relação a ele.
Uma forma equivalente de analisar b é pela posição do vértice. Como xᵥ = −b/2a (seção 6):
- se a e b têm o mesmo sinal, xᵥ < 0, e o vértice fica à esquerda do eixo y;
- se a e b têm sinais opostos, xᵥ > 0, e o vértice fica à direita do eixo y.
2.4 Lendo os sinais dos coeficientes a partir do gráfico
| Observação no gráfico | Conclusão |
|---|---|
| Concavidade para cima | a > 0 |
| Concavidade para baixo | a < 0 |
| Corta o eixo y acima da origem | c > 0 |
| Corta o eixo y abaixo da origem | c < 0 |
| Vértice à direita do eixo y | a e b com sinais opostos |
| Vértice à esquerda do eixo y | a e b com o mesmo sinal |
| Corta o eixo x em dois pontos | Δ > 0 |
| Toca o eixo x em um ponto | Δ = 0 |
| Não toca o eixo x | Δ < 0 |
Exemplo. Uma parábola tem concavidade para baixo, corta o eixo y acima da origem e tem vértice à direita do eixo y.
- Concavidade para baixo: a < 0.
- Corte acima da origem: c > 0.
- Vértice à direita: a e b têm sinais opostos. Como a < 0, b > 0.
3. Raízes e discriminante
3.1 Zeros da função
As raízes, ou zeros, da função são os valores de x para os quais f(x) = 0. Geometricamente, são as abscissas dos pontos em que a parábola cruza ou toca o eixo x.
Elas são obtidas resolvendo a equação ax² + bx + c = 0, como no bloco 7:
3.2 O discriminante e o gráfico
| Δ | Raízes reais | Posição da parábola em relação ao eixo x |
|---|---|---|
| Δ > 0 | duas, distintas | corta o eixo x em dois pontos |
| Δ = 0 | uma (dupla) | tangencia o eixo x no vértice |
| Δ < 0 | nenhuma | não toca o eixo x |
Exemplo. Para f(x) = x² − 6x + 5:
- Δ = 36 − 20 = 16;
- x = (6 ± 4) ÷ 2, ou seja, x = 1 ou x = 5.
A parábola corta o eixo x nos pontos (1, 0) e (5, 0).
4. Soma e produto das raízes
4.1 As relações de Girard
Dedução. As raízes são (−b + √Δ)/2a e (−b − √Δ)/2a.
- Soma: os termos com √Δ se cancelam, e sobra −2b/2a = −b/a.
- Produto: pelo produto da soma pela diferença, [(−b)² − (√Δ)²] ÷ 4a² = (b² − Δ) ÷ 4a² = 4ac ÷ 4a² = c/a.
4.2 Aplicações
Encontrar raízes mentalmente.
- Em x² − 7x + 10 = 0, a soma é 7, e o produto, 10. As raízes são 2 e 5.
- Em 2x² − 10x + 12 = 0, a soma é 10/2 = 5, e o produto, 12/2 = 6. As raízes são 2 e 3.
Determinar um coeficiente. A equação x² − 8x + k = 0 tem uma raiz igual ao triplo da outra. Qual é o valor de k?
- Se x₂ = 3x₁, a soma é 4x₁ = 8, então x₁ = 2 e x₂ = 6.
- O produto é k = 2 × 6 = 12.
Calcular expressões das raízes sem encontrá-las. A soma dos inversos das raízes é:
1/x₁ + 1/x₂ = (x₁ + x₂) ÷ (x₁ · x₂) = S/P
5. As três formas da função quadrática
5.1 Forma geral
Fornece diretamente a concavidade (a) e o corte com o eixo y (c).
5.2 Forma fatorada
Fornece diretamente as raízes. É a forma mais conveniente para encontrar a lei de uma parábola a partir das raízes e de mais um ponto.
Exemplo. Uma parábola tem raízes 1 e 5 e corta o eixo y no ponto (0, 10). Qual é sua lei?
- f(x) = a(x − 1)(x − 5).
- f(0) = a · (−1) · (−5) = 5a = 10, logo a = 2.
- f(x) = 2(x − 1)(x − 5) = 2x² − 12x + 10.
5.3 Forma canônica
Fornece diretamente o vértice. É obtida completando quadrados.
Exemplo. Escrever f(x) = x² − 6x + 5 na forma canônica.
- Os termos x² − 6x são o início de (x − 3)² = x² − 6x + 9.
- Então x² − 6x + 5 = (x − 3)² − 9 + 5 = (x − 3)² − 4.
- O vértice é (3, −4).
A forma canônica mostra por que o vértice é o ponto de mínimo quando a > 0. Como (x − 3)² nunca é negativo, f(x) nunca é menor que −4. Esse valor é atingido exatamente quando x = 3.
5.4 Qual forma usar
| Informação desejada | Forma mais conveniente |
|---|---|
| Concavidade e corte no eixo y | Geral |
| Raízes | Fatorada |
| Vértice, máximo ou mínimo | Canônica |
| Lei a partir das raízes e de um ponto | Fatorada |
| Lei a partir do vértice e de um ponto | Canônica |
6. O vértice
6.1 As fórmulas
6.2 Dedução pela simetria
A parábola é simétrica em relação a uma reta vertical que passa pelo vértice, o eixo de simetria. Então, se dois pontos da parábola têm a mesma altura, o vértice está exatamente no meio deles.
- f(0) = c.
- f(−b/a) = a · (b²/a²) − b²/a + c = b²/a − b²/a + c = c.
Os pontos de abscissas 0 e −b/a têm a mesma altura c. O vértice está no ponto médio entre eles:
xᵥ = [0 + (−b/a)] ÷ 2 = −b/2a
Quando a função tem raízes, o vértice também está no ponto médio entre elas:
xᵥ = (x₁ + x₂) ÷ 2 = (−b/a) ÷ 2 = −b/2a
Esse resultado é um atalho valioso: se as raízes são conhecidas, xᵥ é simplesmente a média entre elas.
6.3 Eixo de simetria e imagem
O eixo de simetria é a reta vertical x = xᵥ.
A imagem da função, o conjunto dos valores que f(x) assume, depende da concavidade:
- a > 0: Im = [yᵥ, +∞[, porque yᵥ é o menor valor;
- a < 0: Im = ]−∞, yᵥ], porque yᵥ é o maior valor.
6.4 Exemplos
Exemplo 1: f(x) = −x² + 6x − 5
- xᵥ = −6 ÷ (−2) = 3
- yᵥ = f(3) = −9 + 18 − 5 = 4
- V(3, 4), ponto de máximo. Im = ]−∞, 4].
Conferindo pela outra fórmula: Δ = 36 − 20 = 16, e −Δ/4a = −16 ÷ (−4) = 4. Conferindo pelas raízes (1 e 5): o ponto médio é 3.
Exemplo 2: f(x) = 2x² − 8x + 3
- xᵥ = 8 ÷ 4 = 2
- yᵥ = f(2) = 8 − 16 + 3 = −5
- V(2, −5), ponto de mínimo. Im = [−5, +∞[.
7. Construção e leitura do gráfico
7.1 Roteiro para esboçar a parábola
- Concavidade: sinal de a.
- Corte no eixo y: ponto (0, c).
- Raízes: cortes no eixo x, se houver.
- Vértice: (xᵥ, yᵥ).
- Ponto simétrico ao corte no eixo y: (−b/a, c), que tem a mesma altura de (0, c).
- Ligue os pontos com uma curva suave e simétrica.
7.2 Exemplo completo
Esboçar o gráfico de f(x) = x² − 4x + 3.
- a = 1 > 0: concavidade para cima.
- Corte no eixo y: (0, 3).
- Raízes: soma 4 e produto 3, ou seja, x = 1 e x = 3.
- Vértice: xᵥ = 2 (média das raízes), yᵥ = f(2) = 4 − 8 + 3 = −1. V(2, −1).
- Simétrico do corte no eixo y: (4, 3).
| x | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 |
|---|---|---|---|---|---|
| f(x) | 3 | 0 | −1 | 0 | 3 |
A tabela evidencia a simetria em torno de x = 2.
7.3 Intervalos de crescimento e decrescimento
O vértice divide o domínio em dois intervalos.
| x < xᵥ | x > xᵥ | |
|---|---|---|
| a > 0 | decrescente | crescente |
| a < 0 | crescente | decrescente |
Exemplo: f(x) = x² − 4x + 3, com xᵥ = 2 e a > 0.
- Decrescente para x < 2.
- Crescente para x > 2.
8. Estudo do sinal
O estudo do sinal determina os intervalos em que f(x) é positiva, negativa ou nula. Ele é a base das inequações do 2º grau, tratadas no bloco 7.
Quando Δ > 0, com raízes x₁ < x₂:
| x < x₁ | x₁ < x < x₂ | x > x₂ | |
|---|---|---|---|
| a > 0 | positiva | negativa | positiva |
| a < 0 | negativa | positiva | negativa |
Regra prática: fora das raízes, a função tem o mesmo sinal de a. Entre as raízes, tem o sinal contrário ao de a.
Quando Δ = 0: a função tem o sinal de a em todos os pontos, exceto na raiz, onde é nula.
Quando Δ < 0: a função tem o sinal de a em todos os pontos.
Exemplo: f(x) = −x² + 6x − 5, com raízes 1 e 5 e a < 0.
- f(x) > 0 para 1 < x < 5.
- f(x) < 0 para x < 1 ou x > 5.
- f(x) = 0 para x = 1 ou x = 5.
9. Problemas de máximo e mínimo
9.1 O princípio
Distinção fundamental:
- xᵥ responde onde, ou para qual valor da variável, o extremo ocorre;
- yᵥ responde qual é o valor máximo ou mínimo.
O ENEM pergunta, às vezes, um e, às vezes, o outro. Releia sempre a pergunta.
Roteiro:
- Escreva a grandeza a ser otimizada como função de uma única variável.
- Verifique a concavidade para saber se o vértice é máximo ou mínimo.
- Calcule o vértice.
- Verifique se o valor encontrado é compatível com o contexto (positivo, dentro dos limites do problema).
- Responda o que foi perguntado: xᵥ, yᵥ ou alguma grandeza derivada deles.
9.2 Área máxima: cercado com quatro lados de tela
Com 100 m de tela, qual é o retângulo de maior área?
- Os lados são x e 50 − x, porque o semiperímetro é 50.
- A(x) = x(50 − x) = −x² + 50x.
- xᵥ = 25. O outro lado é 50 − 25 = 25.
- O retângulo de área máxima é um quadrado de 25 m × 25 m, com área de 625 m².
9.3 Área máxima: cercado junto a um muro
Com 60 m de tela, deseja-se cercar uma área retangular aproveitando um muro como um dos lados. Qual é a maior área possível?
- Sejam x os dois lados perpendiculares ao muro e y o lado paralelo a ele. A tela cobre 2x + y = 60, logo y = 60 − 2x.
- A(x) = x(60 − 2x) = −2x² + 60x.
- xᵥ = −60 ÷ (−4) = 15 m. Então y = 30 m.
- A área máxima é 15 × 30 = 450 m².
Neste caso, o retângulo ótimo não é um quadrado: o lado paralelo ao muro tem o dobro do outro. Supor que a resposta é sempre um quadrado é um erro comum.
9.4 Receita máxima
Um teatro cobra R$ 40,00 por ingresso e vende 300 ingressos por sessão. Uma pesquisa indica que cada R$ 1,00 de desconto aumenta as vendas em 10 ingressos. Qual preço maximiza a receita?
- Seja d o desconto, em reais. O preço é 40 − d, e são vendidos 300 + 10d ingressos.
- R(d) = (40 − d)(300 + 10d) = −10d² + 100d + 12.000.
- dᵥ = −100 ÷ (−20) = 5.
- O preço ótimo é R$ 35,00. São vendidos 350 ingressos, e a receita máxima é 35 × 350 = R$ 12.250,00.
Sem desconto, a receita seria 40 × 300 = R$ 12.000,00. O desconto aumenta a receita até certo ponto. A partir dele, o aumento nas vendas não compensa mais a redução no preço.
9.5 Altura máxima de um projétil
A altura de uma bola é h(t) = −5t² + 30t, em metros, com t em segundos.
- A altura máxima ocorre em tᵥ = −30 ÷ (−10) = 3 s.
- A altura máxima é h(3) = −45 + 90 = 45 m.
- A bola volta ao solo quando h(t) = 0, ou seja, em t = 0 ou t = 6 s.
O instante da altura máxima é exatamente a metade do tempo de voo, por causa da simetria da parábola.
9.6 Lucro máximo e custo mínimo
Lucro. Para L(x) = −x² + 40x − 300:
- xᵥ = 20;
- L(20) = −400 + 800 − 300 = 100.
Custo. Para C(x) = x² − 80x + 2.000, em que a > 0:
- o custo mínimo ocorre em xᵥ = 40;
- C(40) = 1.600 − 3.200 + 2.000 = 400.
10. Interação entre funções do 1º e do 2º grau
10.1 Interseção de reta e parábola
Para encontrar os pontos comuns entre uma reta y = mx + n e uma parábola y = ax² + bx + c, igualam-se as duas expressões. O resultado é uma equação do 2º grau. O discriminante dessa equação indica a posição relativa:
| Δ da equação resultante | Posição da reta | Pontos comuns |
|---|---|---|
| Δ > 0 | secante | dois |
| Δ = 0 | tangente | um |
| Δ < 0 | exterior | nenhum |
10.2 Exemplos
Secante. Para y = x² e y = x + 2:
x² = x + 2
x² − x − 2 = 0
x = 2 ou x = −1
Os pontos são (2, 4) e (−1, 1).
Tangente. Para y = x² e y = 2x − 1:
x² − 2x + 1 = 0
Δ = 0, raiz dupla x = 1
A reta tangencia a parábola no ponto (1, 1).
Condição de tangência. Para que valor positivo de k a reta y = kx é tangente à parábola y = x² + 3?
- x² + 3 = kx leva a x² − kx + 3 = 0.
- Para tangência, Δ = k² − 12 = 0, logo k = 2√3.
10.3 Receita quadrática e custo linear
Uma empresa tem receita R(x) = −x² + 80x e custo C(x) = 20x + 500, em reais, em que x é a quantidade produzida.
O lucro é a diferença entre as duas funções:
L(x) = R(x) − C(x) = −x² + 60x − 500
Os pontos de equilíbrio são as interseções entre a reta do custo e a parábola da receita, ou seja, as raízes do lucro:
- Δ = 3.600 − 2.000 = 1.600;
- x = (60 ± 40) ÷ 2, ou seja, x = 10 ou x = 50.
O intervalo de lucro: há lucro positivo para 10 < x < 50, onde a parábola da receita está acima da reta do custo.
O lucro máximo ocorre em xᵥ = 30:
L(30) = −900 + 1.800 − 500 = R$ 400
Atenção: a receita máxima ocorre em x = 40, e não em x = 30. Maximizar a receita é diferente de maximizar o lucro. Esse é um dos distratores mais usados em itens desse tipo.
11. Distinções importantes
| Conceito | Não confundir com | Diferença |
|---|---|---|
| xᵥ | yᵥ | xᵥ é onde o extremo ocorre; yᵥ é o valor do extremo |
| a > 0 (mínimo) | a < 0 (máximo) | A concavidade define o tipo de extremo |
| Coeficiente c | Raízes | c é o corte no eixo y; as raízes são os cortes no eixo x |
| Δ = 0 | Δ < 0 | Δ = 0: a parábola tangencia o eixo x; Δ < 0: não o toca |
| Forma fatorada | Forma canônica | A fatorada mostra as raízes; a canônica, o vértice |
| Máximo da receita | Máximo do lucro | O lucro considera os custos; os pontos de máximo diferem |
| Retângulo de área máxima com 4 lados de tela | Retângulo com muro | Só no primeiro caso a resposta é um quadrado |
| Secante | Tangente | Secante: dois pontos comuns; tangente: um |
| Diferenças constantes | Segundas diferenças constantes | A primeira indica função afim; a segunda, quadrática |
12. Erros recorrentes e como evitá-los
Responder xᵥ quando se pede o valor máximo, ou o contrário. Controle: releia a pergunta. "Qual a altura máxima" pede yᵥ; "em que instante" pede xᵥ.
Errar o sinal de −b/2a. Controle: escreva os valores de a e b com sinal antes de substituir.
Identificar mal os coeficientes quando a lei está fora de ordem. Por exemplo, em f(x) = 3 − 2x², tomar a = 3. Controle: ordene os termos antes.
Supor que o retângulo de área máxima é sempre um quadrado. Controle: monte a função área de acordo com as condições do problema.
Maximizar a receita em vez do lucro. Controle: verifique qual grandeza o enunciado pede para otimizar e se há custos envolvidos.
Ler errado o sinal de b no gráfico. Controle: use a posição do vértice. Vértice à direita do eixo y significa a e b com sinais opostos.
Desconsiderar o contexto. Aceitar valores negativos de tempo, quantidade ou comprimento. Controle: verifique se a resposta é compatível com o problema.
Verificação geral. Confira o vértice por dois caminhos (−b/2a e média das raízes) e confira yᵥ calculando f(xᵥ).
13. Questões comentadas (autorais, padrão ENEM)
Questão 1 (H20, nível médio)
O gráfico de uma função f(x) = ax² + bx + c é uma parábola com concavidade voltada para cima, que corta o eixo y abaixo da origem e tem vértice à esquerda do eixo y. Sobre os sinais dos coeficientes, é correto afirmar que:
A) a > 0, b > 0 e c < 0
B) a > 0, b < 0 e c < 0
C) a < 0, b > 0 e c < 0
D) a > 0, b > 0 e c > 0
E) a < 0, b < 0 e c > 0
Gabarito: A
Resolução.
- Concavidade para cima: a > 0.
- Corte abaixo da origem: c < 0.
- Vértice à esquerda: xᵥ = −b/2a < 0. Como a > 0, isso exige b > 0.
Análise dos distratores.
- B: erra o sinal de b, supondo que um vértice à esquerda indica b negativo.
- C e E: erram a concavidade.
- D: erra o sinal de c.
Questão 2 (H21, nível fácil)
A altura h, em metros, de um projétil lançado verticalmente para cima é dada por h(t) = −5t² + 40t, com t em segundos. A altura máxima atingida pelo projétil é:
A) 4 m
B) 40 m
C) 80 m
D) 160 m
E) 320 m
Gabarito: C
Resolução.
- tᵥ = −40 ÷ (−10) = 4 s.
- h(4) = −80 + 160 = 80 m.
Análise dos distratores.
- A: dá o instante da altura máxima (xᵥ), e não a altura.
- D: calcula apenas o termo 40t em t = 4, ignorando o termo quadrático.
Questão 3 (H21, nível médio)
Um agricultor dispõe de 80 m de tela para cercar uma horta retangular. Um dos lados da horta será o muro da propriedade, que não precisa de tela. A maior área que a horta pode ter é:
A) 400 m²
B) 600 m²
C) 800 m²
D) 1.600 m²
E) 3.200 m²
Gabarito: C
Resolução.
- Com x os lados perpendiculares ao muro, o lado paralelo mede 80 − 2x.
- A(x) = x(80 − 2x) = −2x² + 80x.
- xᵥ = 20 m, e o lado paralelo mede 40 m.
- A área máxima é 20 × 40 = 800 m².
Análise dos distratores.
- A: considera 80 m de tela para os quatro lados e supõe um quadrado de 20 m.
- D: monta a área como x(80 − x), esquecendo que são dois lados perpendiculares ao muro.
Questão 4 (H21, nível médio)
Uma empresa de turismo cobra R$ 60,00 por passageiro em um passeio e tem, em média, 40 passageiros. Uma pesquisa indicou que cada redução de R$ 2,00 no preço atrai 4 passageiros a mais. Para maximizar a receita, o preço cobrado por passageiro deve ser:
A) R$ 20,00
B) R$ 30,00
C) R$ 40,00
D) R$ 50,00
E) R$ 60,00
Gabarito: C
Resolução.
- Seja d o número de reduções de R$ 2,00. O preço é 60 − 2d, e o número de passageiros é 40 + 4d.
- R(d) = (60 − 2d)(40 + 4d) = −8d² + 160d + 2.400.
- dᵥ = −160 ÷ (−16) = 10.
- O preço ótimo é 60 − 20 = R$ 40,00, com 80 passageiros e receita de R$ 3.200,00.
Análise dos distratores. A alternativa E corresponde a não dar desconto, o que dá receita de apenas R$ 2.400,00. As demais resultam de erros no cálculo do vértice ou na conversão do número de reduções em preço.
Questão 5 (H19, nível médio)
Uma parábola tem raízes −1 e 3 e passa pelo ponto (1, 8). A lei da função correspondente é:
A) f(x) = x² − 2x − 3
B) f(x) = −x² + 2x + 3
C) f(x) = −2x² + 4x + 6
D) f(x) = 2x² − 4x − 6
E) f(x) = −2x² − 4x + 6
Gabarito: C
Resolução.
- Pela forma fatorada, f(x) = a(x + 1)(x − 3).
- f(1) = a · 2 · (−2) = −4a = 8, logo a = −2.
- f(x) = −2(x² − 2x − 3) = −2x² + 4x + 6.
Análise dos distratores.
- A: supõe a = 1, sem usar o ponto dado.
- B: usa a = −1. A função tem as raízes certas, mas passa por (1, 4), e não por (1, 8).
- D: erra o sinal de a.
- E: erra o sinal de b no desenvolvimento.
Questão 6 (H21, nível difícil)
Para que valor positivo de k a reta y = kx é tangente à parábola y = x² + 4?
A) 1
B) 2
C) 4
D) 8
E) 16
Gabarito: C
Resolução.
- Igualando: x² + 4 = kx, ou seja, x² − kx + 4 = 0.
- Para que a reta seja tangente, a equação deve ter uma única raiz: Δ = k² − 16 = 0.
- Logo, k = 4 (o valor positivo).
Análise dos distratores.
- E: dá o valor de k², e não de k.
- B: é a raiz de 4, confundida com a solução.
Questão 7 (H23, nível difícil)
Uma empresa tem receita R(x) = −x² + 80x e custo C(x) = 20x + 500, em reais, em que x é o número de unidades produzidas e vendidas. A quantidade que maximiza o lucro e o lucro máximo são, respectivamente:
A) 30 unidades e R$ 400,00
B) 40 unidades e R$ 1.600,00
C) 40 unidades e R$ 300,00
D) 10 unidades e R$ 0,00
E) 50 unidades e R$ 0,00
Gabarito: A
Resolução.
- L(x) = R(x) − C(x) = −x² + 60x − 500.
- xᵥ = 30.
- L(30) = −900 + 1.800 − 500 = R$ 400,00.
Análise dos distratores.
- B: dá o ponto de receita máxima e o valor da receita máxima.
- C: usa a quantidade que maximiza a receita e calcula o lucro nela, que não é o máximo.
- D e E: são os pontos de equilíbrio, onde o lucro é zero.
14. Perguntas frequentes
Como saber se a parábola tem ponto de máximo ou de mínimo?
Pelo sinal de a. Se a > 0, a concavidade é para cima, e o vértice é ponto de mínimo. Se a < 0, é ponto de máximo.
O que o coeficiente c indica no gráfico?
O ponto em que a parábola corta o eixo y: (0, c).
Como descobrir o sinal de b olhando o gráfico?
Pela posição do vértice. Se o vértice está à direita do eixo y, a e b têm sinais opostos. Se está à esquerda, têm o mesmo sinal.
Por que xᵥ = −b/2a?
Porque a parábola é simétrica, e os pontos de abscissas 0 e −b/a têm a mesma altura. O vértice está no ponto médio entre eles.
Se eu conheço as raízes, como encontro o vértice rapidamente?
xᵥ é a média aritmética das raízes. Depois, calcule f(xᵥ).
Qual a diferença entre xᵥ e yᵥ em um problema?
xᵥ indica quando ou para qual quantidade o máximo ou mínimo ocorre. yᵥ indica qual é esse valor máximo ou mínimo.
O retângulo de área máxima é sempre um quadrado?
Apenas quando os quatro lados são feitos com o material disponível. Com um muro como um dos lados, o lado paralelo ao muro é o dobro do outro.
Como saber se uma reta corta, tangencia ou não toca uma parábola?
Iguale as duas equações e calcule o Δ da equação resultante. Se Δ > 0, a reta corta a parábola em dois pontos; se Δ = 0, é tangente; se Δ < 0, não a toca.
O ponto de receita máxima é o mesmo de lucro máximo?
Em geral, não. O lucro desconta os custos, e o ponto de máximo se desloca.
16. Síntese
A função quadrática f(x) = ax² + bx + c, com a ≠ 0, surge do produto de grandezas que variam linearmente: áreas, receitas, trajetórias. Seu gráfico é uma parábola. Em uma tabela com x igualmente espaçado, as segundas diferenças são constantes.
Cada coeficiente tem significado geométrico:
- a define a concavidade (para cima se positivo, para baixo se negativo) e a abertura;
- c é o corte no eixo y;
- b, combinado com a, define a posição do vértice em relação ao eixo y.
As raízes são os cortes no eixo x, e o discriminante indica quantos existem. As relações de Girard dão a soma (−b/a) e o produto (c/a) das raízes.
A função pode ser escrita em três formas:
- geral, que mostra a concavidade e o corte no eixo y;
- fatorada, que mostra as raízes;
- canônica, que mostra o vértice.
O vértice, de abscissa −b/2a, está no eixo de simetria e no ponto médio entre as raízes. É o ponto de mínimo quando a > 0 e o de máximo quando a < 0. Nos problemas de otimização, xᵥ indica onde o extremo ocorre, e yᵥ, o valor do extremo.
O estudo do sinal segue a regra: fora das raízes, sinal de a; entre elas, sinal contrário. A interseção entre reta e parábola se obtém igualando as funções, e o discriminante da equação resultante classifica a reta como secante, tangente ou exterior. Em problemas econômicos, o lucro é a diferença entre receita e custo, e seu máximo não coincide, em geral, com o da receita.
| Situação | Ferramenta |
|---|---|
| Concavidade | sinal de a |
| Corte no eixo y | (0, c) |
| Raízes | Bhaskara ou soma e produto |
| Número de raízes | sinal de Δ |
| Abscissa do vértice | −b/2a ou média das raízes |
| Ordenada do vértice | f(xᵥ) ou −Δ/4a |
| Lei a partir das raízes | a(x − x₁)(x − x₂) |
| Lei a partir do vértice | a(x − xᵥ)² + yᵥ |
| Máximo ou mínimo | vértice |
| Sinal da função | fora das raízes, sinal de a |
| Reta e parábola | igualar e analisar Δ |
| Identificar quadrática em tabela | segundas diferenças constantes |
17. Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Função quadrática | Função da forma f(x) = ax² + bx + c, com a ≠ 0 |
| Parábola | Curva que representa o gráfico de uma função quadrática |
| Concavidade | Orientação da abertura da parábola, para cima ou para baixo |
| Raiz (zero) | Valor de x para o qual f(x) = 0 |
| Discriminante (Δ) | b² − 4ac; determina o número de raízes reais |
| Relações de Girard | Soma (−b/a) e produto (c/a) das raízes |
| Vértice | Ponto de máximo ou de mínimo da parábola |
| Eixo de simetria | Reta vertical x = xᵥ que divide a parábola em duas partes simétricas |
| Forma fatorada | f(x) = a(x − x₁)(x − x₂) |
| Forma canônica | f(x) = a(x − xᵥ)² + yᵥ |
| Imagem | Conjunto dos valores assumidos por f(x) |
| Estudo do sinal | Determinação dos intervalos em que a função é positiva, negativa ou nula |
| Reta secante | Reta que corta a parábola em dois pontos |
| Reta tangente | Reta que toca a parábola em um único ponto |
| Ponto de equilíbrio | Quantidade em que a receita iguala o custo |
15. Exercícios de fixação resolvidos
Tente resolver antes de conferir a resposta.
Exercício 1
AutoralIdentifique os coeficientes de f(x) = 5 − 3x² + 2x.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
Ordenando: f(x) = −3x² + 2x + 5. Então a = −3, b = 2 e c = 5.
Exercício 2
AutoralCalcule f(−2) para f(x) = x² − 3x + 2.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
4 + 6 + 2 = 12.
Exercício 3
AutoralEncontre as raízes de f(x) = x² − 9x + 14.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
Soma 9 e produto 14: x = 2 ou x = 7.
Exercício 4
AutoralEncontre o vértice de f(x) = x² − 10x + 21.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
xᵥ = 5, f(5) = 25 − 50 + 21 = −4. V(5, −4).
Exercício 5
AutoralDetermine a imagem de f(x) = −2x² + 8x − 3.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
xᵥ = 2, f(2) = −8 + 16 − 3 = 5. Como a < 0, Im = ]−∞, 5].
Exercício 6
AutoralEscreva f(x) = x² + 4x + 1 na forma canônica.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
x² + 4x + 1 = (x + 2)² − 4 + 1 = (x + 2)² − 3. O vértice é (−2, −3).
Exercício 7
AutoralEncontre a função quadrática com raízes 2 e 4 que corta o eixo y no ponto (0, 16).
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
f(x) = a(x − 2)(x − 4). f(0) = 8a = 16, logo a = 2. f(x) = 2x² − 12x + 16.
Exercício 8
AutoralEm que intervalo f(x) = −x² + 6x é crescente?
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
xᵥ = 3 e a < 0. A função é crescente para x < 3.
Exercício 9
AutoralDois números têm soma 20. Qual é o maior produto possível entre eles?
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
P(x) = x(20 − x) = −x² + 20x. O máximo ocorre em x = 10. O produto máximo é 100.
Exercício 10
AutoralEncontre os pontos de interseção entre y = x² − 2x e y = x.
Ver respostaOcultar resposta
Resposta
x² − 2x = x leva a x² − 3x = 0, ou seja, x = 0 ou x = 3. Os pontos são (0, 0) e (3, 3).
Referências
- Brasil. INEP. Matriz de Referência do ENEM. Matemática e suas Tecnologias: competências de área e habilidades.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Matemática e suas Tecnologias no Ensino Médio.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Lima, E. L.; Carvalho, P. C. P.; Wagner, E.; Morgado, A. C. A Matemática do Ensino Médio. Rio de Janeiro: SBM (Coleção do Professor de Matemática).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Iezzi, G. et al. Fundamentos de Matemática Elementar, v. 1: Conjuntos e Funções. São Paulo: Atual.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Figuras da Biblioteca ASSAAD
Ilustrações e diagramas integrantes do material fornecido.



