Quem diz "estou morrendo de fome" não está morrendo. Quem diz que "o Planalto vetou a lei" sabe que um palácio não assina documentos. E ninguém estranha que uma mesa tenha "pés" ou que uma voz seja "doce". Todos os dias, falantes de qualquer idade e escolaridade usam a língua de forma figurada: afastam as palavras de seu sentido mais literal para expressar ideias com mais força, precisão, beleza ou humor.
As figuras de linguagem são esses recursos expressivos. Elas não pertencem apenas à poesia: aparecem na conversa, na publicidade, nas manchetes, nas charges e nos memes, e interpretá-las é uma habilidade central na leitura de qualquer texto. Este artigo parte da distinção entre sentido literal e sentido figurado e apresenta as figuras em quatro grupos: de palavra, que alteram o sentido de uma palavra ou expressão; de pensamento, que trabalham a relação entre as ideias; de sintaxe, que alteram a construção da frase; e de som, que exploram a sonoridade. Para cada figura, o foco não é só identificar o nome, mas explicar o efeito de sentido que ela produz no texto.
1. Linguagem literal e linguagem figurada
1.1 Denotação e conotação
Denotação é o sentido literal, objetivo, o primeiro sentido registrado no dicionário: em "O leão rugiu na jaula", leão designa o animal. Conotação é o sentido figurado, que depende do contexto e acrescenta valores, associações e emoções: em "Na defesa, o zagueiro foi um leão", leão significa coragem, força, bravura.
| Frase | Sentido de "pesado" |
|---|---|
| A mala está pesada. | Literal: tem muito peso |
| O ambiente da reunião ficou pesado. | Figurado: tenso, desconfortável |
| Ele tem o sono pesado. | Figurado: profundo, difícil de interromper |
1.2 O que são figuras de linguagem
As figuras de linguagem são recursos que exploram a língua de forma não literal, ou fora do padrão habitual, para produzir efeitos de sentido: ênfase, emoção, humor, crítica, beleza, surpresa, persuasão.
1.3 Os quatro grupos de figuras
| Grupo | O que é alterado | Figuras estudadas |
|---|---|---|
| De palavra | O sentido de uma palavra ou expressão | Metáfora, comparação, metonímia, catacrese, sinestesia, antonomásia |
| De pensamento | A relação entre as ideias | Antítese, paradoxo, ironia, eufemismo, hipérbole, prosopopeia, gradação |
| De sintaxe (de construção) | A estrutura da frase | Elipse, zeugma, pleonasmo, polissíndeto, assíndeto, anáfora, hipérbato, anacoluto |
| De som (de harmonia) | A sonoridade | Aliteração, assonância, onomatopeia, paronomásia |
2. Figuras de palavra
2.1 Metáfora
A metáfora atribui a um ser ou a uma ideia características de outro, com base em uma semelhança, sem usar conectivo de comparação. É uma comparação implícita: "Aquele professor é uma enciclopédia" (sabe muito, como uma enciclopédia); "Minha cabeça é um vulcão" (está agitada, prestes a "explodir"). Em Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, os olhos de Capitu são chamados de "olhos de ressaca": como a ressaca do mar, eles atraem e arrastam quem os olha.
O efeito da metáfora é condensar em poucas palavras uma relação complexa e obrigar o leitor a reconstruir a semelhança. Por isso ela costuma ser mais intensa que a comparação.
2.2 Comparação (símile)
A comparação, ou símile, aproxima dois elementos por meio de um conectivo explícito: como, tal qual, assim como, feito, que nem, parece. "Ele é forte como um touro." "A menina corria feito o vento." "Seus olhos brilhavam tal qual estrelas."
2.3 Metonímia
A metonímia substitui um termo por outro com o qual mantém uma relação de proximidade ou contiguidade, e não de semelhança.
| Relação | Exemplo | Sentido |
|---|---|---|
| Autor pela obra | "Estou lendo Machado de Assis." | Um livro de Machado |
| Continente pelo conteúdo | "Bebeu dois copos de água." | O conteúdo dos copos |
| Lugar pela instituição | "O Planalto vetou o projeto." | A Presidência da República |
| Marca pelo produto | "Comprei uma caixa de gilete." | Lâminas de barbear |
| Matéria pelo objeto | "Os cristais tilintavam na mesa." | Taças de cristal |
| Parte pelo todo (sinédoque) | "A família não tinha um teto." | Uma casa |
| Causa pelo efeito | "Vive do suor do rosto." | Do trabalho |
| Símbolo pelo que ele representa | "A coroa ordenou a medida." | O rei, a monarquia |
2.4 Catacrese
A catacrese é uma metáfora cristalizada pelo uso: foi criada para nomear algo que não tinha nome próprio e hoje é usada sem que se perceba o sentido figurado. São exemplos pé da mesa, braço da cadeira, asa da xícara, dente de alho, céu da boca, cabeça de alfinete e embarcar no ônibus: embarcar vinha de barco, e o verbo passou a valer para qualquer veículo. A catacrese preenche uma lacuna do vocabulário e já não produz efeito expressivo de surpresa, porque o falante não percebe mais a imagem.
2.5 Sinestesia
A sinestesia mistura, em uma mesma expressão, sensações percebidas por sentidos diferentes: "uma voz doce" (audição e paladar), "um olhar frio" (visão e tato), "um som áspero" (audição e tato), "cores quentes" (visão e tato). A sinestesia intensifica a descrição e comunica uma impressão global. Foi muito explorada pelos poetas simbolistas, no fim do século XIX, que buscavam sugerir sensações em vez de descrevê-las objetivamente.
2.6 Antonomásia
A antonomásia substitui o nome de uma pessoa, de um lugar ou de um ser por uma característica, um título ou um apelido pelo qual é conhecido.
| Antonomásia | Referente |
|---|---|
| O Rei do Futebol | Pelé |
| O Poeta dos Escravos | Castro Alves |
| A Águia de Haia | Rui Barbosa |
| O Bruxo do Cosme Velho | Machado de Assis |
| A Cidade Maravilhosa | Rio de Janeiro |
| A Terra da Garoa | São Paulo |
A antonomásia destaca uma qualidade e exige do leitor um conhecimento compartilhado: quem não sabe quem é "a Águia de Haia" não entende a referência. Também é usada para evitar a repetição do nome.
3. Figuras de pensamento
3.1 Antítese
A antítese aproxima palavras ou ideias de sentidos opostos, para realçar o contraste: "Uns choram, outros riem." Em um soneto de Gregório de Matos, poeta baiano do século XVII, lê-se: "Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, / Depois da Luz se segue a noite escura". A oposição entre luz e noite escura expressa a instabilidade dos bens do mundo. A antítese não cria contradição lógica: os termos opostos se referem a coisas diferentes, ou a momentos diferentes, e o efeito é de contraste e ênfase.
3.2 Paradoxo (oxímoro)
O paradoxo une ideias opostas que parecem se contradizer, porque se referem ao mesmo ser, ao mesmo tempo. A contradição é aparente e revela um sentido mais profundo. Em um soneto de Luís de Camões (século XVI): "Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói, e não se sente; / É um contentamento descontente; / É dor que desatina sem doer." No soneto, o amor é, ao mesmo tempo, dor e ausência de dor, contentamento e descontentamento. O poema não é ilógico: expressa a experiência contraditória do sentimento amoroso.
3.3 Ironia
A ironia consiste em dizer o contrário do que se pensa, ou algo diferente do que se quer dar a entender, para criticar, zombar ou produzir humor, e depende do contexto, do tom de voz ou de marcas no texto. Diante de um trabalho malfeito: "Que capricho, hein!" Na dedicatória das Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, o narrador, já morto, oferece o livro ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver, como saudosa lembrança. A ternura da fórmula de dedicatória contrasta com o destinatário, e o efeito é de humor e de crítica às convenções sentimentais.
3.4 Eufemismo
O eufemismo suaviza uma ideia desagradável, dolorosa ou chocante, substituindo-a por uma expressão mais branda: "Ele partiu desta para melhor", no lugar de "morreu"; "O deputado faltou com a verdade", no lugar de "mentiu"; "A empresa fez um ajuste no quadro de funcionários", no lugar de "demitiu". O eufemismo pode ter função de delicadeza, como no respeito a quem perdeu alguém, ou de ocultação: em textos políticos e empresariais, pode disfarçar a gravidade de um fato, e o leitor crítico deve perceber essa função.
3.5 Hipérbole
A hipérbole exagera intencionalmente uma ideia, para dar ênfase: "Estou morrendo de fome", "Já te disse isso mil vezes", "Chorou rios de lágrimas". A hipérbole não pretende ser interpretada ao pé da letra, e o leitor reconhece o exagero. É muito comum na fala cotidiana, na publicidade e no humor.
3.6 Prosopopeia (personificação)
A prosopopeia, ou personificação, atribui características humanas, como ações, sentimentos e fala, a seres inanimados, animais ou ideias: "O vento sussurrava segredos às árvores"; "A cidade acordou assustada". Em "O navio negreiro" (1869), de Castro Alves, a bandeira do Brasil é o "auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança". A brisa beija como uma pessoa, e o gesto afetuoso contrasta com a denúncia do poema: a bandeira nacional cobria um navio de tráfico de escravizados. A prosopopeia torna a descrição mais viva, e nas fábulas, em que os animais falam e agem como pessoas, é o recurso central.
3.7 Gradação
A gradação apresenta uma sequência de palavras ou ideias em ordem crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax) de intensidade. Crescente: "Primeiro um sussurro, depois uma queixa, por fim um grito." Decrescente: "Tinha uma fortuna, depois uma casa, depois um quarto, depois nada." A gradação conduz o leitor passo a passo e reforça a progressão, como a intensificação de um sentimento ou o declínio de uma situação.
4. Figuras de sintaxe
4.1 Elipse
A elipse é a omissão de um termo que o leitor consegue recuperar pelo contexto ou pela estrutura da frase, embora ele não tenha aparecido antes: "Na sala, apenas duas cadeiras e uma mesa" (omite-se havia); "Chegamos cedo" (omite-se o sujeito nós, recuperável pela terminação do verbo). O efeito é de concisão, e em descrições a elipse do verbo produz um ritmo rápido, como uma sucessão de imagens.
4.2 Zeugma
O zeugma é um tipo de elipse em que se omite um termo já mencionado anteriormente: "Eu prefiro café; ela, chá" (omite-se prefere); "Ele estudava Direito; a irmã, Medicina."
4.3 Pleonasmo
O pleonasmo é a repetição de uma ideia já expressa, isto é, uma redundância. O pleonasmo literário (expressivo) é usado intencionalmente para reforçar a ideia: em "Eu vi com meus próprios olhos", a redundância enfatiza a certeza de quem viu. O pleonasmo vicioso é uma redundância sem valor expressivo, considerada um desvio na norma-padrão: "subir para cima", "elo de ligação", "há dez anos atrás", "surpresa inesperada".
4.4 Polissíndeto
O polissíndeto é a repetição de conjunções, geralmente e ou nem, entre os termos de uma sequência: "E corre, e salta, e grita, e ri"; "Não quis comer, nem dormir, nem falar com ninguém". O efeito é de acúmulo, de movimento contínuo ou de insistência, como se as ações não parassem.
4.5 Assíndeto
O assíndeto é a ausência de conjunções entre termos ou orações que poderiam estar ligados por elas: "Vim, vi, venci", tradução da frase latina veni, vidi, vici, atribuída a Júlio César; "Chegou, olhou, saiu". O efeito é de rapidez, concisão e sucessão ágil das ações.
4.6 Anáfora
A anáfora é a repetição de uma palavra ou expressão no início de frases, versos ou orações sucessivas. No soneto de Camões citado na seção 3.2, os versos começam repetidamente com "É". Na "Canção do exílio" (1843), de Gonçalves Dias, a expressão "Minha terra tem" se repete no início de várias estrofes, reforçando a saudade da pátria. A anáfora produz ênfase, ritmo e coesão, e é muito usada em discursos políticos e em textos publicitários.
4.7 Hipérbato (inversão)
O hipérbato, ou inversão, é a alteração da ordem direta dos termos da oração, que costuma seguir a sequência sujeito, verbo e complementos.
O hipérbato é frequente na poesia e em textos solenes. Uma inversão muito acentuada pode dificultar a compreensão, e por isso é útil reconstruir a ordem direta ao interpretar.
4.8 Anacoluto
O anacoluto é uma quebra na estrutura sintática da frase: um termo é apresentado no início e fica "solto", sem função sintática na oração que vem depois. "Eu, parece que ninguém me escuta nesta casa" (o pronome eu não é sujeito de parece); "Essa rua, os ônibus nunca passam no horário". O anacoluto é típico da fala espontânea e reproduz o fluxo do pensamento; na literatura, dá naturalidade à fala de personagens ou expressa emoção e hesitação.
5. Figuras de som
5.1 Aliteração
A aliteração é a repetição de sons consonantais, geralmente no início ou no interior de palavras próximas.
Outro exemplo é o trava-língua "O rato roeu a roupa do rei de Roma", em que a repetição do r cria dificuldade e humor.
5.2 Assonância
A assonância é a repetição de sons vocálicos: "A lua nua flutua na rua" (repetição do u). A assonância cria musicalidade e pode sugerir estados de espírito. Vogais fechadas, como u e o, costumam ser associadas a sons graves e a tristeza, e vogais abertas, como a, a claridade e amplitude; são associações de efeito, e não regras fixas.
5.3 Onomatopeia
A onomatopeia é a palavra que imita um som ou um ruído: "tique-taque" (relógio), "bum" (explosão), "toc-toc" (batida na porta), "au-au" (cachorro), "cocoricó" (galo), e verbos como zumbir, tilintar, sussurrar e cochichar. É muito comum em histórias em quadrinhos, em textos infantis e na linguagem oral, e varia de língua para língua: o galo faz "cocoricó" em português e cock-a-doodle-doo em inglês.
5.4 Paronomásia
A paronomásia aproxima palavras de sons semelhantes e sentidos diferentes, criando um jogo sonoro e semântico, o trocadilho: "Quem casa quer casa" (o verbo casar e o substantivo casa); "Conhecer para reconhecer"; "Tradutor, traidor", adaptação da expressão italiana traduttore, traditore, que sugere que toda tradução trai, de algum modo, o original. A paronomásia é muito usada em slogans, títulos, manchetes e humor, porque é fácil de memorizar e provoca surpresa.
6. Como identificar e interpretar
Várias figuras no mesmo trecho. Em "Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança", de Castro Alves, há prosopopeia (a brisa "beija"), aliteração do som b (brisa, Brasil, beija, balança) e a própria expressão "auriverde pendão", que nomeia a bandeira por suas cores e pelo tipo de objeto. Em provas, a pergunta costuma pedir a figura predominante ou a que produz determinado efeito, e por isso é importante ler o enunciado com atenção.
| Gênero | Figuras frequentes | Função |
|---|---|---|
| Publicidade | Hipérbole, paronomásia, metáfora, anáfora | Persuadir, fixar o nome do produto, destacar qualidades |
| Charge e humor | Ironia, hipérbole, antítese | Criticar, provocar riso e reflexão |
| Jornalismo | Metonímia ("o Planalto", "Brasília"), metáfora, eufemismo | Concisão, impacto nas manchetes, às vezes suavização de fatos |
| Discurso político | Anáfora, gradação, antítese, eufemismo | Mobilizar, criar ritmo, reforçar ideias, atenuar temas incômodos |
| Fala cotidiana | Hipérbole, catacrese, metáfora, anacoluto | Expressividade e espontaneidade |
7. Exemplos resolvidos
8. Erros conceituais frequentes
| Erro | Por que está errado | Forma correta |
|---|---|---|
| Todo "como" indica comparação figurada | Pode ser uma comparação literal | A figura exige aproximação expressiva entre elementos diferentes |
| Metáfora e metonímia são a mesma coisa | Uma se baseia em semelhança; a outra, em proximidade | "Ela é uma rosa" × "Li Machado" |
| Catacrese é uma metáfora qualquer | É uma metáfora cristalizada, que nomeia algo sem nome próprio | "Pé da mesa" |
| Antítese e paradoxo são sinônimos | Só no paradoxo há contradição no mesmo referente | "Uns choram, outros riem" × "contentamento descontente" |
| Ironia é qualquer frase engraçada | Ironia é dizer o contrário do que se pensa | Depende do contexto |
| Eufemismo é sempre bom | Pode servir para ocultar fatos | Analisar a intenção |
| Todo pleonasmo é erro | O pleonasmo literário é expressivo | "Vi com meus próprios olhos" |
| Elipse e zeugma não têm relação | O zeugma é um tipo de elipse | O zeugma omite um termo já mencionado |
| Anáfora é qualquer repetição | É a repetição no início de frases ou versos | "É ferida… / É um… / É dor…" |
| Aliteração é repetição de letras | É repetição de sons consonantais | "Casa" e "cebola" não aliteram |
| Onomatopeia e aliteração são a mesma figura | Uma é uma palavra; a outra, uma repetição sonora | "Tique-taque" × "vozes veladas" |
| Basta dar o nome da figura | O essencial é explicar o efeito de sentido | Identificar e interpretar |
| Figuras de linguagem só existem na poesia | Estão na fala, na publicidade e no jornalismo | São recursos da língua em geral |
9. Distinções importantes
Denotação e conotação. A denotação é o sentido literal; a conotação é o sentido figurado, que depende do contexto.
Metáfora e comparação. Ambas se baseiam em semelhança. A comparação usa conectivo explícito; a metáfora funde os termos.
Metáfora e metonímia. A metáfora se baseia em semelhança; a metonímia, em proximidade real.
Metáfora e catacrese. A metáfora é criativa e percebida como figura; a catacrese é cristalizada e já não é percebida.
Antítese e paradoxo. A antítese contrasta opostos sem contradição; o paradoxo afirma opostos do mesmo referente, com contradição aparente.
Ironia e sarcasmo. O sarcasmo é uma ironia mais agressiva, com intenção de ferir.
Eufemismo e hipérbole. O eufemismo atenua; a hipérbole exagera.
Prosopopeia e metáfora. A prosopopeia atribui especificamente características humanas a seres não humanos; a metáfora pode aproximar quaisquer elementos por semelhança.
Elipse e zeugma. A elipse omite um termo não mencionado antes; o zeugma omite um termo já mencionado.
Pleonasmo literário e vicioso. O literário é uma redundância expressiva e intencional; o vicioso, uma redundância por descuido.
Polissíndeto e assíndeto. O polissíndeto repete conjunções; o assíndeto as omite.
Hipérbato e anacoluto. O hipérbato inverte a ordem, mas mantém as relações sintáticas; o anacoluto rompe a estrutura e deixa um termo sem função.
Aliteração e assonância. A aliteração repete consoantes; a assonância, vogais.
Paronomásia e homonímia. A homonímia é um fato da língua: palavras de mesma forma e sentidos diferentes, como manga. A paronomásia é o uso expressivo da semelhança sonora entre palavras.
10. Perguntas frequentes
Por que as figuras de linguagem são tão cobradas nas provas?
Porque avaliam a capacidade de interpretar: perceber que um texto diz mais do que suas palavras significam literalmente e reconhecer a intenção por trás das escolhas do autor. Nas provas de interpretação, raramente se pede apenas o nome da figura; o mais comum é pedir o efeito de sentido produzido por ela.
Toda catacrese já foi uma metáfora?
Em geral, sim. A catacrese é uma metáfora que, por necessidade de nomear algo, passou a ser usada normalmente, até que sua origem figurada deixou de ser percebida. Em "pé da mesa", a semelhança com o pé humano está na função de sustentar.
Qual a diferença entre ironia e mentira?
Na mentira, quem fala quer que o ouvinte acredite no que foi dito. Na ironia, quem fala quer que o ouvinte perceba que o sentido é outro. A ironia só funciona se for reconhecida.
Expressões como "chover canivetes" são figuras de linguagem?
São expressões idiomáticas, que se formaram a partir de figuras, geralmente metáforas ou hipérboles, e se fixaram no uso. Seu sentido não pode ser deduzido das palavras isoladas e precisa ser conhecido pelo falante.
Como saber se uma repetição é anáfora ou pleonasmo?
A anáfora repete uma palavra ou expressão no início de frases ou versos sucessivos. O pleonasmo repete uma ideia dentro da mesma expressão, como em "vi com meus olhos". Um atua na estrutura do texto; o outro, no sentido de uma expressão.
A onomatopeia é igual em todas as línguas?
Não. Embora imitem sons reais, as onomatopeias são adaptadas aos sons e à ortografia de cada língua: o latido do cachorro é "au-au" em português e woof em inglês.
Uma figura pode ser identificada sem o contexto?
Algumas sim, como a aliteração ou o polissíndeto, que dependem da forma. Outras, como a ironia e o eufemismo, só podem ser identificadas com certeza a partir do contexto: "Que dia lindo!" pode ser literal em um dia ensolarado e irônico em um dia de temporal.
12. Síntese
A linguagem pode ser denotativa, com sentido literal, ou conotativa, com sentido figurado dependente do contexto. As figuras de linguagem exploram a língua de forma não literal ou fora do padrão para produzir efeitos de sentido, e estão presentes na literatura, na fala cotidiana, na publicidade e no jornalismo.
As figuras de palavra alteram o sentido: a metáfora e a comparação aproximam elementos por semelhança, a primeira de forma implícita e a segunda com conectivo; a metonímia substitui termos ligados por proximidade; a catacrese é uma metáfora cristalizada; a sinestesia mistura sentidos; a antonomásia troca um nome por uma característica. As figuras de pensamento trabalham as ideias: a antítese contrasta opostos, e o paradoxo os afirma do mesmo referente; a ironia diz o contrário do que se pensa; o eufemismo atenua, e a hipérbole exagera; a prosopopeia humaniza seres não humanos; a gradação organiza uma sequência crescente ou decrescente.
As figuras de sintaxe alteram a construção: a elipse e o zeugma omitem termos; o pleonasmo repete ideias; o polissíndeto e o assíndeto repetem ou suprimem conjunções; a anáfora repete termos no início; o hipérbato inverte a ordem, e o anacoluto rompe a estrutura. As figuras de som exploram a sonoridade: a aliteração repete consoantes, e a assonância, vogais; a onomatopeia imita sons; a paronomásia joga com palavras de sons semelhantes. Em qualquer caso, identificar a figura é apenas o primeiro passo: o essencial é explicar o efeito de sentido que ela produz no texto.
13. Glossário
| Termo | Significado |
|---|---|
| Conotação | Sentido figurado, que depende do contexto |
| Denotação | Sentido literal, objetivo, registrado no dicionário |
| Efeito de sentido | Impressão, emoção ou significado que um recurso produz no leitor |
| Expressão idiomática | Expressão fixa cujo sentido não se deduz das palavras isoladas |
| Harmonia imitativa | Sonoridade que imita aquilo de que o texto fala |
| Lítotes | Afirmação pela negação do contrário: "não é nada bobo" |
| Ordem direta | Sequência habitual dos termos: sujeito, verbo e complementos |
| Sarcasmo | Ironia agressiva, com intenção de ferir |
| Sinédoque | Tipo de metonímia em que a parte representa o todo, ou o todo a parte |
| Simbolismo | Movimento literário do fim do século XIX que valorizava a musicalidade e a sugestão |
| Trocadilho | Jogo de palavras baseado em semelhança de som ou em duplo sentido |
| Tropo | Nome tradicional das figuras que alteram o sentido das palavras |
| Vício de linguagem | Uso considerado inadequado pela norma-padrão, como o pleonasmo vicioso |
11. Exercícios de fixação
Questões em ordem crescente de integração. Responda antes de abrir a resposta.
Exercício 1
AutoralDiferencie o sentido de "doce" em "O bolo está doce" e "Ela tem um jeito doce".
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Resposta
No primeiro caso, sentido denotativo: tem sabor açucarado. No segundo, sentido conotativo: meiga, gentil.
Exercício 2
AutoralIdentifique a figura: "Seus olhos são duas esmeraldas."
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Resposta
Metáfora: os olhos são identificados com esmeraldas por semelhança de cor e brilho, sem conectivo.
Exercício 3
AutoralReescreva a frase do exercício anterior como comparação.
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Resposta
"Seus olhos são como duas esmeraldas", ou outra forma com conectivo explícito.
Exercício 4
AutoralQue relação metonímica há em "O estádio inteiro vaiou o juiz"?
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Resposta
Lugar pelas pessoas que estão nele: o estádio representa os torcedores.
Exercício 5
AutoralPor que "braço da cadeira" é catacrese, e não uma metáfora criativa?
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Resposta
Porque é uma metáfora cristalizada, que nomeia algo sem nome próprio e é usada sem que se perceba o sentido figurado.
Exercício 6
AutoralIdentifique a figura em "Ouvi um grito vermelho de dor".
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Resposta
Sinestesia: mistura audição (grito) e visão (vermelho).
Exercício 7
AutoralIdentifique a figura e o referente: "O Poeta dos Escravos denunciou o tráfico negreiro."
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Resposta
Antonomásia. O referente é Castro Alves.
Exercício 8
AutoralClassifique: "Uns trabalham demais; outros, de menos."
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Resposta
Antítese, com oposição sem contradição, e também zeugma, com a omissão de trabalham.
Exercício 9
AutoralClassifique: "Ele era um pobre muito rico de afeto."
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Resposta
Há aparente paradoxo: pobre e rico se referem à mesma pessoa. A contradição se resolve porque pobre se refere ao dinheiro, e rico, ao afeto.
Exercício 10
AutoralDiante de uma casa bagunçada, alguém diz: "Que organização impecável!" Que figura é essa, e do que ela depende?
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Resposta
Ironia, que depende do contexto: o que foi dito é o contrário do que se observa.
Exercício 11
AutoralIdentifique a figura: "Ela nos deixou ontem, depois de muito sofrimento."
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Resposta
Eufemismo: "nos deixou" suaviza a ideia de morte.
Exercício 12
AutoralIdentifique a figura: "Já esperei um século por essa resposta."
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Resposta
Hipérbole: exagero intencional para indicar uma espera longa.
Exercício 13
AutoralIdentifique a figura: "As estrelas piscavam para os namorados."
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Resposta
Prosopopeia: as estrelas realizam uma ação humana.
Exercício 14
AutoralDiferencie elipse e zeugma com um exemplo de cada.
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Resposta
Elipse: "Na mesa, pão e café" (omite-se havia). Zeugma: "Ele leu o livro; eu, a revista" (omite-se li, já expresso em leu).
Exercício 15
Autoral"Subir para cima" e "vi com meus próprios olhos" são pleonasmos do mesmo tipo?
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Resposta
Não. O primeiro é pleonasmo vicioso, sem valor expressivo; o segundo é pleonasmo literário, que enfatiza a certeza.
Exercício 16
AutoralQue efeito produz o polissíndeto em "E andou, e andou, e andou, e nunca chegou"?
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Resposta
Efeito de continuidade, cansaço e insistência: a caminhada parece interminável.
Exercício 17
AutoralReescreva na ordem direta e identifique a figura: "De tudo, ao meu amor serei atento."
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Resposta
"Serei atento ao meu amor de tudo", ou "Serei atento, de tudo, ao meu amor". A figura é o hipérbato.
Exercício 18
AutoralIdentifique a figura: "A professora, os alunos adoravam as aulas dela."
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Resposta
Anacoluto: a professora fica solto, sem função sintática na oração seguinte.
Exercício 19
AutoralDiferencie aliteração e assonância e dê um exemplo de cada.
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Resposta
A aliteração repete consoantes: "O rato roeu a roupa do rei". A assonância repete vogais: "A lua nua flutua".
Exercício 20
AutoralIdentifique a figura e explique seu efeito no slogan fictício "Quem compra aqui não compara: se encanta."
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Resposta
Paronomásia: compra e compara têm sons semelhantes e sentidos diferentes. O jogo sonoro torna o slogan memorável e sugere que a loja dispensa comparação com as concorrentes.
Referências
- Bechara, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. A edição deve ser confirmada.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Cunha, C.; Cintra, L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. A edição deve ser confirmada.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Fiorin, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Fiorin, J. L.; Savioli, F. P. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática. A edição deve ser confirmada.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Lakoff, G.; Johnson, M. Metaphors We Live By. Chicago: University of Chicago Press, 1980. Edição brasileira: Metáforas da vida cotidiana.
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Camões, L. de. Soneto "Amor é fogo que arde sem se ver", em Rimas (1595).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Matos, G. de. Soneto "Nasce o Sol, e não dura mais que um dia" (século XVII).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Dias, G. "Canção do exílio" (1843), em Primeiros cantos (1847).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Alves, C. "O navio negreiro" (1869), em Os escravos (1883).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Assis, M. de. Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); Dom Casmurro (1899).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Sousa, C. e. "Violões que choram", em Faróis (1900).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Duque-Estrada, O. Letra do Hino Nacional Brasileiro (oficializada em 1922).
Referência bibliográfica indicada no material fornecido.
- Figuras da Biblioteca ASSAAD
Ilustrações e diagramas integrantes do material fornecido.



