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Cinemática: movimentos retilíneos, gráficos, vetores, lançamentos e movimento circular

Referencial, MU, MUV, queda livre, gráficos, vetores, lançamentos, movimento circular e acoplamento de polias.

A Cinemática descreve como os corpos se movem, sem tratar das causas do movimento, que são objeto da Dinâmica. Para isso, usa um pequeno conjunto de grandezas: posição, deslocamento, velocidade e aceleração. Com elas, é possível responder a perguntas práticas: quanto tempo um carro leva para frear, a que altura chega uma bola lançada para cima, onde cai um objeto lançado de uma janela, com que velocidade gira a roda de uma bicicleta a cada pedalada.

Este artigo segue uma progressão em três partes. Primeiro, estuda os movimentos em linha reta, o movimento uniforme, o uniformemente variado e a queda livre, e mostra como os gráficos contêm as mesmas informações que as equações. Depois, introduz as grandezas vetoriais e o princípio da independência dos movimentos, que permite decompor lançamentos em duas dimensões. Por fim, trata do movimento circular uniforme e da transmissão de movimento por engrenagens e polias.

1. Referencial e conceitos fundamentais

1.1 Referencial

Um corpo está em movimento quando sua posição muda com o tempo em relação a um referencial, um corpo ou sistema de coordenadas adotado como base. Repouso e movimento são relativos: um passageiro sentado em um ônibus está em repouso em relação ao ônibus e em movimento em relação à rua. A trajetória também depende do referencial: um objeto solto por um passageiro de um trem em movimento retilíneo e uniforme cai em linha reta vertical para o passageiro e descreve um arco de parábola para um observador na plataforma.

Quando as dimensões de um corpo são desprezíveis em relação às distâncias envolvidas, ele é tratado como ponto material. Um ônibus em uma viagem de 400 km pode ser tratado assim; o mesmo ônibus manobrando em uma garagem é um corpo extenso, assim como um trem atravessando uma ponte (seção 2.5).

1.2 Posição e deslocamento escalar

Em uma trajetória orientada, a posição (s) indica onde o corpo está, medida a partir de uma origem. O sentido positivo é escolhido por quem descreve o movimento, e todas as grandezas com sinal passam a depender dessa escolha.

1.3 Distância percorrida e deslocamento

A distância percorrida (d) é a soma dos comprimentos de todos os trechos do caminho e nunca é negativa. O deslocamento considera apenas as posições inicial e final.

Um corredor que dá uma volta completa em uma pista de 400 m percorre 400 m, e seu deslocamento é nulo. Os módulos do deslocamento e da distância só coincidem quando o movimento ocorre em um único sentido.

1.4 Velocidade média e velocidade instantânea

A razão entre a distância percorrida e o tempo, sempre positiva, é a rapidez média, diferente da velocidade média quando há mudança de sentido. A velocidade instantânea é a velocidade em um instante determinado, que pode ser entendida como a velocidade média em um intervalo de tempo extremamente curto. O velocímetro de um carro indica o módulo da velocidade instantânea.

1.5 Aceleração (noção)

O movimento é acelerado quando o módulo da velocidade aumenta, o que ocorre quando velocidade e aceleração têm o mesmo sinal, e retardado quando o módulo diminui, com sinais opostos.

2. Movimento uniforme

2.1 Características

No movimento uniforme, a velocidade é constante e diferente de zero, e a aceleração é nula: o corpo percorre distâncias iguais em intervalos de tempo iguais. Quando a trajetória é uma reta, fala-se em movimento retilíneo uniforme (MRU). O movimento é progressivo quando v > 0 e a posição aumenta, e retrógrado quando v < 0 e a posição diminui.

2.2 Função horária da posição

2.3 Gráficos do MU

GráficoFormaO que se lê
s × tReta inclinada: crescente se v > 0, decrescente se v < 0A inclinação é a velocidade
v × tReta horizontal, acima do eixo se v > 0, abaixo se v < 0A área sob a reta é o deslocamento
a × tReta sobre o eixo do tempoa = 0
Três gráficos do movimento uniforme s = 10 + 5t, de 0 a 6 segundos. No gráfico de posição, uma reta sobe de 10 a 40 metros, com inclinação de 5 metros por segundo. No de velocidade, uma reta horizontal em 5 metros por segundo, com área de 30 metros sob ela. No de aceleração, uma reta sobre o eixo.
Figura 1. Gráficos do movimento uniforme s = 10 + 5t, em escala. A inclinação do gráfico s × t é a velocidade, e a área sob o gráfico v × t, entre 0 e 6 s, é o deslocamento de 30 m, de 10 m para 40 m. A aceleração é nula.

Identificação do MU por gráficos. Um trecho do gráfico s × t que é uma reta inclinada, ou um trecho do gráfico v × t que é uma reta horizontal fora do eixo, indica movimento uniforme. Uma reta horizontal no gráfico s × t indica repouso.

2.4 Encontro de móveis

Dois móveis na mesma trajetória se encontram quando ocupam a mesma posição no mesmo instante. O método é escrever as funções horárias com a mesma origem e a mesma orientação, igualar as posições e resolver para t.

2.5 Velocidade relativa

A velocidade relativa é a velocidade de um corpo medida por um observador em outro corpo em movimento. Em uma mesma trajetória, com velocidades constantes, seu módulo é a diferença entre os módulos quando os corpos vão no mesmo sentido e a soma quando vão em sentidos opostos. No exemplo anterior, os móveis se aproximam a 20 + 10 = 30 m/s e, separados por 300 m, encontram-se em 300/30 = 10 s.

Corpos extensos. Para um trem atravessar completamente uma ponte, sua traseira precisa sair do outro lado: o deslocamento é o comprimento da ponte mais o comprimento do trem. Um trem de 200 m a 20 m/s atravessa uma ponte de 100 m em (100 + 200)/20 = 15 s.

3. Movimento uniformemente variado

3.1 Características

No movimento uniformemente variado, a aceleração é constante e diferente de zero: a velocidade varia igualmente em intervalos de tempo iguais, linearmente com o tempo, e a posição varia de forma quadrática.

3.2 Equações horárias

A equação da posição pode ser obtida da velocidade média: Δs = vₘ · t = [(v₀ + v)/2] · t, e, substituindo v = v₀ + at, obtém-se Δs = v₀t + at²/2.

3.3 Equação de Torricelli

3.4 Gráficos do MUV

GráficoFormaO que se lê
s × tArco de parábola: concavidade para cima se a > 0, para baixo se a < 0A inclinação em cada ponto é a velocidade; o vértice corresponde a v = 0
v × tReta inclinadaA inclinação é a aceleração; a área é o deslocamento
a × tReta horizontal fora do eixoA área é a variação de velocidade
Dois gráficos de uma viagem. Velocidade × tempo: sobe em linha reta de 0 a 20 m/s em 10 s, fica em 20 m/s até 30 s e cai a zero em 40 s; as áreas sob os trechos valem 100 m, 400 m e 100 m. Posição × tempo: arco de parábola até 100 m, reta até 500 m e novo arco até 600 m.
Figura 2. Viagem em três fases, em escala: aceleração de 2 m/s² por 10 s, velocidade constante de 20 m/s por 20 s e frenagem constante até parar. No gráfico v × t, a inclinação de cada trecho é a aceleração, e a área sob a linha é o deslocamento: 100 + 400 + 100 = 600 m. No gráfico s × t, os trechos com aceleração formam arcos de parábola, e o trecho uniforme, uma reta.

Identificação do MUV por gráficos. No gráfico v × t, o MUV aparece como reta inclinada; no gráfico s × t, como arco de parábola. O instante em que a reta v × t cruza o eixo do tempo (v = 0) é o instante em que o movimento muda de sentido, e corresponde ao vértice da parábola no gráfico s × t.

4. Queda livre e lançamento vertical

4.1 Queda livre

Próximo à superfície da Terra, com resistência do ar desprezível, todos os corpos caem com a mesma aceleração, independentemente da massa: a aceleração da gravidade, g ≈ 9,8 m/s², dirigida para baixo. Em exercícios, é comum usar g = 10 m/s². Galileu Galilei, no início do século XVII, estudou a queda de corpos em planos inclinados e concluiu que a aceleração não depende da massa. Em 1971, na missão Apollo 15, o astronauta David Scott soltou um martelo e uma pena ao mesmo tempo na superfície da Lua, onde não há atmosfera, e os dois chegaram juntos ao solo.

Em queda livre, as distâncias percorridas em segundos consecutivos seguem a proporção 1 : 3 : 5 : 7 … Com g = 10 m/s², são 5 m no primeiro segundo, 15 m no segundo, 25 m no terceiro, e assim por diante. Essa regularidade, observada por Galileu, é característica de todo MUV que parte do repouso.

4.2 Lançamento vertical para cima

Com o eixo orientado para cima e a origem no ponto de lançamento, a aceleração vale −g durante todo o movimento: na subida, no ponto mais alto e na descida.

4.3 Tempo de subida, altura máxima e simetria

Sem resistência do ar, o movimento é simétrico: o tempo de descida até o ponto de lançamento é igual ao de subida, e o tempo total é 2tₛ; em cada altura, a velocidade na descida tem o mesmo módulo que na subida, com sentido oposto; e o corpo volta ao ponto de lançamento com velocidade de mesmo módulo que v₀.

À esquerda, a trajetória vertical de uma bola lançada a 20 metros por segundo, que sobe até 20 metros. Na altura de 15 metros, a velocidade vale 10 metros por segundo para cima na subida e 10 metros por segundo para baixo na descida. No topo, a velocidade é nula e a aceleração continua para baixo. À direita, o gráfico velocidade por tempo é uma reta de 20 a menos 20 metros por segundo entre 0 e 4 segundos, cruzando o eixo em 2 segundos.
Figura 3. Lançamento vertical com v₀ = 20 m/s e g = 10 m/s², sem resistência do ar. Na mesma altura, a velocidade tem o mesmo módulo na subida e na descida, com sentidos opostos. No ponto mais alto, a velocidade é nula, mas a aceleração continua sendo g. A reta do gráfico v × t cruza o eixo no instante do topo.

5. Análise de gráficos cinemáticos

Por que a área do gráfico v × t é o deslocamento. Em um intervalo muito curto, a velocidade é praticamente constante, e o deslocamento é v · Δt, a área de uma faixa estreita sob a curva. Somando as faixas de todo o intervalo, obtém-se o deslocamento total. No MU, essa área é um retângulo; no MUV, é um trapézio, cuja área (v₀ + v)/2 · t reproduz a equação da seção 3.2. A soma com sinal das áreas dá o deslocamento; a soma dos módulos, a distância percorrida.

Movimentos × tv × ta × t
RepousoReta horizontalReta sobre o eixoReta sobre o eixo
MUReta inclinadaReta horizontal fora do eixoReta sobre o eixo
MUVArco de parábolaReta inclinadaReta horizontal fora do eixo

6. Grandezas vetoriais e cinemática vetorial

6.1 Grandezas escalares e vetoriais

Grandezas escalares ficam definidas por um número e uma unidade: massa, tempo, temperatura, distância percorrida. Grandezas vetoriais exigem, além do valor (módulo), uma direção e um sentido: deslocamento vetorial, velocidade, aceleração, força. Uma velocidade de 60 km/h não diz para onde o carro vai; "60 km/h para o norte" define a velocidade como vetor. Direção e sentido são coisas diferentes: uma rua norte-sul tem uma direção, e nela há dois sentidos. Um vetor é representado por uma seta, cujo comprimento corresponde ao módulo.

6.2 Soma de vetores

  • Mesma direção e mesmo sentido: somam-se os módulos, 6 + 8 = 14.
  • Mesma direção e sentidos opostos: subtraem-se os módulos, e o resultado tem o sentido do maior, 8 − 6 = 2.
  • Direções perpendiculares: a resultante é a hipotenusa do triângulo retângulo formado pelos vetores, pelo teorema de Pitágoras, √(6² + 8²) = 10.
  • Caso geral: usa-se a regra do paralelogramo ou a regra do polígono, colocando a origem de cada vetor na extremidade do anterior.

Para dois vetores de módulos a e b, a resultante sempre fica entre |a − b| e a + b. Com 6 e 8, fica entre 2 e 14, conforme o ângulo entre eles.

6.3 Decomposição de vetores

Todo vetor pode ser decomposto em duas componentes perpendiculares.

θ30°37° (aprox.)45°53° (aprox.)60°
sen θ0,50,6≈ 0,710,8≈ 0,87
cos θ≈ 0,870,8≈ 0,710,60,5

Os valores para 37° e 53° são aproximações muito usadas em exercícios, porque formam o triângulo retângulo de lados 3, 4 e 5.

Vetor de módulo 20 formando 37 graus com a horizontal, decomposto em uma componente horizontal de 16 e uma vertical de 12, que formam com ele um triângulo retângulo de lados proporcionais a 3, 4 e 5.
Figura 4. Decomposição de um vetor de módulo 20 a 37°, em escala. As componentes valem vₓ = v · cos θ = 16 e v_y = v · sen θ = 12. Os três valores formam um triângulo retângulo de proporção 3 : 4 : 5, e por isso √(16² + 12²) = 20.

6.4 Velocidade vetorial e aceleração vetorial

A velocidade vetorial em cada instante é tangente à trajetória, no sentido do movimento, e seu módulo é o da velocidade escalar instantânea. Em uma curva, mesmo com velocímetro constante, a velocidade vetorial muda de direção. A aceleração vetorial mede como a velocidade vetorial varia e pode ser decomposta em duas componentes.

Movimentoaₜa_cp
Retilíneo uniforme00
Retilíneo uniformemente variado≠ 00
Circular uniforme0≠ 0
Circular variado≠ 0≠ 0

Um carro fazendo uma curva de raio 100 m a 20 m/s (72 km/h) tem aceleração centrípeta de 20²/100 = 4 m/s², mesmo com o velocímetro parado em 72 km/h.

6.5 Princípio da independência e composição de movimentos

Outros exemplos de composição: uma pessoa andando a 1 m/s sobre uma escada rolante que sobe a 0,5 m/s move-se a 1,5 m/s em relação ao solo; e, para o motorista de um carro em movimento, a chuva vertical parece cair inclinada, porque à velocidade das gotas se soma, em relação ao carro, uma velocidade horizontal em sentido contrário ao do movimento.

7. Lançamento horizontal e oblíquo

Com resistência do ar desprezível, a única aceleração de um projétil é a da gravidade. Pelo princípio da independência, o movimento se decompõe em duas partes: na horizontal, não há aceleração, e o movimento é uniforme; na vertical, a aceleração é g, e o movimento é uniformemente variado. A composição das duas produz uma trajetória em forma de parábola.

7.1 Lançamento horizontal

7.2 Lançamento oblíquo

Um corpo lançado com velocidade v₀, formando ângulo θ com a horizontal, a partir do solo e voltando ao mesmo nível, tem v₀ₓ = v₀ cos θ, constante durante todo o voo, e v₀ᵧ = v₀ sen θ, que se comporta como um lançamento vertical para cima.

Trajetória parabólica de um projétil lançado a 20 metros por segundo com 37 graus. Em cinco pontos aparecem a componente horizontal da velocidade, sempre igual, a componente vertical, que diminui na subida, se anula no topo e cresce na descida, e o vetor da gravidade para baixo. A altura máxima é 7,2 metros, e o alcance, 38,4 metros.
Figura 5. Lançamento oblíquo com v₀ = 20 m/s e θ = 37°, em escala e sem resistência do ar. A componente horizontal (verde) é constante. A componente vertical (vermelha) diminui na subida, anula-se no topo e cresce na descida. A aceleração (cinza) é g, para baixo, em todos os pontos.

7.3 Ângulo de lançamento e simetria

  • No ponto mais alto, a componente vertical da velocidade é zero, mas a horizontal continua valendo v₀ₓ: a velocidade é mínima, mas não é nula, e a aceleração continua sendo g.
  • A trajetória é simétrica em relação à vertical que passa pelo ponto mais alto: o tempo de subida é igual ao de descida, e, em pontos de mesma altura, as velocidades têm o mesmo módulo.
  • O alcance máximo ocorre para θ = 45°, porque sen(2θ) é máximo quando 2θ = 90°.
  • Ângulos complementares, como 30° e 60° ou 37° e 53°, produzem o mesmo alcance, porque sen(2 · 30°) = sen 60° = sen 120° = sen(2 · 60°). O ângulo maior leva a uma trajetória mais alta e a um voo mais longo.

8. Movimento circular uniforme

8.1 Período e frequência

No movimento circular uniforme, o corpo percorre uma circunferência com velocidade de módulo constante, e o movimento se repete em intervalos de tempo iguais. O período (T) é o tempo de uma volta completa, em segundos. A frequência (f) é o número de voltas por unidade de tempo, em hertz (Hz), uma volta por segundo, ou em rotações por minuto (rpm).

8.2 Velocidade angular

O ângulo descrito pelo corpo em torno do centro é o deslocamento angular (Δφ). Em Física, ângulos são medidos em radianos (rad): um ângulo de 1 rad corresponde a um arco de comprimento igual ao raio, e uma volta completa tem 2π rad, que equivale a 360°.

8.3 Velocidade linear e sua relação com ω

Em um disco girando, um ponto na borda e um ponto perto do centro completam uma volta no mesmo tempo, mas o ponto da borda percorre uma circunferência maior e se move mais depressa.

8.4 Aceleração centrípeta

No MCU, o módulo da velocidade é constante, mas sua direção muda continuamente. Por isso o MCU é um movimento acelerado, com aceleração dirigida para o centro.

Circunferência com um corpo em quatro posições. Em cada uma, o vetor velocidade é tangente à trajetória, com o mesmo tamanho, e o vetor aceleração centrípeta aponta para o centro.
Figura 6. Movimento circular uniforme, esquemático. O módulo da velocidade é constante, mas sua direção muda a cada instante. Por isso existe aceleração, a centrípeta, sempre dirigida para o centro. A aceleração tangencial é nula.

9. Acoplamento de engrenagens e polias

Máquinas transmitem movimento circular de uma peça a outra por meio de engrenagens, correias, correntes e eixos. Há dois tipos de acoplamento, e cada um conserva uma grandeza diferente.

9.1 Contato ou correia: mesma velocidade linear

Em engrenagens em contato, polias ligadas por correia ou coroa e catraca ligadas por corrente, os pontos da periferia se movem juntos, sem escorregar, e têm a mesma velocidade linear.

Engrenagens em contato direto giram em sentidos opostos; polias com correia não cruzada giram no mesmo sentido.

9.2 Peças no mesmo eixo: mesma velocidade angular

Três painéis. Engrenagens em contato giram em sentidos opostos e têm a mesma velocidade linear. Polias ligadas por correia giram no mesmo sentido e têm a mesma velocidade linear. Polias presas ao mesmo eixo têm a mesma velocidade angular.
Figura 7. Os dois tipos de acoplamento. Contato e correia conservam a velocidade linear: a peça menor gira mais depressa. O eixo comum conserva a velocidade angular: a peça maior tem velocidade linear maior na borda.

9.3 A bicicleta

A bicicleta combina os dois tipos de acoplamento. O pedal e a coroa, no mesmo eixo, têm a mesma frequência. A coroa e a catraca, ligadas pela corrente, têm a mesma velocidade linear, e a frequência se multiplica pela razão entre os números de dentes. A catraca e a roda traseira, no mesmo eixo, têm a mesma frequência.

10. Exemplos resolvidos

11. Erros conceituais frequentes

ErroPor que está erradoForma correta
Deslocamento é sempre igual à distânciaO deslocamento depende só das posições inicial e finalCoincidem apenas sem mudança de sentido
Velocidade média é a média das velocidadesOs trechos podem ter durações diferentesvₘ = Δs total / Δt total
Aceleração negativa é sempre frenagemO sinal depende da orientação do eixoRetardado: v e a com sinais opostos
No ponto mais alto, a aceleração é nulaA gravidade continua atuandoa = g, para baixo
Corpos mais pesados caem mais rápidoNo vácuo, todos caem com a mesma aceleraçãoNo ar, a resistência explica diferenças
O gráfico s × t mostra a trajetóriaEle mostra a posição no tempoA trajetória pode ser retilínea com gráfico curvo
No lançamento oblíquo, a velocidade no topo é zeroA componente horizontal continuav = v₀ₓ no ponto mais alto
Quanto maior o ângulo, maior o alcanceO alcance máximo ocorre em 45°, no vácuoÂngulos complementares dão o mesmo alcance
A bola lançada horizontalmente demora mais para cairO movimento vertical independe do horizontalCai junto com a bola largada
MCU não tem aceleraçãoA direção da velocidade mudaa_cp = v²/R, para o centro
A correnteza aumenta o tempo de travessiaSó a componente perpendicular às margens importaO tempo depende da velocidade do barco
Polias ligadas por correia têm a mesma frequênciaA correia iguala a velocidade linearf · R é igual
Peças no mesmo eixo têm a mesma velocidade linearO eixo iguala a velocidade angularv proporcional ao raio

12. Distinções importantes

Deslocamento e distância percorrida. O deslocamento tem sinal e depende das posições inicial e final; a distância soma todo o caminho e é sempre positiva.

Velocidade média e rapidez média. A velocidade média usa o deslocamento; a rapidez média usa a distância percorrida.

Velocidade nula e aceleração nula. No ponto mais alto de um lançamento vertical, a velocidade é nula, mas a aceleração é g.

MU e MUV. No MU, a velocidade é constante, e a aceleração é nula. No MUV, a aceleração é constante, e a velocidade varia linearmente.

Movimento acelerado e aceleração positiva. Acelerado significa módulo da velocidade crescente, com v e a de mesmo sinal; aceleração positiva é apenas o sinal em relação ao eixo escolhido.

Grandeza escalar e vetorial. A escalar tem só módulo e unidade; a vetorial tem módulo, direção e sentido.

Direção e sentido. A direção é a reta, como a horizontal ou norte-sul; o sentido é a orientação sobre ela.

Aceleração tangencial e centrípeta. A tangencial altera o módulo da velocidade; a centrípeta altera a direção.

Velocidade angular e velocidade linear. A angular mede o ângulo descrito por unidade de tempo e é igual para todos os pontos de um corpo rígido em rotação; a linear mede o comprimento percorrido por unidade de tempo e cresce com o raio.

Período e frequência. O período é o tempo de uma volta; a frequência é o número de voltas por unidade de tempo. Um é o inverso do outro.

Acoplamento por correia e por eixo. A correia, a corrente ou o contato conservam a velocidade linear; o eixo comum conserva a velocidade angular.

13. Perguntas frequentes

O que o velocímetro de um carro indica?

O módulo da velocidade instantânea. Não indica o sentido do movimento nem a velocidade média da viagem.

Por que a área do gráfico v × t corresponde ao deslocamento?

Em um intervalo curto, o deslocamento é aproximadamente v · Δt, a área de uma faixa estreita sob a curva. Somando as faixas de todo o intervalo, obtém-se o deslocamento total, com as áreas abaixo do eixo contadas como negativas.

Se a Terra gira a cerca de 1.670 km/h no Equador, por que não sentimos?

Porque não percebemos velocidade constante, apenas variações de velocidade. A aceleração centrípeta da rotação no Equador é ω²R ≈ 0,034 m/s², cerca de 0,3% de g, pequena demais para ser sentida no dia a dia.

Uma bala disparada horizontalmente e uma bala largada da mesma altura chegam juntas ao chão?

Sim, se o terreno for plano e a resistência do ar for desprezível. O movimento vertical das duas é idêntico; a bala disparada apenas cai muito mais longe.

O ângulo de 45° é sempre o melhor para lançar?

Apenas no vácuo, com lançamento e chegada no mesmo nível. Com resistência do ar, ou com lançamento acima do solo, o ângulo de alcance máximo é menor.

Por que o radiano é usado em vez do grau?

Porque, com ângulos em radianos, a relação entre arco e raio é direta: arco = ângulo · raio. Daí vem v = ωR sem constantes adicionais; com graus, seria preciso um fator de conversão em todas as fórmulas.

Em uma curva, o que produz a aceleração centrípeta de um carro?

O atrito entre os pneus e o asfalto, que atua para o centro da curva. A causa das acelerações é assunto da Dinâmica; a Cinemática apenas mede quanto vale essa aceleração, v²/R.

Por que a marcha "leve" da bicicleta faz andar mais devagar?

Porque usa uma catraca maior ou uma coroa menor: a roda dá menos voltas por pedalada, e a bicicleta avança menos a cada volta do pedal. Em compensação, a força necessária para pedalar é menor, o que ajuda nas subidas.

15. Síntese

O movimento é descrito em relação a um referencial. A posição, o deslocamento e a velocidade podem ter sinal, que depende da orientação escolhida, e a distância percorrida é sempre positiva. A velocidade média é o deslocamento total dividido pelo tempo total, e a aceleração mede a variação da velocidade por unidade de tempo.

No movimento uniforme, a velocidade é constante, e a posição é uma função do primeiro grau do tempo. No uniformemente variado, a aceleração é constante, a velocidade varia linearmente e a posição varia de forma quadrática; a equação de Torricelli relaciona velocidade e deslocamento sem o tempo. A queda livre e o lançamento vertical são MUV com aceleração g, independente da massa: no ponto mais alto, a velocidade é nula, mas a aceleração não, e o movimento é simétrico. Nos gráficos, a inclinação do s × t é a velocidade, a inclinação do v × t é a aceleração, e a área sob o v × t é o deslocamento.

Velocidade e aceleração são grandezas vetoriais. A velocidade é tangente à trajetória; a aceleração tangencial altera seu módulo, e a centrípeta, sua direção. Pelo princípio da independência, movimentos simultâneos se compõem vetorialmente: nos lançamentos, o movimento horizontal é uniforme e o vertical é uniformemente variado, o que produz trajetórias parabólicas, com alcance máximo a 45° no vácuo e mesmo alcance para ângulos complementares.

No movimento circular uniforme, o período e a frequência descrevem a repetição, a velocidade angular é ω = 2πf, a linear é v = ωR, e a aceleração centrípeta, a_cp = v²/R, aponta para o centro. Nos acoplamentos, correias, correntes e engrenagens conservam a velocidade linear, e eixos comuns conservam a velocidade angular.

16. Glossário

TermoSignificado
AceleraçãoVariação da velocidade por unidade de tempo
Aceleração centrípetaComponente da aceleração dirigida ao centro da curva; altera a direção da velocidade
Aceleração tangencialComponente da aceleração na direção da velocidade; altera seu módulo
AlcanceDistância horizontal percorrida por um projétil
Deslocamento escalarVariação de posição, Δs = s − s₀
FrequênciaNúmero de repetições por unidade de tempo
Hertz (Hz)Unidade de frequência; uma repetição por segundo
Movimento progressivoMovimento no sentido positivo da trajetória
Movimento retrógradoMovimento no sentido negativo da trajetória
PeríodoTempo de uma repetição completa
Ponto materialCorpo cujas dimensões são desprezíveis no problema
RadianoÂngulo cujo arco tem comprimento igual ao raio; uma volta tem 2π rad
ReferencialCorpo ou sistema de coordenadas em relação ao qual se descreve o movimento
TrajetóriaCaminho descrito por um corpo em relação a um referencial
Velocidade angularÂngulo descrito por unidade de tempo
Velocidade linearDistância percorrida sobre a trajetória por unidade de tempo
Velocidade relativaVelocidade de um corpo medida em relação a outro corpo em movimento
Velocidade terminalVelocidade constante atingida quando a resistência do ar equilibra o peso

14. Exercícios de fixação

Questões em ordem crescente de integração. Responda antes de abrir a resposta.

Exercício 1

Autoral

Um corredor dá uma volta completa em uma pista de 400 m. Quais são o deslocamento e a distância percorrida?

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Resposta

Deslocamento nulo; distância de 400 m.

Exercício 2

Autoral

Converta 108 km/h em m/s e 15 m/s em km/h.

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Resposta

30 m/s e 54 km/h.

Exercício 3

Autoral

A posição de um móvel em MU é s = 10 + 5t, no SI. Qual é a velocidade, e qual é a posição em t = 4 s?

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Resposta

v = 5 m/s; s(4) = 10 + 20 = 30 m.

Exercício 4

Autoral

Os móveis A (s = 50 + 10t) e B (s = 200 − 5t), no SI, estão na mesma trajetória. Quando e onde se encontram?

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Resposta

50 + 10t = 200 − 5t ⟹ 15t = 150 ⟹ t = 10 s, em s = 150 m.

Exercício 5

Autoral

Um trem de 150 m, a 72 km/h, atravessa um túnel de 250 m. Quanto tempo leva?

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Resposta

72 km/h = 20 m/s. O deslocamento é 250 + 150 = 400 m, e o tempo é 400/20 = 20 s.

Exercício 6

Autoral

Um carro vai de 0 a 108 km/h em 10 s, com aceleração constante. Qual é a aceleração e que distância ele percorre nesse intervalo?

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Resposta

108 km/h = 30 m/s, então a = 3 m/s². Por Torricelli, d = 30²/(2 · 3) = 150 m.

Exercício 7

Autoral

Um carro a 20 m/s freia com aceleração de módulo 5 m/s². Em quanto tempo e em que distância para?

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Resposta

4 s e 40 m.

Exercício 8

Autoral

Um objeto cai em queda livre de 80 m de altura (g = 10 m/s²). Quanto tempo leva e com que velocidade chega ao solo?

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Resposta

80 = 5t² ⟹ t = 4 s; v = 40 m/s.

Exercício 9

Autoral

Uma bola é lançada para cima a 30 m/s. Determine o tempo de subida, a altura máxima e o tempo total no ar.

Ver respostaOcultar resposta

Resposta

tₛ = 3 s; H = 900/20 = 45 m; tempo total de 6 s.

Exercício 10

Autoral

No gráfico v × t, a velocidade cai de 20 m/s a −10 m/s em linha reta entre 0 e 3 s. Qual é a aceleração, o deslocamento e a distância percorrida?

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Resposta

a = −30/3 = −10 m/s². A velocidade se anula em t = 2 s. Área acima do eixo: 20 · 2/2 = 20 m; abaixo: 10 · 1/2 = 5 m. Deslocamento 15 m; distância 25 m.

Exercício 11

Autoral

Qual gráfico identifica cada movimento: (a) s × t reta horizontal; (b) v × t reta inclinada; (c) s × t reta inclinada?

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Resposta

(a) Repouso; (b) MUV; (c) MU.

Exercício 12

Autoral

Dois vetores têm módulos 6 e 8. Qual é a resultante se forem de mesma direção e mesmo sentido, de sentidos opostos e perpendiculares?

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Resposta

14, 2 e 10.

Exercício 13

Autoral

Um barco a 5 m/s em relação à água atravessa perpendicularmente um rio de 100 m de largura, com correnteza de 2 m/s. Determine o tempo de travessia e o arrasto rio abaixo.

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Resposta

t = 100/5 = 20 s; arrasto de 2 · 20 = 40 m.

Exercício 14

Autoral

Uma bola é lançada horizontalmente a 10 m/s do alto de um prédio de 45 m. Qual é o tempo de queda e o alcance?

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Resposta

45 = 5t² ⟹ t = 3 s; A = 10 · 3 = 30 m.

Exercício 15

Autoral

Um projétil é lançado a 20 m/s com ângulo de 30° (sen 30° = 0,5; cos 30° ≈ 0,87). Determine a altura máxima e o alcance.

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Resposta

v₀ᵧ = 10 m/s e v₀ₓ ≈ 17,4 m/s. H = 100/20 = 5 m. T = 2 s, e A ≈ 17,4 · 2 ≈ 34,8 m.

Exercício 16

Autoral

Por que um lançamento a 30° e outro a 60°, com a mesma velocidade, têm o mesmo alcance?

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Resposta

Porque o alcance é proporcional a sen(2θ), e sen 60° = sen 120°. O lançamento a 60° sobe mais e fica mais tempo no ar, mas avança mais devagar na horizontal, e os dois efeitos se compensam.

Exercício 17

Autoral

Uma roda de raio 0,5 m completa uma volta a cada 0,5 s. Determine a frequência, a velocidade angular, a velocidade linear da borda e a aceleração centrípeta.

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Resposta

f = 2 Hz; ω = 4π ≈ 12,6 rad/s; v = ωR = 2π ≈ 6,3 m/s; a_cp = ω²R = 8π² ≈ 79 m/s².

Exercício 18

Autoral

Um carro faz uma curva de raio 100 m a 72 km/h. Qual é sua aceleração centrípeta?

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Resposta

72 km/h = 20 m/s, então a_cp = 400/100 = 4 m/s².

Exercício 19

Autoral

A polia A (raio 5 cm) gira a 1.200 rpm e está ligada por correia à polia B (raio 15 cm). Qual é a frequência de B?

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Resposta

f_B = 1.200 · 5/15 = 400 rpm.

Exercício 20

Autoral

A engrenagem A, de 20 dentes, gira a 90 rpm no sentido horário e está em contato com a engrenagem B, de 60 dentes. Qual é a frequência e o sentido de B?

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Resposta

f_B = 90 · 20/60 = 30 rpm, no sentido anti-horário.

Exercício 21

Autoral

Em uma bicicleta, a coroa tem 44 dentes, e a catraca, 11. Quantas voltas a roda dá por pedalada?

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Resposta

44/11 = 4 voltas.

Referências

  1. Galilei, G. Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências (1638). Queda dos corpos, movimento uniformemente acelerado e composição de movimentos dos projéteis.

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  2. NASA. Registro da demonstração do martelo e da pena, missão Apollo 15, 1971 (David Scott).

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  3. Halliday, D.; Resnick, R.; Walker, J. Fundamentos de Física, v. 1: Mecânica. Rio de Janeiro: LTC. A edição deve ser confirmada.

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  4. Nussenzveig, H. M. Curso de Física Básica, v. 1: Mecânica. São Paulo: Blucher. A edição deve ser confirmada.

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  5. Bureau International des Poids et Mesures (BIPM). The International System of Units (SI Brochure), 9ª ed., 2019. Radiano e hertz.

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  6. Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

    Referência bibliográfica indicada no material fornecido.

  7. Figuras da Biblioteca ASSAAD

    Ilustrações e diagramas integrantes do material fornecido.