Respiração celular é o conjunto de reações em que a célula oxida moléculas orgânicas, principalmente a glicose, e conserva parte da energia liberada na forma de ATP, a molécula que abastece a maior parte do trabalho celular. Na respiração aeróbica, que ocorre em animais, plantas, fungos e muitos microrganismos, os carbonos da glicose saem como gás carbônico (), e o oxigênio () recebe, no fim do processo, os elétrons retirados da glicose, formando água.
O artigo segue o caminho da glicose em quatro etapas: glicólise, oxidação do piruvato, ciclo de Krebs e cadeia respiratória com a ATP sintase. Ao longo delas, quatro perguntas organizam o estudo: onde cada etapa acontece, para onde vão os átomos da glicose, qual é o papel do oxigênio e como o fluxo de elétrons vira ATP. Com essas respostas, fica possível calcular o saldo energético, distinguir respiração de fermentação e prever o efeito de venenos e desacopladores.
Visão geral: da glicose ao ATP
A equação global da respiração aeróbica da glicose é:
O resumo "glicose → + + ATP" é útil, mas não é uma equação balanceada: nenhum átomo da glicose entra no ATP. O que a glicose fornece é energia, transferida por meio de elétrons.
Por que tantas etapas? Uma chama queima a glicose de uma vez, e toda a energia sai como calor e luz. Na célula, a oxidação é dividida em reações catalisadas por enzimas, e os elétrons passam por vários transportadores antes de chegar ao oxigênio. Liberar a energia em pequenas porções permite capturar parte dela: estima-se que cerca de 34% da energia da glicose seja conservada nessas vias, e o restante é liberado como calor.
Na célula eucariótica, a glicólise ocorre no citosol e as demais etapas, na mitocôndria. Essa organela tem duas membranas; a interna forma dobras, as cristas, e envolve o compartimento mais interno, a matriz. Entre as duas membranas fica o espaço intermembranas. Esses três endereços (matriz, membrana interna, espaço intermembranas) aparecem o tempo todo neste artigo.
| Etapa | Onde ocorre (célula eucariótica) | Entra, por glicose | Sai, por glicose | Consome ? |
|---|---|---|---|---|
| Glicólise | Citosol | 1 glicose | 2 piruvatos, saldo de 2 ATP, 2 NADH | Não |
| Oxidação do piruvato | Matriz mitocondrial | 2 piruvatos | 2 acetil-CoA, , 2 NADH | Não |
| Ciclo de Krebs | Matriz mitocondrial | 2 acetil-CoA | , 6 NADH, , 2 ATP (ou GTP) | Não |
| Cadeia respiratória e ATP sintase | Membrana interna da mitocôndria | Elétrons do NADH e do , , ADP e | , e FAD reciclados, a maior parte do ATP | Sim |
Alguns livros juntam a oxidação do piruvato ao ciclo de Krebs e falam em três etapas; a contagem não muda o processo. Em procariotos, que não têm mitocôndrias, a oxidação do piruvato e o ciclo de Krebs ocorrem no citoplasma, e a cadeia respiratória fica na membrana plasmática.
Balanço de átomos e uso do oxigênio
A tabela mostra algo que confunde muita gente: só a última etapa consome , e é nela que se forma água. Separar a equação global em duas metades deixa isso visível.
Conferindo os oxigênios: os 12 átomos de oxigênio dos vêm da glicose (6) e da água (6); os 12 átomos do terminam na água formada na cadeia. Portanto, o não se transforma em . As 24 cargas de elétrons equivalem a 12 pares, entregues por 10 NADH e , como mostram as próximas seções.
O consumo de é, então, direto em uma única reação e indireto em todas as outras: glicólise, oxidação do piruvato e ciclo de Krebs não usam oxigênio, mas as etapas mitocondriais param sem ele, porque dependem dos carreadores que a cadeia devolve à forma oxidada.
A glicose é o exemplo clássico, não o único combustível. Ácidos graxos são quebrados na matriz mitocondrial em unidades de dois carbonos que formam acetil-CoA, e vários aminoácidos podem ser convertidos em piruvato, acetil-CoA ou intermediários do ciclo de Krebs. O ciclo e a cadeia respiratória servem, portanto, a açúcares, gorduras e proteínas.
Carreadores de elétrons: NAD e FAD
Oxidar uma substância é retirar elétrons dela; reduzir é fornecer elétrons. As duas coisas ocorrem juntas, em reações de oxirredução. Na respiração, os elétrons retirados da glicose costumam sair acompanhados de prótons, na forma de átomos de hidrogênio; por isso muitas das enzimas envolvidas se chamam desidrogenases.
Esses elétrons não vão direto ao oxigênio. Eles são entregues a coenzimas que funcionam como carregadores reutilizáveis: recebem elétrons em uma reação e os entregam em outra.
Os carreadores não são consumidos, e a quantidade deles na célula é pequena diante do fluxo de glicose. Por isso precisam ser reciclados o tempo todo: o NADH e o entregam os elétrons à cadeia respiratória e voltam à forma oxidada. Se essa devolução para, falta , e as reações que dependem dele também param. Essa única ideia explica por que o ciclo de Krebs depende do oxigênio, por que existe fermentação e por que os venenos da cadeia são tão perigosos.
Os dois carreadores não se comportam da mesma forma:
| NAD | FAD | |
|---|---|---|
| Onde é reduzido na respiração da glicose | Glicólise (citosol), oxidação do piruvato e ciclo de Krebs (matriz) | Ciclo de Krebs, na succinato desidrogenase |
| Mobilidade | Circula livre no compartimento em que está | Fica preso à enzima, na membrana interna |
| Por onde entrega elétrons à cadeia | Complexo I, no início da cadeia | Ubiquinona, depois do complexo I |
| Consequência | Mais prótons bombeados, mais ATP | Menos prótons bombeados, menos ATP |
Glicólise
A glicólise ("quebra da glicose") ocorre no citosol de células procarióticas e eucarióticas e não usa oxigênio. Em uma sequência de dez reações, uma glicose, com seis carbonos, é convertida em duas moléculas de piruvato, com três carbonos cada.
Esse ATP é formado por fosforilação no nível do substrato: uma enzima transfere um grupo fosfato de uma molécula intermediária diretamente para o ADP. É um mecanismo diferente do que forma a maior parte do ATP na mitocôndria.
Nenhum carbono sai da glicólise como : os seis continuam nos dois piruvatos, que ainda guardam a maior parte da energia da glicose.
A glicólise acontece com ou sem oxigênio. O que muda é o destino do piruvato e do NADH. Com oxigênio, o piruvato entra na mitocôndria, e os elétrons do NADH seguem para a cadeia. Sem oxigênio, muitas células devolvem os elétrons do NADH ao próprio piruvato, ou a uma molécula derivada dele, e regeneram o . Sem essa reciclagem, a segunda metade da glicólise desacelera ou para.
Ciclo de Krebs
Antes do ciclo: o piruvato vira acetil-CoA
Na célula eucariótica, o piruvato é transportado para a matriz mitocondrial. Ali, um complexo de enzimas faz três coisas com cada piruvato: remove um carbono, liberado como (descarboxilação); oxida o fragmento de dois carbonos que sobra, transferindo elétrons ao ; e liga esse fragmento, o grupo acetil, à coenzima A, formando acetil-CoA.
Para dois piruvatos, essa etapa, chamada oxidação do piruvato ou reação de transição, rende , 2 NADH e 2 acetil-CoA. São os primeiros carbonos da glicose liberados como gás carbônico.
O que acontece em cada volta
O ciclo de Krebs, também chamado ciclo do ácido cítrico ou dos ácidos tricarboxílicos, ocorre na matriz. O grupo acetil (2 C) se une ao oxaloacetato (4 C) e forma citrato (6 C). Em uma sequência de reações, o citrato perde dois carbonos como e é oxidado em várias etapas até o oxaloacetato ser regenerado. Como a molécula inicial volta ao ponto de partida, o processo é um ciclo.
O ciclo forma pouco ATP diretamente. Seu produto mais importante são os carreadores reduzidos, que levam à cadeia a maior parte da energia da glicose.
Quase todas as enzimas do ciclo estão dissolvidas na matriz. A exceção é a succinato desidrogenase, que forma o : ela fica embutida na membrana interna e também faz parte da cadeia respiratória, onde se chama complexo II.
Para onde vão os carbonos da glicose
| Etapa | Onde estão os carbonos ao final | liberado, por glicose |
|---|---|---|
| Glicólise | 2 piruvatos (3 C cada) | 0 |
| Oxidação do piruvato | 2 grupos acetil (2 C cada) | 2 |
| Ciclo de Krebs (2 voltas) | No balanço, os 4 C dos grupos acetil | 4 |
| Total | 6 |
Os seis carbonos da glicose saem como seis moléculas de , todas liberadas na matriz. A cadeia respiratória não libera . Um detalhe para quem quer precisão: os dois de uma volta não contêm necessariamente os carbonos do acetil que acabou de entrar; eles são liberados em voltas seguintes. No balanço, cada volta recebe dois carbonos e libera dois.
Cadeia respiratória e fosforilação oxidativa
Até aqui a glicose foi totalmente oxidada a , mas só 4 ATP foram formados. A maior parte da energia está nos 10 NADH e . A última etapa converte essa energia em ATP por dois processos acoplados: o transporte de elétrons pela cadeia respiratória e a síntese de ATP pela ATP sintase. O conjunto se chama fosforilação oxidativa: fosforilação porque adiciona fosfato ao ADP; oxidativa porque é movida pela oxidação dos carreadores.
O caminho dos elétrons até o oxigênio
A cadeia é formada por quatro complexos proteicos presos à membrana interna (I, II, III e IV) e por dois transportadores móveis: a ubiquinona (coenzima Q), que se desloca dentro da membrana, e o citocromo c, uma pequena proteína que leva elétrons do complexo III ao IV.
A cada passagem, o elétron vai para um transportador com mais afinidade por elétrons; o oxigênio, no fim, é o de maior afinidade. Assim os elétrons "descem" pela cadeia liberando energia, e os complexos I, III e IV usam essa energia para bombear prótons () da matriz para o espaço intermembranas. O complexo II não bombeia.
O papel do oxigênio é, portanto, ser o aceptor final de elétrons. Sem , os elétrons não têm para onde ir: os transportadores ficam todos reduzidos, o fluxo para, a fosforilação oxidativa cessa e, em seguida, a falta de interrompe o ciclo de Krebs.
Gradiente de prótons e ATP sintase
O bombeamento deixa o espaço intermembranas com mais (mais ácido) e com excesso de carga positiva em relação à matriz. Essa diferença de concentração e de carga é um gradiente eletroquímico de prótons: energia armazenada, como água acumulada atrás de uma represa.
A membrana interna é praticamente impermeável ao . O caminho de volta à matriz é a ATP sintase, enzima que atravessa a membrana. Sua porção embutida () conduz os prótons e gira com a passagem deles; a porção voltada para a matriz () usa esse giro para unir ADP e . O mecanismo em que um gradiente de prótons através de uma membrana impulsiona a síntese de ATP é a quimiosmose; na respiração aeróbica da glicose, ele forma cerca de 90% do ATP.
Por que o NADH rende mais que o FADH₂
O número de ATP depende do número de prótons bombeados. Por par de elétrons, estima-se que o complexo I bombeie cerca de 4 prótons, o III cerca de 4 e o IV cerca de 2. Os elétrons do NADH passam pelos três: cerca de 10 prótons. Os do entram pela ubiquinona e passam só pelo III e pelo IV: cerca de 6 prótons.
A ATP sintase não consome todos os prótons do gradiente para si: parte dele é gasta para levar à matriz o fosfato usado na síntese e para trocar o ATP formado por ADP. Levando isso em conta, as estimativas atuais ficam em cerca de 2,5 ATP por NADH e 1,5 ATP por , o que corresponde a aproximadamente 4 prótons por ATP (; ). Os valores não são inteiros porque nenhuma reação liga um NADH a um número fixo de ATP: a ligação é feita pelo gradiente, uma grandeza contínua. Muitos livros didáticos usam os valores arredondados 3 e 2.
Saldo energético
Somando as etapas:
| Etapa | ATP formado diretamente | NADH | ||
|---|---|---|---|---|
| Glicólise (citosol) | 2 (saldo: 4 − 2) | 2 | 0 | 0 |
| Oxidação do piruvato (matriz) | 0 | 2 | 0 | 2 |
| Ciclo de Krebs (matriz, 2 voltas) | 2 | 6 | 2 | 4 |
| Total por glicose | 4 | 10 | 2 | 6 |
Transformar NADH e em número de ATP exige hipóteses. Um resultado só faz sentido quando elas estão claras.
Com as hipóteses 1 e 4, os números obtidos são máximos teóricos:
| Rendimento por carreador | NADH da glicólise entra como NADH | Entra como |
|---|---|---|
| 2,5 e 1,5 (estimativa atual) | 32 ATP | 30 ATP |
| 3 e 2 (contagem tradicional) | 38 ATP | 36 ATP |
O Exemplo intermediário, adiante, faz essas contas passo a passo. Nenhum dos quatro números está errado: cada um decorre de hipóteses diferentes. Em uma questão, use os valores dados no enunciado; sem eles, reconheça 30 a 32 como estimativa atual e 36 a 38 como contagem tradicional. Pela contagem tradicional, procariotos chegam a 38, porque o NADH da glicólise já está no mesmo compartimento que a cadeia.
Sobre a lançadeira, os livros didáticos costumam associar a via do FAD ao músculo esquelético e ao cérebro, e a via do NAD ao fígado, ao coração e aos rins. A divisão não é rígida: a lançadeira malato-aspartato, que entrega os elétrons ao , também funciona em mitocôndrias do cérebro.
Compare com a glicólise isolada, que forma 2 ATP por glicose: a oxidação completa rende cerca de 15 a 16 vezes mais pelas estimativas atuais (; ).
Respiração aeróbica, respiração anaeróbica e fermentação
O que caracteriza uma respiração celular, em sentido estrito, é uma cadeia transportadora de elétrons que entrega os elétrons a um aceptor final vindo de fora da via. O nome da respiração depende desse aceptor.
- Na respiração aeróbica, o aceptor final é o , que forma água.
- Na respiração anaeróbica, é outra substância, em geral inorgânica. Bactérias desnitrificantes do solo usam nitrato () e nitrito e liberam gás nitrogênio (); bactérias redutoras de sulfato formam sulfeto de hidrogênio (); arqueias metanogênicas reduzem a metano (). Há também aceptores orgânicos: a Escherichia coli pode usar o fumarato, que vira succinato. A respiração anaeróbica é típica de certos procariotos.
Na respiração anaeróbica, o gradiente de prótons gerado é menor e forma-se menos ATP que na aeróbica, porque esses aceptores atraem elétrons com menos intensidade que o oxigênio.
A fermentação é outro mecanismo. Não há cadeia transportadora: o NADH da glicólise devolve seus elétrons a uma molécula orgânica formada na própria via. O regenerado permite que a glicólise continue, e o ATP produzido é só o dela: 2 por glicose nas fermentações láctica e alcoólica.
- Na fermentação láctica, o piruvato recebe os elétrons e vira lactato. Ocorre em bactérias do iogurte, nas hemácias de mamíferos, que não têm mitocôndrias, e em músculos esqueléticos quando o oxigênio não acompanha a demanda.
- Na fermentação alcoólica, feita por leveduras, o piruvato perde , e o acetaldeído formado é reduzido a etanol.
| Respiração aeróbica | Respiração anaeróbica | Fermentação | |
|---|---|---|---|
| Aceptor final de elétrons | Outra substância, em geral inorgânica (nitrato, sulfato); às vezes orgânica (fumarato) | Molécula orgânica da própria via (piruvato ou derivado) | |
| Cadeia transportadora e gradiente de prótons | Sim | Sim, com gradiente menor | Não |
| ATP por glicose | Até cerca de 30 a 32 (máximo teórico, estimativa atual) | Menos que na aeróbica; depende do aceptor | 2 (láctica e alcoólica) |
| Produto formado a partir do aceptor | , ou , por exemplo | Lactato; ou etanol, com liberação de | |
| Exemplos | Humanos, plantas, fungos, muitas bactérias | Bactérias desnitrificantes e redutoras de sulfato, arqueias metanogênicas | Músculo em esforço intenso, bactérias do iogurte, leveduras |
Muitos procariotos são anaeróbios facultativos: obtêm energia com ou sem oxigênio e passam a respirar quando há um aceptor adequado, porque a respiração rende muito mais ATP por glicose. Anaeróbios obrigatórios, como bactérias do gênero Clostridium, vivem na ausência de oxigênio molecular e morrem quando expostos a ele. A fermentação e seus usos industriais têm tópico próprio; aqui, o essencial é a diferença de mecanismo.
Inibidores da cadeia respiratória
Um inibidor da cadeia bloqueia a passagem de elétrons em algum ponto. Seus efeitos seguem a lógica do acoplamento:
Cianeto
O cianeto se liga fortemente à citocromo c oxidase (complexo IV) e impede que ela entregue os elétrons ao oxigênio. A fosforilação oxidativa praticamente cessa, e o pouco ATP da glicólise não basta para órgãos que dependem de grande consumo de oxigênio.
A intoxicação mostra bem o mecanismo: o sangue continua chegando oxigenado, mas as células não conseguem usar o (hipóxia histotóxica). Por isso o sangue venoso volta com saturação de oxigênio mais alta que o normal, e há acúmulo de ácido lático. Oxigênio suplementar, sozinho, não resolve; o tratamento médico exige antídotos específicos.
O cianeto de hidrogênio pode ser liberado na queima de plásticos e outros materiais sintéticos com nitrogênio, o que torna a fumaça de incêndios uma fonte importante. Algumas plantas, como a mandioca, contêm compostos que liberam cianeto e exigem processamento adequado antes do consumo.
Monóxido de carbono
O monóxido de carbono (CO), formado na queima incompleta de combustíveis, atua em dois alvos:
- Hemoglobina. O CO se liga a ela com afinidade até 200 a 250 vezes maior que a do , formando carboxi-hemoglobina. O sangue passa a transportar menos oxigênio e a liberá-lo com mais dificuldade nos tecidos.
- Citocromo c oxidase. O CO também se liga ao complexo IV e perturba diretamente a respiração celular.
Por muito tempo, a explicação da intoxicação se concentrou na hemoglobina. Revisões recentes dão peso crescente aos efeitos diretos nos tecidos, incluindo a inibição da cadeia. Para o estudo, basta saber que os dois mecanismos se somam: chega menos oxigênio às células, e o que chega é mal aproveitado.
A comparação com o cianeto é útil. No cianeto, o oxigênio chega, mas não é usado. No CO, chega menos oxigênio, e parte do que chega também não é bem usada. Nos dois casos, a produção mitocondrial de ATP cai.
Outros inibidores
| Substância | Onde age | Consequência |
|---|---|---|
| Rotenona | Complexo I | Bloqueia a entrada dos elétrons do NADH; os do , que entram pela ubiquinona, ainda podem seguir |
| Antimicina A | Complexo III | Impede a passagem de elétrons da ubiquinona ao citocromo c |
| Cianeto, azida e CO | Complexo IV | Impedem a entrega de elétrons ao |
| Oligomicina | ATP sintase (não é componente da cadeia) | O ATP deixa de ser formado; o gradiente fica alto e freia o transporte de elétrons |
A oligomicina mostra o acoplamento em ação: não bloqueia nenhum complexo, mas, ao fechar a volta dos prótons pela ATP sintase, derruba o consumo de . O consumo não chega a zero porque alguns prótons vazam de volta pela membrana, e esse vazamento sustenta um pouco de respiração.
Desacopladores
Um desacoplador não bloqueia a cadeia. Ele abre um atalho: permite que o volte do espaço intermembranas à matriz sem passar pela ATP sintase. O resultado contraria a intuição de quem espera que "menos ATP" signifique "menos respiração".
O exemplo clássico é o 2,4-dinitrofenol (DNP), que torna a membrana interna permeável a prótons. Ele já foi usado como emagrecedor, justamente porque aumenta a oxidação de combustível; o uso médico foi abandonado pelos efeitos graves, com elevação descontrolada da temperatura corporal e mortes. Mesmo assim, voltou a ser vendido pela internet: uma revisão de 2011 reuniu 62 mortes atribuídas a ele na literatura médica.
Exemplos resolvidos
Distinções importantes
Respiração pulmonar e respiração celular. A primeira é a troca de gases entre ar e sangue; a segunda, a oxidação do combustível dentro das células. O expirado é produzido na matriz mitocondrial, e o inspirado é consumido no complexo IV.
Consumo direto e dependência indireta de oxigênio. Só o complexo IV consome . O ciclo de Krebs e a oxidação do piruvato não usam oxigênio, mas param sem ele, porque dependem do e do FAD regenerados pela cadeia.
Fosforilação no nível do substrato e fosforilação oxidativa. Na primeira, uma enzima transfere fosfato de uma molécula intermediária ao ADP (glicólise e ciclo de Krebs: 4 ATP por glicose). Na segunda, o gradiente de prótons movimenta a ATP sintase (a maior parte do ATP).
Respiração anaeróbica e fermentação. A respiração anaeróbica usa cadeia transportadora e um aceptor final diferente do , em geral inorgânico. A fermentação não usa cadeia: o NADH devolve os elétrons a uma molécula orgânica da própria via, e só se formam os 2 ATP da glicólise. "Sem oxigênio" não basta para classificar um processo.
Inibidor e desacoplador.
| Inibidor da cadeia (ex.: cianeto) | Inibidor da ATP sintase (ex.: oligomicina) | Desacoplador (ex.: DNP) | |
|---|---|---|---|
| Transporte de elétrons e consumo de | Param (bloqueio no complexo IV) | Caem bastante | Aumentam |
| Gradiente de prótons | Desfaz-se | Fica alto | Dissipa-se |
| ATP formado pela mitocôndria | Para | Para | Cai |
| Energia da oxidação | Deixa de ser liberada na cadeia | Liberação freada pelo gradiente | Liberada como calor |
Saldo máximo e rendimento real. Os 30 a 32 ATP (ou 36 a 38) são máximos teóricos sob hipóteses; o rendimento de uma célula real é menor e varia com o tecido e as condições.
Perguntas frequentes
Plantas fazem respiração celular?
Sim. As células vegetais têm mitocôndrias e respiram de dia e de noite, usando os açúcares que produzem na fotossíntese. Durante o dia, a fotossíntese costuma superar a respiração nas folhas iluminadas, e o balanço de gases visível é de liberação de ; isso esconde a respiração, mas não a interrompe.
Se a cadeia forma água, por que a equação global mostra só 6 H₂O?
Porque a equação global é um saldo. A cadeia forma 12 moléculas de água por glicose (6 recebendo 24 elétrons), mas 6 moléculas de água são consumidas em reações do ciclo de Krebs. A diferença, 6, é o que aparece do lado dos produtos.
Por que os livros dão números diferentes de ATP por glicose?
Porque usam hipóteses diferentes. Livros mais antigos e muitos materiais didáticos adotam 3 ATP por NADH e 2 por (36 a 38 por glicose). Medidas e modelos atuais indicam cerca de 2,5 e 1,5 (30 a 32). Além disso, o resultado muda com a lançadeira que traz os elétrons do NADH citosólico. Em uma questão, valem os dados do enunciado.
A falta de oxigênio no músculo em exercício intenso é o que causa a fermentação?
A fermentação láctica aumenta quando a produção de ATP pela via aeróbica não acompanha a demanda, por exemplo porque o oxigênio disponível não basta. Nessa situação, converter piruvato em lactato regenera o e mantém a glicólise funcionando. O músculo não para de respirar; a fermentação se soma à respiração para cobrir a demanda momentânea.
Por que um desacoplador aquece o corpo, se ele reduz a produção de ATP?
A energia liberada pelo transporte de elétrons não desaparece. Normalmente, parte dela fica guardada no gradiente e depois no ATP. Com o desacoplador, os prótons voltam por um atalho, e essa energia é liberada diretamente como calor. Como a cadeia acelera, mais combustível é oxidado e mais calor é produzido.
Por que a rotenona não bloqueia toda a respiração?
Porque ela age no complexo I, a porta de entrada dos elétrons do NADH. Os elétrons do formado pela succinato desidrogenase entram pela ubiquinona, depois do ponto bloqueado, e ainda chegam ao oxigênio pelos complexos III e IV. O consumo de cai muito, mas não necessariamente a zero, desde que haja succinato disponível.
Exercícios
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Exercício 1
AutoralEm uma célula do fígado humano, a glicose é oxidada completamente pela respiração aeróbica. Qual associação entre etapa e local está correta?
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Resposta
Alternativa D. A cadeia respiratória fica na membrana interna da mitocôndria.
Resolução
Os complexos da cadeia respiratória, a ubiquinona e o citocromo c estão associados à membrana interna da mitocôndria, que forma as cristas. É ali que os elétrons chegam ao .
- A está errada: a glicólise ocorre no citosol.
- B está errada: o ciclo de Krebs ocorre na matriz mitocondrial. O espaço intermembranas é a região para onde a cadeia respiratória bombeia prótons.
- C está errada: em células eucarióticas, o piruvato entra na mitocôndria e é convertido em acetil-CoA na matriz.
- E está errada: a ATP sintase também está na membrana interna, porque aproveita o gradiente de prótons formado através dessa membrana.
Exercício 2
AutoralEm um experimento com células animais isoladas, todo o gás oxigênio disponível estava marcado com o isótopo pesado (), e a glicose fornecida não tinha marcação. Em qual produto o oxigênio marcado aparece diretamente, como resultado da reação da respiração celular que consome o ?
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Resposta
Alternativa E. O é o aceptor final de elétrons e forma água no complexo IV.
Resolução
A única reação da respiração celular que consome ocorre no complexo IV:
Glicólise, oxidação do piruvato e ciclo de Krebs não usam . Os oxigênios do vêm das moléculas orgânicas e da água que participa do ciclo de Krebs. A contagem de átomos confirma: separando a equação global em duas metades,
os 12 átomos de oxigênio do vêm da glicose e da água, e os 12 átomos do terminam na água. Somando as metades, 6 das 12 moléculas de água formadas repõem as 6 consumidas, e o saldo é a equação global, com .
- A e B estão erradas pelo motivo acima.
- C está errada: o ATP é formado a partir de ADP e fosfato inorgânico.
- D está errada: a glicólise não usa .
Uma ressalva vale para organismos inteiros observados por mais tempo. Em experimentos com animais que respiraram , o isótopo apareceu na água corporal e também no expirado. Isso acontece porque o oxigênio do se troca com o da água do corpo. A marcação chega ao por esse caminho indireto, depois de o ter formado água.
Exercício 3
AutoralUma pessoa exposta à fumaça de um incêndio foi diagnosticada com intoxicação por cianeto. Os exames mostram saturação de oxigênio no sangue venoso mais alta que o normal e acúmulo de ácido lático. Qual explicação está correta?
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Resposta
Alternativa A. Com o complexo IV bloqueado, o oxigênio chega aos tecidos, mas não é usado; a energia passa a vir da glicólise seguida de fermentação láctica.
Resolução
O cianeto se liga à citocromo c oxidase (complexo IV) e impede que os elétrons cheguem ao . Os tecidos passam a extrair muito pouco oxigênio do sangue, que volta pelas veias mais oxigenado que o normal (hipóxia histotóxica: o oxigênio chega, mas não é usado). Sem transporte de elétrons, o NADH não é reoxidado, o ciclo de Krebs para e a ATP sintase deixa de produzir ATP. Resta a glicólise, que mantém a produção de ATP regenerando pela conversão de piruvato em lactato; daí o acúmulo de ácido lático.
- B está errada: se o não se ligasse à hemoglobina, o sangue transportaria menos oxigênio, e o sangue venoso seria pobre, não rico, em .
- C está errada: o cianeto é um inibidor, não um desacoplador. Um desacoplador aumentaria o consumo de pelos tecidos, o que tenderia a reduzir o oxigênio do sangue venoso.
- D está errada: a glicólise continua e é justamente a fonte de ATP que resta.
- E está errada e inverte causa e consequência. O alvo do cianeto é o complexo IV, não a fermentação nem a hemoglobina. O aumento da fermentação láctica é consequência do bloqueio da cadeia; o oxigênio sobra no sangue venoso porque os tecidos deixam de usá-lo.
Exercício 4
AutoralConsidere que uma bactéria anaeróbia facultativa obtém 30 ATP por glicose na respiração aeróbica e 2 ATP por glicose na fermentação. Mantida a mesma demanda de ATP, o que acontece com o consumo de glicose quando essa bactéria deixa de fazer respiração aeróbica e passa a fermentar?
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Resposta
Alternativa C. O consumo de glicose fica 15 vezes maior.
Resolução
Se a célula precisa de moléculas de ATP, ela consome glicoses respirando e glicoses fermentando. A razão entre os consumos é:
A razão não depende de : vale para qualquer demanda de ATP.
- A inverte a razão. Como a fermentação rende menos ATP por glicose, o consumo aumenta, não diminui.
- B confunde o rendimento da fermentação (2 ATP) com a razão entre os consumos.
- D usa a diferença , e não a razão.
- E multiplica em vez de dividir.
O resultado depende dos valores adotados no enunciado. Com 32 ATP na respiração, a razão seria 16; com a contagem tradicional de 38, seria 19. Em qualquer caso, a célula que fermenta precisa consumir muito mais glicose para manter a mesma produção de ATP.
Exercício 5
AutoralO 2,4-dinitrofenol (DNP) transporta prótons do espaço intermembranas para a matriz mitocondrial, através da membrana interna, sem que eles passem pela ATP sintase. Em comparação com uma pessoa não exposta, espera-se que uma pessoa intoxicada por DNP apresente:
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Resposta
Alternativa D. O DNP é um desacoplador: os elétrons continuam fluindo até o , mas a energia do gradiente é liberada como calor, e não usada para produzir ATP.
Resolução
Ao levar prótons de volta à matriz por fora da ATP sintase, o DNP dissipa o gradiente de prótons. A síntese de ATP pelas mitocôndrias cai, porque a ATP sintase depende do fluxo de prótons através dela. O transporte de elétrons não é bloqueado: sem o gradiente, que normalmente o freia, ele segue em ritmo alto, e o consumo de aumenta. A energia liberada, que não é conservada em ATP, se dissipa como calor, e a temperatura corporal sobe.
- A está errada: queda no consumo de é típica de um inibidor da cadeia, não de um desacoplador.
- B e C estão erradas: um desacoplador reduz a produção de ATP pelas mitocôndrias.
- E descreve o efeito de um inibidor da cadeia, como o cianeto, que interrompe o transporte de elétrons. O desacoplador faz o contrário: acelera o transporte e o consumo de .
Mesmo que o organismo tente compensar oxidando mais combustível, cada molécula de consumida passa a render menos ATP.
Exercício 6
AutoralDuas bactérias foram cultivadas sem oxigênio. A bactéria 1 oxida compostos orgânicos usando uma cadeia transportadora de elétrons na membrana plasmática e entrega os elétrons ao nitrato, que é convertido em gás nitrogênio. A bactéria 2, usada na produção de iogurte, degrada glicose a piruvato e converte o piruvato em lactato, sem usar cadeia transportadora de elétrons. Como se classificam os processos das duas bactérias?
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Resposta
Alternativa E. A bactéria 1 faz respiração anaeróbica; a bactéria 2 faz fermentação láctica.
Resolução
O critério é a presença de cadeia transportadora de elétrons e a natureza do aceptor final.
-
A bactéria 1 usa uma cadeia transportadora e um aceptor final inorgânico diferente do , o nitrato. Isso é respiração anaeróbica; é o que fazem as bactérias desnitrificantes do solo.
-
A bactéria 2 não usa cadeia transportadora. O NADH da glicólise devolve seus elétrons ao piruvato, uma molécula orgânica, que vira lactato. Isso é fermentação láctica.
-
A usa o critério errado: a ausência de oxigênio não torna um processo fermentação. Com cadeia transportadora de elétrons e um aceptor final externo, como o nitrato, há respiração.
-
B está errada porque não há no processo da bactéria 1.
-
C está errada porque "sem oxigênio" também não basta para caracterizar respiração anaeróbica: sem cadeia transportadora, o processo da bactéria 2 é fermentação.
-
D inverte as classificações.
Exercício 7
AutoralNa cadeia respiratória, cada par de elétrons do NADH leva à formação de cerca de 2,5 ATP, e cada par de elétrons do , de cerca de 1,5 ATP. Qual afirmação explica essa diferença?
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Resposta
Alternativa B. Os elétrons do não passam pelo complexo I, então bombeiam menos prótons.
Resolução
A quantidade de ATP depende do número de prótons bombeados. Os elétrons do NADH passam pelos complexos I, III e IV, que bombeiam cerca de prótons. Os elétrons do entram pela ubiquinona e passam só pelos complexos III e IV: cerca de prótons. Com aproximadamente 4 prótons por ATP:
- A está errada: os elétrons do passam pela ubiquinona e pelos complexos III e IV antes de chegar ao .
- C está errada: o do ciclo de Krebs é formado pela succinato desidrogenase, que fica na própria membrana interna da mitocôndria; ele não precisa atravessar membrana alguma.
- D está errada: a ATP sintase aproveita qualquer próton do gradiente, qualquer que seja a origem da energia que o bombeou.
- E está errada: a energia do é aproveitada pela fosforilação oxidativa.
Referências
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