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Respiração Celular

Como a célula oxida a glicose e forma ATP: glicólise, ciclo de Krebs, NAD e FAD, cadeia respiratória, balanço de átomos, saldo energético com hipóteses, respiração anaeróbica e fermentação, inibidores e desacopladores.

Respiração celular é o conjunto de reações em que a célula oxida moléculas orgânicas, principalmente a glicose, e conserva parte da energia liberada na forma de ATP, a molécula que abastece a maior parte do trabalho celular. Na respiração aeróbica, que ocorre em animais, plantas, fungos e muitos microrganismos, os carbonos da glicose saem como gás carbônico (CO2\text{CO}_2), e o oxigênio (O2\text{O}_2) recebe, no fim do processo, os elétrons retirados da glicose, formando água.

O artigo segue o caminho da glicose em quatro etapas: glicólise, oxidação do piruvato, ciclo de Krebs e cadeia respiratória com a ATP sintase. Ao longo delas, quatro perguntas organizam o estudo: onde cada etapa acontece, para onde vão os átomos da glicose, qual é o papel do oxigênio e como o fluxo de elétrons vira ATP. Com essas respostas, fica possível calcular o saldo energético, distinguir respiração de fermentação e prever o efeito de venenos e desacopladores.

Visão geral: da glicose ao ATP

A equação global da respiração aeróbica da glicose é:

O resumo "glicose → CO2\text{CO}_2 + H2O\text{H}_2\text{O} + ATP" é útil, mas não é uma equação balanceada: nenhum átomo da glicose entra no ATP. O que a glicose fornece é energia, transferida por meio de elétrons.

Por que tantas etapas? Uma chama queima a glicose de uma vez, e toda a energia sai como calor e luz. Na célula, a oxidação é dividida em reações catalisadas por enzimas, e os elétrons passam por vários transportadores antes de chegar ao oxigênio. Liberar a energia em pequenas porções permite capturar parte dela: estima-se que cerca de 34% da energia da glicose seja conservada nessas vias, e o restante é liberado como calor.

Na célula eucariótica, a glicólise ocorre no citosol e as demais etapas, na mitocôndria. Essa organela tem duas membranas; a interna forma dobras, as cristas, e envolve o compartimento mais interno, a matriz. Entre as duas membranas fica o espaço intermembranas. Esses três endereços (matriz, membrana interna, espaço intermembranas) aparecem o tempo todo neste artigo.

EtapaOnde ocorre (célula eucariótica)Entra, por glicoseSai, por glicoseConsome O2\text{O}_2?
GlicóliseCitosol1 glicose2 piruvatos, saldo de 2 ATP, 2 NADHNão
Oxidação do piruvatoMatriz mitocondrial2 piruvatos2 acetil-CoA, 2 CO22\,\text{CO}_2, 2 NADHNão
Ciclo de KrebsMatriz mitocondrial2 acetil-CoA4 CO24\,\text{CO}_2, 6 NADH, 2 FADH22\,\text{FADH}_2, 2 ATP (ou GTP)Não
Cadeia respiratória e ATP sintaseMembrana interna da mitocôndriaElétrons do NADH e do FADH2\text{FADH}_2, 6 O26\,\text{O}_2, ADP e Pi\text{P}_\text{i}12 H2O12\,\text{H}_2\text{O}, NAD+\text{NAD}^+ e FAD reciclados, a maior parte do ATPSim

Alguns livros juntam a oxidação do piruvato ao ciclo de Krebs e falam em três etapas; a contagem não muda o processo. Em procariotos, que não têm mitocôndrias, a oxidação do piruvato e o ciclo de Krebs ocorrem no citoplasma, e a cadeia respiratória fica na membrana plasmática.

Fluxograma vertical da respiração aeróbica de uma glicose em célula eucariótica. No citosol, a glicólise converte a glicose, de 6 carbonos, em 2 piruvatos, de 3 carbonos, com saldo de 2 ATP e 2 NADH, sem usar oxigênio. Os piruvatos entram na mitocôndria. Na matriz, a oxidação do piruvato forma 2 acetil-CoA, 2 CO2 e 2 NADH; o ciclo de Krebs dá 2 voltas, libera 4 CO2 e forma 6 NADH, 2 FADH2 e 2 ATP ou GTP. Na membrana interna, a cadeia respiratória recebe os elétrons de 8 NADH da matriz, de 2 FADH2 e, por lançadeiras, dos 2 NADH do citosol; 6 O2 recebem os elétrons e formam 12 H2O, e prótons são bombeados para o espaço intermembranas; é a única etapa que consome O2. Os prótons voltam à matriz pela ATP sintase, que forma a maior parte do ATP. Rodapé: os 6 carbonos saem como 6 CO2 na matriz; máximo teórico de 30 a 32 ATP por glicose, ou 36 a 38 na contagem tradicional.
Etapas da respiração aeróbica de uma glicose em célula eucariótica, com quantidades por glicose. O total de ATP é um máximo teórico que depende das hipóteses discutidas em Saldo energético. Elaboração própria, com base em OpenStax Biology 2e, seções 7.2 a 7.4.

Balanço de átomos e uso do oxigênio

A tabela mostra algo que confunde muita gente: só a última etapa consome O2\text{O}_2, e é nela que se forma água. Separar a equação global em duas metades deixa isso visível.

Conferindo os oxigênios: os 12 átomos de oxigênio dos 6 CO26\,\text{CO}_2 vêm da glicose (6) e da água (6); os 12 átomos do O2\text{O}_2 terminam na água formada na cadeia. Portanto, o O2\text{O}_2 não se transforma em CO2\text{CO}_2. As 24 cargas de elétrons equivalem a 12 pares, entregues por 10 NADH e 2 FADH22\,\text{FADH}_2, como mostram as próximas seções.

O consumo de O2\text{O}_2 é, então, direto em uma única reação e indireto em todas as outras: glicólise, oxidação do piruvato e ciclo de Krebs não usam oxigênio, mas as etapas mitocondriais param sem ele, porque dependem dos carreadores que a cadeia devolve à forma oxidada.

A glicose é o exemplo clássico, não o único combustível. Ácidos graxos são quebrados na matriz mitocondrial em unidades de dois carbonos que formam acetil-CoA, e vários aminoácidos podem ser convertidos em piruvato, acetil-CoA ou intermediários do ciclo de Krebs. O ciclo e a cadeia respiratória servem, portanto, a açúcares, gorduras e proteínas.

Carreadores de elétrons: NAD e FAD

Oxidar uma substância é retirar elétrons dela; reduzir é fornecer elétrons. As duas coisas ocorrem juntas, em reações de oxirredução. Na respiração, os elétrons retirados da glicose costumam sair acompanhados de prótons, na forma de átomos de hidrogênio; por isso muitas das enzimas envolvidas se chamam desidrogenases.

Esses elétrons não vão direto ao oxigênio. Eles são entregues a coenzimas que funcionam como carregadores reutilizáveis: recebem elétrons em uma reação e os entregam em outra.

Os carreadores não são consumidos, e a quantidade deles na célula é pequena diante do fluxo de glicose. Por isso precisam ser reciclados o tempo todo: o NADH e o FADH2\text{FADH}_2 entregam os elétrons à cadeia respiratória e voltam à forma oxidada. Se essa devolução para, falta NAD+\text{NAD}^+, e as reações que dependem dele também param. Essa única ideia explica por que o ciclo de Krebs depende do oxigênio, por que existe fermentação e por que os venenos da cadeia são tão perigosos.

Os dois carreadores não se comportam da mesma forma:

NADFAD
Onde é reduzido na respiração da glicoseGlicólise (citosol), oxidação do piruvato e ciclo de Krebs (matriz)Ciclo de Krebs, na succinato desidrogenase
MobilidadeCircula livre no compartimento em que estáFica preso à enzima, na membrana interna
Por onde entrega elétrons à cadeiaComplexo I, no início da cadeiaUbiquinona, depois do complexo I
ConsequênciaMais prótons bombeados, mais ATPMenos prótons bombeados, menos ATP

Glicólise

A glicólise ("quebra da glicose") ocorre no citosol de células procarióticas e eucarióticas e não usa oxigênio. Em uma sequência de dez reações, uma glicose, com seis carbonos, é convertida em duas moléculas de piruvato, com três carbonos cada.

Esse ATP é formado por fosforilação no nível do substrato: uma enzima transfere um grupo fosfato de uma molécula intermediária diretamente para o ADP. É um mecanismo diferente do que forma a maior parte do ATP na mitocôndria.

Nenhum carbono sai da glicólise como CO2\text{CO}_2: os seis continuam nos dois piruvatos, que ainda guardam a maior parte da energia da glicose.

A glicólise acontece com ou sem oxigênio. O que muda é o destino do piruvato e do NADH. Com oxigênio, o piruvato entra na mitocôndria, e os elétrons do NADH seguem para a cadeia. Sem oxigênio, muitas células devolvem os elétrons do NADH ao próprio piruvato, ou a uma molécula derivada dele, e regeneram o NAD+\text{NAD}^+. Sem essa reciclagem, a segunda metade da glicólise desacelera ou para.

Ciclo de Krebs

Antes do ciclo: o piruvato vira acetil-CoA

Na célula eucariótica, o piruvato é transportado para a matriz mitocondrial. Ali, um complexo de enzimas faz três coisas com cada piruvato: remove um carbono, liberado como CO2\text{CO}_2 (descarboxilação); oxida o fragmento de dois carbonos que sobra, transferindo elétrons ao NAD+\text{NAD}^+; e liga esse fragmento, o grupo acetil, à coenzima A, formando acetil-CoA.

Para dois piruvatos, essa etapa, chamada oxidação do piruvato ou reação de transição, rende 2 CO22\,\text{CO}_2, 2 NADH e 2 acetil-CoA. São os primeiros carbonos da glicose liberados como gás carbônico.

O que acontece em cada volta

O ciclo de Krebs, também chamado ciclo do ácido cítrico ou dos ácidos tricarboxílicos, ocorre na matriz. O grupo acetil (2 C) se une ao oxaloacetato (4 C) e forma citrato (6 C). Em uma sequência de reações, o citrato perde dois carbonos como CO2\text{CO}_2 e é oxidado em várias etapas até o oxaloacetato ser regenerado. Como a molécula inicial volta ao ponto de partida, o processo é um ciclo.

O ciclo forma pouco ATP diretamente. Seu produto mais importante são os carreadores reduzidos, que levam à cadeia a maior parte da energia da glicose.

Quase todas as enzimas do ciclo estão dissolvidas na matriz. A exceção é a succinato desidrogenase, que forma o FADH2\text{FADH}_2: ela fica embutida na membrana interna e também faz parte da cadeia respiratória, onde se chama complexo II.

Para onde vão os carbonos da glicose

EtapaOnde estão os carbonos ao finalCO2\text{CO}_2 liberado, por glicose
Glicólise2 piruvatos (3 C cada)0
Oxidação do piruvato2 grupos acetil (2 C cada)2
Ciclo de Krebs (2 voltas)No balanço, os 4 C dos grupos acetil4
Total6

Os seis carbonos da glicose saem como seis moléculas de CO2\text{CO}_2, todas liberadas na matriz. A cadeia respiratória não libera CO2\text{CO}_2. Um detalhe para quem quer precisão: os dois CO2\text{CO}_2 de uma volta não contêm necessariamente os carbonos do acetil que acabou de entrar; eles são liberados em voltas seguintes. No balanço, cada volta recebe dois carbonos e libera dois.

Cadeia respiratória e fosforilação oxidativa

Até aqui a glicose foi totalmente oxidada a CO2\text{CO}_2, mas só 4 ATP foram formados. A maior parte da energia está nos 10 NADH e 2 FADH22\,\text{FADH}_2. A última etapa converte essa energia em ATP por dois processos acoplados: o transporte de elétrons pela cadeia respiratória e a síntese de ATP pela ATP sintase. O conjunto se chama fosforilação oxidativa: fosforilação porque adiciona fosfato ao ADP; oxidativa porque é movida pela oxidação dos carreadores.

Corte esquemático da membrana mitocondrial interna, com o espaço intermembranas acima e a matriz abaixo. Da esquerda para a direita: complexo I, complexo II, ubiquinona (Q), complexo III, citocromo c, complexo IV e ATP sintase (F0 na membrana, F1 na matriz). Setas laranja tracejadas mostram o caminho dos elétrons: do NADH, na matriz, ao complexo I; do succinato, que vira fumarato no complexo II, onde o FADH2 fica preso; dos complexos I e II à ubiquinona; da ubiquinona ao complexo III; pelo citocromo c ao complexo IV; e do complexo IV ao O2, que com 4 elétrons e 4 H+ forma 2 H2O na matriz. Setas pretas representam só prótons: cerca de 4 H+ bombeados no complexo I, 4 no III e 2 no IV por par de elétrons, para o espaço intermembranas, e H+ voltando à matriz pela ATP sintase, que forma ATP a partir de ADP e fosfato. O complexo II não bombeia prótons. Uma seta vermelha tracejada mostra o DNP levando H+ à matriz por fora da ATP sintase. Linha de bloqueios em vermelho: rotenona no complexo I, antimicina A no III, cianeto e CO no IV, oligomicina na ATP sintase.
Cadeia respiratória e ATP sintase na membrana interna, com o caminho dos elétrons (laranja), o bombeamento de prótons (preto) e os pontos de ação de inibidores e do desacoplador DNP (vermelho). Números de prótons aproximados, por par de elétrons; esquema sem escala. Elaboração própria, com base em OpenStax Biology 2e, seção 7.4, e Ahern et al., seção 5.2.

O caminho dos elétrons até o oxigênio

A cadeia é formada por quatro complexos proteicos presos à membrana interna (I, II, III e IV) e por dois transportadores móveis: a ubiquinona (coenzima Q), que se desloca dentro da membrana, e o citocromo c, uma pequena proteína que leva elétrons do complexo III ao IV.

A cada passagem, o elétron vai para um transportador com mais afinidade por elétrons; o oxigênio, no fim, é o de maior afinidade. Assim os elétrons "descem" pela cadeia liberando energia, e os complexos I, III e IV usam essa energia para bombear prótons (H+\text{H}^+) da matriz para o espaço intermembranas. O complexo II não bombeia.

O papel do oxigênio é, portanto, ser o aceptor final de elétrons. Sem O2\text{O}_2, os elétrons não têm para onde ir: os transportadores ficam todos reduzidos, o fluxo para, a fosforilação oxidativa cessa e, em seguida, a falta de NAD+\text{NAD}^+ interrompe o ciclo de Krebs.

Gradiente de prótons e ATP sintase

O bombeamento deixa o espaço intermembranas com mais H+\text{H}^+ (mais ácido) e com excesso de carga positiva em relação à matriz. Essa diferença de concentração e de carga é um gradiente eletroquímico de prótons: energia armazenada, como água acumulada atrás de uma represa.

A membrana interna é praticamente impermeável ao H+\text{H}^+. O caminho de volta à matriz é a ATP sintase, enzima que atravessa a membrana. Sua porção embutida (F0\text{F}_0) conduz os prótons e gira com a passagem deles; a porção voltada para a matriz (F1\text{F}_1) usa esse giro para unir ADP e Pi\text{P}_\text{i}. O mecanismo em que um gradiente de prótons através de uma membrana impulsiona a síntese de ATP é a quimiosmose; na respiração aeróbica da glicose, ele forma cerca de 90% do ATP.

Por que o NADH rende mais que o FADH₂

O número de ATP depende do número de prótons bombeados. Por par de elétrons, estima-se que o complexo I bombeie cerca de 4 prótons, o III cerca de 4 e o IV cerca de 2. Os elétrons do NADH passam pelos três: cerca de 10 prótons. Os do FADH2\text{FADH}_2 entram pela ubiquinona e passam só pelo III e pelo IV: cerca de 6 prótons.

A ATP sintase não consome todos os prótons do gradiente para si: parte dele é gasta para levar à matriz o fosfato usado na síntese e para trocar o ATP formado por ADP. Levando isso em conta, as estimativas atuais ficam em cerca de 2,5 ATP por NADH e 1,5 ATP por FADH2\text{FADH}_2, o que corresponde a aproximadamente 4 prótons por ATP (10÷4=2,510 \div 4 = 2{,}5; 6÷4=1,56 \div 4 = 1{,}5). Os valores não são inteiros porque nenhuma reação liga um NADH a um número fixo de ATP: a ligação é feita pelo gradiente, uma grandeza contínua. Muitos livros didáticos usam os valores arredondados 3 e 2.

Saldo energético

Somando as etapas:

EtapaATP formado diretamenteNADHFADH2\text{FADH}_2CO2\text{CO}_2
Glicólise (citosol)2 (saldo: 4 − 2)200
Oxidação do piruvato (matriz)0202
Ciclo de Krebs (matriz, 2 voltas)2624
Total por glicose41026

Transformar NADH e FADH2\text{FADH}_2 em número de ATP exige hipóteses. Um resultado só faz sentido quando elas estão claras.

Com as hipóteses 1 e 4, os números obtidos são máximos teóricos:

Rendimento por carreadorNADH da glicólise entra como NADHEntra como FADH2\text{FADH}_2
2,5 e 1,5 (estimativa atual)32 ATP30 ATP
3 e 2 (contagem tradicional)38 ATP36 ATP

O Exemplo intermediário, adiante, faz essas contas passo a passo. Nenhum dos quatro números está errado: cada um decorre de hipóteses diferentes. Em uma questão, use os valores dados no enunciado; sem eles, reconheça 30 a 32 como estimativa atual e 36 a 38 como contagem tradicional. Pela contagem tradicional, procariotos chegam a 38, porque o NADH da glicólise já está no mesmo compartimento que a cadeia.

Sobre a lançadeira, os livros didáticos costumam associar a via do FAD ao músculo esquelético e ao cérebro, e a via do NAD ao fígado, ao coração e aos rins. A divisão não é rígida: a lançadeira malato-aspartato, que entrega os elétrons ao NAD+\text{NAD}^+, também funciona em mitocôndrias do cérebro.

Compare com a glicólise isolada, que forma 2 ATP por glicose: a oxidação completa rende cerca de 15 a 16 vezes mais pelas estimativas atuais (30÷230 \div 2; 32÷232 \div 2).

Respiração aeróbica, respiração anaeróbica e fermentação

O que caracteriza uma respiração celular, em sentido estrito, é uma cadeia transportadora de elétrons que entrega os elétrons a um aceptor final vindo de fora da via. O nome da respiração depende desse aceptor.

  • Na respiração aeróbica, o aceptor final é o O2\text{O}_2, que forma água.
  • Na respiração anaeróbica, é outra substância, em geral inorgânica. Bactérias desnitrificantes do solo usam nitrato (NO3−\text{NO}_3^-) e nitrito e liberam gás nitrogênio (N2\text{N}_2); bactérias redutoras de sulfato formam sulfeto de hidrogênio (H2S\text{H}_2\text{S}); arqueias metanogênicas reduzem CO2\text{CO}_2 a metano (CH4\text{CH}_4). Há também aceptores orgânicos: a Escherichia coli pode usar o fumarato, que vira succinato. A respiração anaeróbica é típica de certos procariotos.

Na respiração anaeróbica, o gradiente de prótons gerado é menor e forma-se menos ATP que na aeróbica, porque esses aceptores atraem elétrons com menos intensidade que o oxigênio.

A fermentação é outro mecanismo. Não há cadeia transportadora: o NADH da glicólise devolve seus elétrons a uma molécula orgânica formada na própria via. O NAD+\text{NAD}^+ regenerado permite que a glicólise continue, e o ATP produzido é só o dela: 2 por glicose nas fermentações láctica e alcoólica.

  • Na fermentação láctica, o piruvato recebe os elétrons e vira lactato. Ocorre em bactérias do iogurte, nas hemácias de mamíferos, que não têm mitocôndrias, e em músculos esqueléticos quando o oxigênio não acompanha a demanda.
  • Na fermentação alcoólica, feita por leveduras, o piruvato perde CO2\text{CO}_2, e o acetaldeído formado é reduzido a etanol.
Respiração aeróbicaRespiração anaeróbicaFermentação
Aceptor final de elétronsO2\text{O}_2Outra substância, em geral inorgânica (nitrato, sulfato); às vezes orgânica (fumarato)Molécula orgânica da própria via (piruvato ou derivado)
Cadeia transportadora e gradiente de prótonsSimSim, com gradiente menorNão
ATP por glicoseAté cerca de 30 a 32 (máximo teórico, estimativa atual)Menos que na aeróbica; depende do aceptor2 (láctica e alcoólica)
Produto formado a partir do aceptorH2O\text{H}_2\text{O}N2\text{N}_2, H2S\text{H}_2\text{S} ou CH4\text{CH}_4, por exemploLactato; ou etanol, com liberação de CO2\text{CO}_2
ExemplosHumanos, plantas, fungos, muitas bactériasBactérias desnitrificantes e redutoras de sulfato, arqueias metanogênicasMúsculo em esforço intenso, bactérias do iogurte, leveduras

Muitos procariotos são anaeróbios facultativos: obtêm energia com ou sem oxigênio e passam a respirar quando há um aceptor adequado, porque a respiração rende muito mais ATP por glicose. Anaeróbios obrigatórios, como bactérias do gênero Clostridium, vivem na ausência de oxigênio molecular e morrem quando expostos a ele. A fermentação e seus usos industriais têm tópico próprio; aqui, o essencial é a diferença de mecanismo.

Inibidores da cadeia respiratória

Um inibidor da cadeia bloqueia a passagem de elétrons em algum ponto. Seus efeitos seguem a lógica do acoplamento:

Cianeto

O cianeto se liga fortemente à citocromo c oxidase (complexo IV) e impede que ela entregue os elétrons ao oxigênio. A fosforilação oxidativa praticamente cessa, e o pouco ATP da glicólise não basta para órgãos que dependem de grande consumo de oxigênio.

A intoxicação mostra bem o mecanismo: o sangue continua chegando oxigenado, mas as células não conseguem usar o O2\text{O}_2 (hipóxia histotóxica). Por isso o sangue venoso volta com saturação de oxigênio mais alta que o normal, e há acúmulo de ácido lático. Oxigênio suplementar, sozinho, não resolve; o tratamento médico exige antídotos específicos.

O cianeto de hidrogênio pode ser liberado na queima de plásticos e outros materiais sintéticos com nitrogênio, o que torna a fumaça de incêndios uma fonte importante. Algumas plantas, como a mandioca, contêm compostos que liberam cianeto e exigem processamento adequado antes do consumo.

Monóxido de carbono

O monóxido de carbono (CO), formado na queima incompleta de combustíveis, atua em dois alvos:

  • Hemoglobina. O CO se liga a ela com afinidade até 200 a 250 vezes maior que a do O2\text{O}_2, formando carboxi-hemoglobina. O sangue passa a transportar menos oxigênio e a liberá-lo com mais dificuldade nos tecidos.
  • Citocromo c oxidase. O CO também se liga ao complexo IV e perturba diretamente a respiração celular.

Por muito tempo, a explicação da intoxicação se concentrou na hemoglobina. Revisões recentes dão peso crescente aos efeitos diretos nos tecidos, incluindo a inibição da cadeia. Para o estudo, basta saber que os dois mecanismos se somam: chega menos oxigênio às células, e o que chega é mal aproveitado.

A comparação com o cianeto é útil. No cianeto, o oxigênio chega, mas não é usado. No CO, chega menos oxigênio, e parte do que chega também não é bem usada. Nos dois casos, a produção mitocondrial de ATP cai.

Outros inibidores

SubstânciaOnde ageConsequência
RotenonaComplexo IBloqueia a entrada dos elétrons do NADH; os do FADH2\text{FADH}_2, que entram pela ubiquinona, ainda podem seguir
Antimicina AComplexo IIIImpede a passagem de elétrons da ubiquinona ao citocromo c
Cianeto, azida e COComplexo IVImpedem a entrega de elétrons ao O2\text{O}_2
OligomicinaATP sintase (não é componente da cadeia)O ATP deixa de ser formado; o gradiente fica alto e freia o transporte de elétrons

A oligomicina mostra o acoplamento em ação: não bloqueia nenhum complexo, mas, ao fechar a volta dos prótons pela ATP sintase, derruba o consumo de O2\text{O}_2. O consumo não chega a zero porque alguns prótons vazam de volta pela membrana, e esse vazamento sustenta um pouco de respiração.

Desacopladores

Um desacoplador não bloqueia a cadeia. Ele abre um atalho: permite que o H+\text{H}^+ volte do espaço intermembranas à matriz sem passar pela ATP sintase. O resultado contraria a intuição de quem espera que "menos ATP" signifique "menos respiração".

O exemplo clássico é o 2,4-dinitrofenol (DNP), que torna a membrana interna permeável a prótons. Ele já foi usado como emagrecedor, justamente porque aumenta a oxidação de combustível; o uso médico foi abandonado pelos efeitos graves, com elevação descontrolada da temperatura corporal e mortes. Mesmo assim, voltou a ser vendido pela internet: uma revisão de 2011 reuniu 62 mortes atribuídas a ele na literatura médica.

Exemplos resolvidos

Distinções importantes

Respiração pulmonar e respiração celular. A primeira é a troca de gases entre ar e sangue; a segunda, a oxidação do combustível dentro das células. O CO2\text{CO}_2 expirado é produzido na matriz mitocondrial, e o O2\text{O}_2 inspirado é consumido no complexo IV.

Consumo direto e dependência indireta de oxigênio. Só o complexo IV consome O2\text{O}_2. O ciclo de Krebs e a oxidação do piruvato não usam oxigênio, mas param sem ele, porque dependem do NAD+\text{NAD}^+ e do FAD regenerados pela cadeia.

Fosforilação no nível do substrato e fosforilação oxidativa. Na primeira, uma enzima transfere fosfato de uma molécula intermediária ao ADP (glicólise e ciclo de Krebs: 4 ATP por glicose). Na segunda, o gradiente de prótons movimenta a ATP sintase (a maior parte do ATP).

Respiração anaeróbica e fermentação. A respiração anaeróbica usa cadeia transportadora e um aceptor final diferente do O2\text{O}_2, em geral inorgânico. A fermentação não usa cadeia: o NADH devolve os elétrons a uma molécula orgânica da própria via, e só se formam os 2 ATP da glicólise. "Sem oxigênio" não basta para classificar um processo.

Inibidor e desacoplador.

Inibidor da cadeia (ex.: cianeto)Inibidor da ATP sintase (ex.: oligomicina)Desacoplador (ex.: DNP)
Transporte de elétrons e consumo de O2\text{O}_2Param (bloqueio no complexo IV)Caem bastanteAumentam
Gradiente de prótonsDesfaz-seFica altoDissipa-se
ATP formado pela mitocôndriaParaParaCai
Energia da oxidaçãoDeixa de ser liberada na cadeiaLiberação freada pelo gradienteLiberada como calor

Saldo máximo e rendimento real. Os 30 a 32 ATP (ou 36 a 38) são máximos teóricos sob hipóteses; o rendimento de uma célula real é menor e varia com o tecido e as condições.

Perguntas frequentes

Plantas fazem respiração celular?

Sim. As células vegetais têm mitocôndrias e respiram de dia e de noite, usando os açúcares que produzem na fotossíntese. Durante o dia, a fotossíntese costuma superar a respiração nas folhas iluminadas, e o balanço de gases visível é de liberação de O2\text{O}_2; isso esconde a respiração, mas não a interrompe.

Se a cadeia forma água, por que a equação global mostra só 6 H₂O?

Porque a equação global é um saldo. A cadeia forma 12 moléculas de água por glicose (6 O2\text{O}_2 recebendo 24 elétrons), mas 6 moléculas de água são consumidas em reações do ciclo de Krebs. A diferença, 6, é o que aparece do lado dos produtos.

Por que os livros dão números diferentes de ATP por glicose?

Porque usam hipóteses diferentes. Livros mais antigos e muitos materiais didáticos adotam 3 ATP por NADH e 2 por FADH2\text{FADH}_2 (36 a 38 por glicose). Medidas e modelos atuais indicam cerca de 2,5 e 1,5 (30 a 32). Além disso, o resultado muda com a lançadeira que traz os elétrons do NADH citosólico. Em uma questão, valem os dados do enunciado.

A falta de oxigênio no músculo em exercício intenso é o que causa a fermentação?

A fermentação láctica aumenta quando a produção de ATP pela via aeróbica não acompanha a demanda, por exemplo porque o oxigênio disponível não basta. Nessa situação, converter piruvato em lactato regenera o NAD+\text{NAD}^+ e mantém a glicólise funcionando. O músculo não para de respirar; a fermentação se soma à respiração para cobrir a demanda momentânea.

Por que um desacoplador aquece o corpo, se ele reduz a produção de ATP?

A energia liberada pelo transporte de elétrons não desaparece. Normalmente, parte dela fica guardada no gradiente e depois no ATP. Com o desacoplador, os prótons voltam por um atalho, e essa energia é liberada diretamente como calor. Como a cadeia acelera, mais combustível é oxidado e mais calor é produzido.

Por que a rotenona não bloqueia toda a respiração?

Porque ela age no complexo I, a porta de entrada dos elétrons do NADH. Os elétrons do FADH2\text{FADH}_2 formado pela succinato desidrogenase entram pela ubiquinona, depois do ponto bloqueado, e ainda chegam ao oxigênio pelos complexos III e IV. O consumo de O2\text{O}_2 cai muito, mas não necessariamente a zero, desde que haja succinato disponível.

Exercícios

Tente resolver antes de conferir a resposta.

Exercício 1

Autoral

Em uma célula do fígado humano, a glicose é oxidada completamente pela respiração aeróbica. Qual associação entre etapa e local está correta?

  1. A

    Glicólise — matriz mitocondrial.

  2. B

    Ciclo de Krebs — espaço intermembranas da mitocôndria.

  3. C

    Oxidação do piruvato a acetil-CoA — citosol.

  4. D

    Cadeia respiratória — membrana interna da mitocôndria.

  5. E

    Síntese de ATP pela ATP sintase — membrana externa da mitocôndria.

Ver resposta e resoluçãoOcultar resposta e resolução

Resposta

Alternativa D. A cadeia respiratória fica na membrana interna da mitocôndria.

Resolução

Os complexos da cadeia respiratória, a ubiquinona e o citocromo c estão associados à membrana interna da mitocôndria, que forma as cristas. É ali que os elétrons chegam ao O2\text{O}_2.

  • A está errada: a glicólise ocorre no citosol.
  • B está errada: o ciclo de Krebs ocorre na matriz mitocondrial. O espaço intermembranas é a região para onde a cadeia respiratória bombeia prótons.
  • C está errada: em células eucarióticas, o piruvato entra na mitocôndria e é convertido em acetil-CoA na matriz.
  • E está errada: a ATP sintase também está na membrana interna, porque aproveita o gradiente de prótons formado através dessa membrana.

Exercício 2

Autoral

Em um experimento com células animais isoladas, todo o gás oxigênio disponível estava marcado com o isótopo pesado 18O{}^{18}\text{O} (18O2{}^{18}\text{O}_2), e a glicose fornecida não tinha marcação. Em qual produto o oxigênio marcado aparece diretamente, como resultado da reação da respiração celular que consome o O2\text{O}_2?

  1. A

    No CO2\text{CO}_2 liberado no ciclo de Krebs.

  2. B

    No CO2\text{CO}_2 liberado na oxidação do piruvato.

  3. C

    No ATP formado pela ATP sintase.

  4. D

    No piruvato formado na glicólise.

  5. E

    Na água formada no complexo IV da cadeia respiratória.

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Resposta

Alternativa E. O O2\text{O}_2 é o aceptor final de elétrons e forma água no complexo IV.

Resolução

A única reação da respiração celular que consome O2\text{O}_2 ocorre no complexo IV:

O2+4 e−+4 H+⟶2 H2O\text{O}_2 + 4\,e^- + 4\,\text{H}^+ \longrightarrow 2\,\text{H}_2\text{O}

Glicólise, oxidação do piruvato e ciclo de Krebs não usam O2\text{O}_2. Os oxigênios do CO2\text{CO}_2 vêm das moléculas orgânicas e da água que participa do ciclo de Krebs. A contagem de átomos confirma: separando a equação global em duas metades,

C6H12O6+6 H2O⟶6 CO2+24 H++24 e−\begin{aligned} \text{C}_6\text{H}_{12}\text{O}_6 + 6\,\text{H}_2\text{O} &\longrightarrow 6\,\text{CO}_2 \\ &\qquad + 24\,\text{H}^+ + 24\,e^- \end{aligned} 6 O2+24 H++24 e−⟶12 H2O6\,\text{O}_2 + 24\,\text{H}^+ + 24\,e^- \longrightarrow 12\,\text{H}_2\text{O}

os 12 átomos de oxigênio do CO2\text{CO}_2 vêm da glicose e da água, e os 12 átomos do O2\text{O}_2 terminam na água. Somando as metades, 6 das 12 moléculas de água formadas repõem as 6 consumidas, e o saldo é a equação global, com 6 H2O6\,\text{H}_2\text{O}.

  • A e B estão erradas pelo motivo acima.
  • C está errada: o ATP é formado a partir de ADP e fosfato inorgânico.
  • D está errada: a glicólise não usa O2\text{O}_2.

Uma ressalva vale para organismos inteiros observados por mais tempo. Em experimentos com animais que respiraram 18O2{}^{18}\text{O}_2, o isótopo apareceu na água corporal e também no CO2\text{CO}_2 expirado. Isso acontece porque o oxigênio do CO2\text{CO}_2 se troca com o da água do corpo. A marcação chega ao CO2\text{CO}_2 por esse caminho indireto, depois de o O2\text{O}_2 ter formado água.

Exercício 3

Autoral

Uma pessoa exposta à fumaça de um incêndio foi diagnosticada com intoxicação por cianeto. Os exames mostram saturação de oxigênio no sangue venoso mais alta que o normal e acúmulo de ácido lático. Qual explicação está correta?

  1. A

    O cianeto bloqueia o complexo IV; os tecidos passam a consumir muito menos O2\text{O}_2, que permanece no sangue, e as células passam a depender da glicólise com formação de lactato.

  2. B

    O cianeto impede a ligação do O2\text{O}_2 à hemoglobina; por isso o oxigênio se acumula no sangue venoso.

  3. C

    O cianeto desacopla a cadeia respiratória da ATP sintase, o que acelera o consumo de O2\text{O}_2 e a produção de lactato.

  4. D

    O cianeto inibe a glicólise, e o piruvato acumulado é convertido em lactato.

  5. E

    O cianeto estimula diretamente a fermentação láctica, e o lactato formado impede a hemoglobina de liberar o O2\text{O}_2 nos tecidos.

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Resposta

Alternativa A. Com o complexo IV bloqueado, o oxigênio chega aos tecidos, mas não é usado; a energia passa a vir da glicólise seguida de fermentação láctica.

Resolução

O cianeto se liga à citocromo c oxidase (complexo IV) e impede que os elétrons cheguem ao O2\text{O}_2. Os tecidos passam a extrair muito pouco oxigênio do sangue, que volta pelas veias mais oxigenado que o normal (hipóxia histotóxica: o oxigênio chega, mas não é usado). Sem transporte de elétrons, o NADH não é reoxidado, o ciclo de Krebs para e a ATP sintase deixa de produzir ATP. Resta a glicólise, que mantém a produção de ATP regenerando NAD+\text{NAD}^+ pela conversão de piruvato em lactato; daí o acúmulo de ácido lático.

  • B está errada: se o O2\text{O}_2 não se ligasse à hemoglobina, o sangue transportaria menos oxigênio, e o sangue venoso seria pobre, não rico, em O2\text{O}_2.
  • C está errada: o cianeto é um inibidor, não um desacoplador. Um desacoplador aumentaria o consumo de O2\text{O}_2 pelos tecidos, o que tenderia a reduzir o oxigênio do sangue venoso.
  • D está errada: a glicólise continua e é justamente a fonte de ATP que resta.
  • E está errada e inverte causa e consequência. O alvo do cianeto é o complexo IV, não a fermentação nem a hemoglobina. O aumento da fermentação láctica é consequência do bloqueio da cadeia; o oxigênio sobra no sangue venoso porque os tecidos deixam de usá-lo.

Exercício 4

Autoral

Considere que uma bactéria anaeróbia facultativa obtém 30 ATP por glicose na respiração aeróbica e 2 ATP por glicose na fermentação. Mantida a mesma demanda de ATP, o que acontece com o consumo de glicose quando essa bactéria deixa de fazer respiração aeróbica e passa a fermentar?

  1. A

    Cai para 1/15 do valor anterior.

  2. B

    Dobra.

  3. C

    Fica 15 vezes maior.

  4. D

    Fica 28 vezes maior.

  5. E

    Fica 60 vezes maior.

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Resposta

Alternativa C. O consumo de glicose fica 15 vezes maior.

Resolução

Se a célula precisa de NN moléculas de ATP, ela consome N/30N/30 glicoses respirando e N/2N/2 glicoses fermentando. A razão entre os consumos é:

N/2N/30=302=15\frac{N/2}{N/30} = \frac{30}{2} = 15

A razão não depende de NN: vale para qualquer demanda de ATP.

  • A inverte a razão. Como a fermentação rende menos ATP por glicose, o consumo aumenta, não diminui.
  • B confunde o rendimento da fermentação (2 ATP) com a razão entre os consumos.
  • D usa a diferença 30−2=2830 - 2 = 28, e não a razão.
  • E multiplica 30×230 \times 2 em vez de dividir.

O resultado depende dos valores adotados no enunciado. Com 32 ATP na respiração, a razão seria 16; com a contagem tradicional de 38, seria 19. Em qualquer caso, a célula que fermenta precisa consumir muito mais glicose para manter a mesma produção de ATP.

Exercício 5

Autoral

O 2,4-dinitrofenol (DNP) transporta prótons do espaço intermembranas para a matriz mitocondrial, através da membrana interna, sem que eles passem pela ATP sintase. Em comparação com uma pessoa não exposta, espera-se que uma pessoa intoxicada por DNP apresente:

  1. A

    menor consumo de O2\text{O}_2, menor produção de ATP e queda da temperatura corporal.

  2. B

    consumo de O2\text{O}_2 inalterado, maior produção de ATP e temperatura inalterada.

  3. C

    maior consumo de O2\text{O}_2, maior produção de ATP e aumento da temperatura corporal.

  4. D

    maior consumo de O2\text{O}_2, menor produção de ATP pelas mitocôndrias e aumento da temperatura corporal.

  5. E

    consumo de O2\text{O}_2 quase nulo, menor produção de ATP e acúmulo de O2\text{O}_2 no sangue venoso.

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Resposta

Alternativa D. O DNP é um desacoplador: os elétrons continuam fluindo até o O2\text{O}_2, mas a energia do gradiente é liberada como calor, e não usada para produzir ATP.

Resolução

Ao levar prótons de volta à matriz por fora da ATP sintase, o DNP dissipa o gradiente de prótons. A síntese de ATP pelas mitocôndrias cai, porque a ATP sintase depende do fluxo de prótons através dela. O transporte de elétrons não é bloqueado: sem o gradiente, que normalmente o freia, ele segue em ritmo alto, e o consumo de O2\text{O}_2 aumenta. A energia liberada, que não é conservada em ATP, se dissipa como calor, e a temperatura corporal sobe.

  • A está errada: queda no consumo de O2\text{O}_2 é típica de um inibidor da cadeia, não de um desacoplador.
  • B e C estão erradas: um desacoplador reduz a produção de ATP pelas mitocôndrias.
  • E descreve o efeito de um inibidor da cadeia, como o cianeto, que interrompe o transporte de elétrons. O desacoplador faz o contrário: acelera o transporte e o consumo de O2\text{O}_2.

Mesmo que o organismo tente compensar oxidando mais combustível, cada molécula de O2\text{O}_2 consumida passa a render menos ATP.

Exercício 6

Autoral

Duas bactérias foram cultivadas sem oxigênio. A bactéria 1 oxida compostos orgânicos usando uma cadeia transportadora de elétrons na membrana plasmática e entrega os elétrons ao nitrato, que é convertido em gás nitrogênio. A bactéria 2, usada na produção de iogurte, degrada glicose a piruvato e converte o piruvato em lactato, sem usar cadeia transportadora de elétrons. Como se classificam os processos das duas bactérias?

  1. A

    Bactéria 1: fermentação, porque não usa oxigênio; bactéria 2: fermentação láctica.

  2. B

    Bactéria 1: respiração aeróbica; bactéria 2: fermentação láctica.

  3. C

    As duas fazem respiração anaeróbica, porque nenhuma usa oxigênio.

  4. D

    Bactéria 1: fermentação láctica; bactéria 2: respiração anaeróbica.

  5. E

    Bactéria 1: respiração anaeróbica; bactéria 2: fermentação láctica.

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Resposta

Alternativa E. A bactéria 1 faz respiração anaeróbica; a bactéria 2 faz fermentação láctica.

Resolução

O critério é a presença de cadeia transportadora de elétrons e a natureza do aceptor final.

  • A bactéria 1 usa uma cadeia transportadora e um aceptor final inorgânico diferente do O2\text{O}_2, o nitrato. Isso é respiração anaeróbica; é o que fazem as bactérias desnitrificantes do solo.

  • A bactéria 2 não usa cadeia transportadora. O NADH da glicólise devolve seus elétrons ao piruvato, uma molécula orgânica, que vira lactato. Isso é fermentação láctica.

  • A usa o critério errado: a ausência de oxigênio não torna um processo fermentação. Com cadeia transportadora de elétrons e um aceptor final externo, como o nitrato, há respiração.

  • B está errada porque não há O2\text{O}_2 no processo da bactéria 1.

  • C está errada porque "sem oxigênio" também não basta para caracterizar respiração anaeróbica: sem cadeia transportadora, o processo da bactéria 2 é fermentação.

  • D inverte as classificações.

Exercício 7

Autoral

Na cadeia respiratória, cada par de elétrons do NADH leva à formação de cerca de 2,5 ATP, e cada par de elétrons do FADH2\text{FADH}_2, de cerca de 1,5 ATP. Qual afirmação explica essa diferença?

  1. A

    O FADH2\text{FADH}_2 entrega seus elétrons diretamente ao O2\text{O}_2, sem passar pelos complexos da cadeia.

  2. B

    Os elétrons do FADH2\text{FADH}_2 passam do complexo II para a ubiquinona sem passar pelo complexo I; por isso, menos prótons são bombeados por par de elétrons.

  3. C

    O FADH2\text{FADH}_2 é formado no citosol e gasta parte de sua energia para entrar na mitocôndria.

  4. D

    A ATP sintase só aproveita os prótons bombeados com a energia do NADH.

  5. E

    O FADH2\text{FADH}_2 produz ATP apenas por fosforilação no nível do substrato.

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Resposta

Alternativa B. Os elétrons do FADH2\text{FADH}_2 não passam pelo complexo I, então bombeiam menos prótons.

Resolução

A quantidade de ATP depende do número de prótons bombeados. Os elétrons do NADH passam pelos complexos I, III e IV, que bombeiam cerca de 4+4+2=104 + 4 + 2 = 10 prótons. Os elétrons do FADH2\text{FADH}_2 entram pela ubiquinona e passam só pelos complexos III e IV: cerca de 4+2=64 + 2 = 6 prótons. Com aproximadamente 4 prótons por ATP:

104=2,564=1,5\frac{10}{4} = 2{,}5 \qquad \frac{6}{4} = 1{,}5
  • A está errada: os elétrons do FADH2\text{FADH}_2 passam pela ubiquinona e pelos complexos III e IV antes de chegar ao O2\text{O}_2.
  • C está errada: o FADH2\text{FADH}_2 do ciclo de Krebs é formado pela succinato desidrogenase, que fica na própria membrana interna da mitocôndria; ele não precisa atravessar membrana alguma.
  • D está errada: a ATP sintase aproveita qualquer próton do gradiente, qualquer que seja a origem da energia que o bombeou.
  • E está errada: a energia do FADH2\text{FADH}_2 é aproveitada pela fosforilação oxidativa.

Referências

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